terça-feira, 20 de setembro de 2016


Uma semana em Portugal


Alberto GonçalvesDiário de Notícias, 18 de Setembro de 2016

Uma das gémeas Mortágua, família cuja notoriedade define o país, mostrou quem realmente governa isto e anunciou um novo imposto sobre o património imobiliário («para apanhar quem escapa ao IRS»).

O PCP, que em matéria de assaltos não gosta de ficar à porta e invade furioso a horta, quer alargar o imposto ao património mobiliário, ou seja colocar a mão literalmente na massa.

A CGTP, que lutou pela «escola pública» (?), luta agora pelos trabalhadores despedidos dos colégios privados que se empenhou em fechar.

O secretário de Estado que viajou à conta da GALP não se demite do cargo mas demite-se de tutelar a GALP.

O Presidente dos «afectos» ouviu um par de «homólogos» estrangeiros jurarem-lhe pela pujança da economia indígena e não percebeu o sarcasmo.

O — passe a expressão — primeiro-ministro exibiu o imaginário que lhe habita a cabecinha e, em momento de típica erudição, sugeriu a Pedro Passos Coelho que vá caçar Pokémons.

O — desculpem o termo — ministro das Finanças, que cá dentro compete em boa disposição com o dr. Costa, andou lá fora a jurar que trabalha imenso para evitar um segundo «resgate», que na verdade seria o quarto.

Os portugueses que ainda não enlouqueceram já nem duvidam da necessidade do resgate, mas duvidam que o tenhamos quando precisarmos dele. O problema é que os portugueses que ainda não enlouqueceram são uma minoria de resistentes. E um problema maior é que, aos poucos, a resistência perde razão de ser: a cada semana, o ambiente em curso convida à resignação e ao abandono. De acordo com as sondagens, cinquenta e tal por cento dos cidadãos registam os sinais e acham que a coisa vai no bom caminho.

No meio da desagregação geral, a opinião publicada aflige-se com a entrevista de um juiz (pretexto para exaltar o eng. Sócrates), as memórias de um antigo assessor (pretexto para criticar Cavaco) e os mexericos do arq. Saraiva (pretexto para demolir Passos Coelho). Portugal é uma casa em chamas onde os moradores só se preocupam com a fechadura que range. Não tarda, estamos a olear a porta reduzida a cinzas. E a culpar a «direita», a «Europa» e a Via Láctea pelos estragos. A Via Láctea não é nossa amiga.





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