sábado, 26 de janeiro de 2013

O desatino do povo de Deus em Portugal

Nuno Serras Pereira

Nesta nação em que nos foi dado nascer e viver a maioria da sociedade, que se confessa católica, está inteiramente desnorteada pela propaganda quotidiana do que lhe é incutido pela maior parte dos políticos, de grande parte da comunicação social e a espaços por não poucos prelados. De facto, todo o mundo está persuadido de que o maior problema do nosso país, e quiçá do mundo, é a crise económico-financeira. Sem negar, de modo algum, a seriedade desta e a urgência de a ultrapassar deve-se, no entanto, afirmar que há assuntos bem mais graves, que passam ao lado daqueles que controlam o que devemos saber, os assuntos em que devemos pensar, as conversas que devemos ter.

Há aí alguém que tenha consciência de que no mundo de hoje, de cinco em cinco minutos, se assassina um cristão por causa da sua Fé? Quem se detém em noticiar e aprofundar a matança de cento e cinco mil cristãos exterminados, por causa da sua Fé, só no ano passado? E, todavia, sabemos que se tratasse de um punhado de irmãos judeus, ou muçulmanos, ou, mesmo, de um só «gay» (ou lgbt) o alarido seria interminável, com declarações solenes de repúdio, ao mais alto nível, com movimentações e manifestações de rua, «debates» unanimemente escandalizados nas televisões e nas rádios, comunicados e abaixo-assinados por tudo quanto é redes sociais e inter-rede, enfim, um clamor estriduloso.

Claro que empedernidos num egoísmo indiferente podemos ignorar, em contradição flagrante com a nossa Fé – que opera pela Caridade –, e mesmo a simples solidariedade humana, os sofrimentos e as injustiças que padecem esses nossos irmãos, cuidando que estamos a salvo numa pacífica segurança norte-ocidental.

A verdade porém é que se algum cristão ou qualquer outra pessoa de boa vontade se julga seguro, ou é ignorante, ou é ingénuo, ou é lorpa. A enorme insensatez ou cegueira da maioria dos cristãos e dos católicos, incluindo altos prelados, tem consistido em não quererem ver, ou então em cumpliciarem-se com uma minoria extremamente activa que de ano para ano, imparável, determinada, persistente, imbatível, tem vindo a conquistar as mentalidades, a sugar as almas, a inverter a moral, a corroer o bem comum, a cancerar a subsidiariedade, a derrancar a solidariedade, a torpedear a eminente dignidade transcendente de cada pessoa humana, a minar as instituições, a dominar a comunicação social, a controlar a justiça, a manipular a política, a ludibriar os Pastores.

A decisão obstinada de muitos prelados em «trabalhar» nos «bastidores» com as autoridades tem, ao contrário de tantos outros países, deixado o povo de Deus ignaro da Doutrina, privado de defesas, rendido à mentalidade dominante, incapaz de resistência, entorpecido numa modorra, entibiado por uma identidade desmaiada, se não mesmo moribunda, inábil para o combate espiritual, seguidor de lobos vorazes, abandonado aos predadores.

Contra os falsos profetas de um optimismo vão, tantas vezes desmascarado nas Sagradas Escrituras, é imprescindível tomar consciência da realidade, dos factos, para que cooperando com a Graça de Deus se dê lugar à Esperança verdadeira.

Se não despertarmos e não «combatermos o bom combate» seremos cruelmente perseguidos, impiedosamente lançados às enxovias, obscenamente abusados, implacavelmente entregues ao matadouro.

É inteiramente verdade que Nosso Senhor Jesus Cristo nos avisou das perseguições e da Cruz, em especial aos primeiros cristãos, que, sendo uma minoria minúscula, tinham de conquistar a imensa massa de povos idólatras. Mas o Senhor não disse que fossemos esparvoados, imbecis, cobardes, indiferentes, atoleimados, que nos deixássemos enredar pelas subtilezas astuciosas do Inimigo. Não nos mandou que fossemos passivos diante da injustiça, da mentira, da manipulação, do desamor. Pelo contrário, imperou-nos que amássemos radicalmente guerreando o mal e o pecado com a fortaleza que nos comunica pelo Seu Espírito. Se os cristãos, em particular os católicos, assim o tivessem feito aquando dos repetidos alertas de Pio IX, de Leão XIII, de Bento XIV, de Pio X, de Pio XI, de Pio XII, teriam impedido as monstruosas tragédias do comunismo, do nazismo, do fascismo. Quanta catástrofe, quanta hecatombe, quanto flagelo, quanta calamidade, quanta assolação, quanta violentíssima crueldade se teria evitado; quantas vidas poupadas, quantas almas salvadas, quantas famílias mantidas, quantas cidades inteiras, quantas nações em pacífica harmonia!

A alucinação geral contemporânea em que estamos mergulhados leva muitos a suporem que nos dias de hoje não existem, nem de longe nem de perto, perigos, mais ou menos, semelhantes. Esta enorme ilusão é já, evidentemente, uma consequência da programada mesmerização colectiva a que temos vindo a ser submetidos. Os alertas, então, do Bem-aventurado João Paulo II e os, agora, do Papa Bento XVI foram e são frequentes. Quereremos nós imitar a irresponsabilidade ou a insensatez das gerações que nos precederam deixando que as minorias malignas provoquem novas calamidades?


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