segunda-feira, 22 de maio de 2017

Quando Reagan disse que os pastorinhos eram mais poderosos que o seu exército

Quando Reagan disse que os pastorinhos eram mais poderosos que o seu exército

Filipe d’Avillez, 11 de Maio de 2017

O Presidente dos Estados Unidos evocou o exemplo dos pastorinhos de Fátima quando discursou no Parlamento, em Lisboa, em 1985.

Quando os deputados portugueses se sentaram na Assembleia da República para ouvir discursar Ronald Reagan, em 1985, poucos esperariam uma referência a Fátima e aos pastorinhos. Mas foi isso que aconteceu.

Já na fase final do seu discurso, Reagan abordou a dimensão religiosa do homem. «A nossa reivindicação de liberdade humana e a nossa sugestão de que os direitos inalienáveis vêm de alguém maior do que nós estão ancoradas no transcendente», disse, para depois evocar João Paulo II, seu amigo e aliado na luta contra o comunismo.

«Ninguém fez mais para recordar o mundo da verdade da dignidade humana, bem como do facto de que a paz e a justiça começam com cada um de nós, que aquele homem especial que veio a Portugal há uns anos depois de ter sofrido um terrível atentado. Veio cá, a Fátima, o local do vosso grande santuário, movido pela sua especial devoção a Maria, para pedir pelo perdão e pela compaixão entre os homens, para rezar pela paz e o reconhecimento da dignidade humana através do mundo», disse Reagan.

Mas o mais surpreendente ainda estava para vir. «Quando me encontrei com o Papa João Paulo II, no ano passado, no Alasca, agradeci-lhe pela sua vida e pelo seu apostolado. Atrevi-me a sugerir que o exemplo de homens como ele e nas orações de pessoas simples em todo o mundo, pessoas simples como os pastorinhos de Fátima, reside mais poder do que em todos os grandes exércitos e estadistas do mundo.»

Reagan concluiu então, dizendo que apesar de ele ser Presidente de uma das duas superpotências mundiais, vinha a Portugal também para aprender sobre o poder. «Isto também é algo que os portugueses podem ensinar ao mundo. Porque a grandeza da vossa nação, como a de qualquer nação, reside no vosso povo. Pode ser vista no seu dia-a-dia, nas suas comunidades e vilas, e sobretudo nas igrejas simples que pontuam a vossa terra e que dão testemunho de uma fé que justifica todas as reivindicações de dignidade e liberdade dos homens.»

«Digo-vos que é aqui que está o poder, aqui se encontra a realização final do sentido da vida e do propósito da história e aqui se encontra a fundação para uma ideia revolucionária – a ideia de que os homens têm o direito de determinar o seu próprio destino.»

A história deste discurso foi revelada num artigo escrito pelo historiador Paul Kengor, na revista Crisis. O autor recorda que Tony Dolan, o principal autor dos discursos de Reagan, era um católico devoto que conhecia bem Fátima. Dolan confirmou a Kengor que o Presidente, apesar de não ser católico, estava a par do fenómeno.

«Ele sabia de Fátima. Fátima era uma parte importante do movimento anticomunista. O movimento de Fátima era algo que ele teria conhecido e, para além disso, ele tinha uma vertente mística muito forte.»

Por isso Dolan incluiu a frase no discurso: «Eu sabia que ele ia gostar e que a iria usar. Tinha a certeza. Foi muito atrevido».

Mas o interesse de Reagan por Fátima não se ficou por aí. Em 1987 o Presidente ia novamente encontrar-se com o Papa, em Roma, e sabendo da importância de Fátima para João Paulo II quis inteirar-se totalmente sobre o assunto. O homem encarregue de o fazer foi o embaixador dos EUA junto da Santa Sé, Frank Shakespeare, que, por coincidência, tinha sido embaixador em Lisboa antes de ser colocado no Vaticano.

«Falei com o Reagan sobre Fátima na viagem, tanto no avião como no carro. E ele escutou com muita, muita atenção – estava muito atento. Estava mesmo muito interessado», recorda Shakespeare, em conversa com Kengor.

A julgar por estes testemunhos, dos líderes mundiais da altura, não era apenas o Papa João Paulo II que Fátima tinha um papel importante a desempenhar na luta contra o comunismo.




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