sexta-feira, 12 de maio de 2017

Nossa Senhora


José Régio (1901-1969)

    Tenho ao cimo da escada, de maneira
    Que logo entrando os olhos me dão nela,
    Uma Nossa Senhora de Madeira
    Arrancada a um Calvário de capela.

    Põe as mãos com fervor e angústia. O manto
    Cobre-lhe a testa, os ombros, cai composto;
    E uma expressão de febre e espanto
    Quase lhe afeia o fino rosto.

    Mãe das Dores, seus olhos enevoados
    Olham chorosos, fixos, muito além...
    E eu, ao passar, detenho os passos apressados
    Peço-lhe: – A sua bênção, Mãe!

    Sim, fazemo-nos boa companhia,
    E não me assusta a sua dor; quase me apraz.
    O Filho dessa Mãe nunca mais morre. Aleluia!
    Só isso bastaria a me dar paz.

    «Porque choras Mulher?... – docemente a repreendo,
    Mas à minh'alma, então, chega de longe a sua voz
    Que eu bem entendo:
    «Eu sei! Teus filhos somos nós».





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