sábado, 24 de setembro de 2011

A propaganda episcopal
do testamento mortal

Nuno Serras Pereira

Hoje, entre o meio-dia e a uma, a rádio renascença (RR) – que é reconhecida e promovida pela Igreja como católica -, propriedade do Patriarcado de Lisboa e da Conferência Episcopal, num programa cujo nome não recordo pôs a “debate” o, impropriamente, chamado “testamento vital” (devia denominar-se “declaração antecipada de tratamento”). Pelo menos, três das “sumidades” que palraram advogaram obstinadamente o carácter vinculativo do dito documento (embora me esforçasse estoicamente por aguentar tanta barbaridade não aguentei ouvir o programa na sua totalidade). Qualquer pessoa minimamente informada sabe que essa “vinculação” significa de facto abrir a porta à eutanásia constituindo, por isso, uma agressão violenta e homicida, bem como uma ataque directo à autonomia e liberdade da pessoa em estado de enorme vulnerabilidade. Não é para admirar, uma vez que a estação emissora patriarcal (o Patriarcado de Lisboa é, de longe, o proprietário principal) sabia que estes três eutanazis eram conhecidos abortistas que estiveram fortemente empenhados no referendo sobre a liberalização do aborto, pelo lado do Sim à mesma. São eles João Semedo do bloco de esquerda, Eurico Reis, juiz desembargador (convidado residente) e Miguel Oliveira da Silva, presidente do conselho nacional de ética para as ciências da vida (!). Este último, aliás, é especialmente conhecido por, várias vezes, ter orgulhosamente confessado, na televisão, que ele próprio praticava abortamentos.

A rádio dos nossos Bispos está tão feliz e orgulhosa com as declarações deste último que anda a repeti-las nos noticiários.

Se perguntássemos ao Cardeal Patriarca de Lisboa e à Conferência Episcopal se reconhecem ter graves responsabilidades na liberalização do aborto e na eutanásia que aí vem responderiam indignados atirando-nos com uma resma de papéis, que quase ninguém lê, onde está, como de facto está, preto no branco a sua oposição e boa parte da Doutrina da Igreja sobre o assunto. Deste modo o simples facto da interrogação seria etiquetado de ofensa e calúnia. A verdade, porém, é que aquilo que escreveram tem sido contrariado, quer por uma indiferença generalizada, uma negligência de há muitos anos na formação dos católicos sobre o Evangelho da vida, sobre moral e bioética; na aceitação de catequistas, de ministros extraordinários da Comunhão e tantas outras pessoas com responsabilidades eclesiais e diocesanas publicamente favoráveis ao aborto, à eutanásia, à experimentação em pessoas embrionárias, à reprodução artificial, etc.; e na cumplicidade, repito, na cumplicidade com as forças da morte ao conceder-lhes voz para advogarem as suas perfídias pestíferas nos meios de comunicação social da Igreja, particularmente na RR.

Que o mundo fique a saber, os Bispos portugueses desde há muitos anos compactuam, do modo acima descrito, com o abuso mortal de menores nascentes (também se poderia dizer, pedofobia mortífera) e agora com os eutanazis.

Conheço uma quantidade significativa de rádios e televisões católicas, mas em nenhuma oiço ou vejo algo de semelhante. Pelo contrário, têm bastantes programas de formação nestes campos – uma coisa aliás que desse há muitos anos os movimentos de defesa e promoção da vida, aqui em Portugal, vêm pedindo mas sem nenhum sucesso.

O Bispo do Porto, D. Manuel Clemente, tem dito várias vezes que é necessário, mesmo antes de um novo referendo sobre a defesa da vida, um grande debate nacional sobre a mesma. Com toda a consideração que tenho pelo senhor Bispo estou em que o mais urgente é a formação dos católicos sobre estas matérias, coisa com a qual não se vê os senhores Bispos preocupados ou, pelo menos, decididos.

Por mim, não tenho dúvidas, se o comportamento dos meios de comunicação social da Igreja, em particular da RR, a estação emissora com a mais vasta audiência a nível nacional, tivesse sido como devia ser o resultado do último referendo sobre o aborto teria sido muito diferente.

Os nossos Pastores poderão desconsiderar, com um ligeiro encolher de ombros e um suspiro de enfado, aquilo que diz um beldroega como eu, recordem-se, no entanto, que dentro em breve terão de responder diante do Supremo Juiz não só pelo que fizeram, mas também pelo que deixaram fazer e ainda pelo que não fizeram.

À honra de Cristo. Ámen.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Bento XVI:
«Escolas católicas devem ensinar a Verdade necessária para a salvação das almas»

Ao receber um grupo de 23 bispos da Conferência Episcopal da Índia em visita "ad limina", o Papa Bento XVI assinalou que uma das grandes contribuições da Igreja à sociedade são as escolas católicas, que devem ensinar a Verdade para a salvação das almas e a construção da sociedade.

No seu discurso no Palácio Apostólico de Castel Gandolfo o Santo Padre ressaltou a grande contribuição da Igreja através de seus membros e de suas muitas obras de ajuda como os orfanatos, hospitais e clínicas, entre os quais as escolas católicas são lugares especiais: "elas são um testemunho excepcional do vosso compromisso com a educação e formação dos nossos queridos jovens", afirmou o Papa.

Por isso, o Papa convidou os prelados a "prestar muita atenção para a qualidade do ensino nas escolas presentes nas vossas dioceses, para garantir que elas sejam genuinamente católicas e, portanto, capazes de transmitir as verdades e os valores necessários para a salvação das almas e a edificação da sociedade".

Bento XVI afirmou também aos bispos que "certamente, as escolas católicas não são o único meio pelo qual a Igreja pretende instruir e edificar seu povo intelectual e moralmente".

"Como vocês sabem, todas as actividades da Igreja são feitas para glorificar a Deus e encher o seu povo com a verdade que nos torna livres", acrescentou.

"Esta verdade salvadora, no coração do depósito da fé, deve permanecer como fundamento de todo o esforço da Igreja, propondo aos outros sempre com respeito, mas também com compromisso".

O Papa assinalou mais adiante que a "capacidade de apresentar a verdade delicadamente, mas com firmeza, é um dom a ser alimentado especialmente entre aqueles que ensinam nas instituições católicas de ensino superior e aqueles que estão encarregados da tarefa eclesial de educar os seminaristas, religiosas ou os fiéis leigos, seja na teologia, na catequese ou no estudo da espiritualidade cristã".

"Aqueles que ensinam em nome da Igreja têm uma obrigação especial nas suas mãos: transmitir fielmente a riqueza da tradição, de acordo com o Magistério e de uma forma que responde às necessidades de hoje; enquanto os alunos têm o direito de receber a plenitude da herança intelectual e espiritual da Igreja".

Autoridade vaticana:
Leis da Igreja vêm da vontade de Deus

O Presidente do Pontifício Conselho para os Textos Legislativos no Vaticano, Dom Francesco Coccopalmerio, realizou uma apresentação do seu dicastério à comunidade académica da Faculdade de Teologia Pontifícia e Civil de Lima (Peru), onde expressou que as leis dadas por uma autoridade eclesiástica devem ser recebidas porque "vêm da vontade de Deus".

"As leis dos homens são imperfeitas, mas de qualquer modo vêm de uma autoridade eclesiástica. Mesmo sendo imperfeitas devemos recebê-las porque vêm da vontade de Deus", disse Dom Coccopalmerio neste 1.º de Setembro perante centenas de estudantes que encheram o Salão Magno do mencionado centro de estudos.

A autoridade vaticana explicou que a finalidade de seu dicastério é "a mesma que o Papa deve cumprir para com o serviço da Igreja universal", que é velar por ela, e "o Pontifício Conselho para os Textos Legislativos desenvolve suas funções com a finalidade: de ajudar o Santo Padre neste tema".

"Sabemos que o Direito Canónico é o conjunto de leis que regulam a vida do baptizado, mas grande parte delas estão já no evangelho".

Para o serviço do Direito Canónico, disse, "o Papa desenvolve actividades de legislação, vigilância, interpretação e de promoção do conhecimento da verdade".

"O Pontifício Conselho para os Textos Legislativos pode tirar uma norma porque está obsoleta ou pode ser nociva, se o Papa o autorizar, e com a mesma ideia pode-se criar novas", explicou.

O Arcebispo visitou o Peru para participar como conferencista do 6.º Curso de Actualização em Direito Canónico, iniciativa organizada pela Associação Peruana de Canonistas.

"A tarefa é fazer que o conjunto legislativo da Igreja esteja sempre em dia e se façam normas novas quando for oportuno", acrescentou.

Ante a pergunta sobre as mudanças nas normas da Igreja nos casos de abusos sexuais o prelado referiu que "temos normas novas mais eficazes. Por exemplo, é necessário que os bispos diocesanos tenham uma normativa que descreve a maneira de proceder nestes casos, cada Conferência Episcopal tem o dever de fazer esta normativa".

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Educação
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Da doença mental pedagogista
e igualitarista
ao egoísmo liberal

Heduíno Gomes

Vivemos há decénios sob o domínio dos doentes mentais pedagogistas e igualitaristas na educação, que produziram a miséria de ensino que conhecemos. Eis que agora os liberais ganham fôlego e pretendem tomar o seu lugar para conduzirem o sistema à anarquia total (sim, ainda é possível haver mais anarquia do que a que existe!), bem calculada ao sabor dos interesses do complexo pedagogico-industrial e das famílias com posses para colocar os seus rebentos nos colégios ricos.

Curiosamente, esta guerra tem vindo a ser especialmente travada por um certo número de católicos de salão atrás do «Fórum para a Liberdade de Educação», que assim demonstra bem os seus sentimentos caridosos a coçar-se para dentro.

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segunda-feira, 5 de setembro de 2011

A Igreja da Áustria e a de Portugal
perante a dissidência de alguns padres...

Cardeal de Viena de Áustria:

«Rebeldia de sacerdotes dissidentes
não pode continuar»

 



Enquanto alguns responsáveis da Igreja em Portugal recentemente se revelaram rebeldes em relação ao Magistério da Igreja, dando assim aos seus sacerdotes de beber da mesma água, na prática  instigando os sacerdotes portugueses igualmente à rebeldia, eis que o exemplo contrário vem da Áustria. O Arcebispo de Viena de Áustria, Cardeal Christoph Schönborn, assinalou que a rebeldia de um grupo de sacerdotes que nesse país promovem, entre outras coisas, a abolição do celibato e a ordenação de mulheres, "não pode continuar".

Assim indicou o Cardeal austríaco ao referir-se aos pouco mais de 300 sacerdotes (dos 2 mil que há na Áustria) que assinaram um manifesto aparecido em Junho na Internet intitulado "Chamado à desobediência" no qual propõem também que homens casados sejam ordenados, que a comunhão seja dada aos não católicos e que leigos possam dirigir paróquias.

Os dissidentes que assinaram este texto são liderados pelo sacerdote Helmut Schüller, Vigário Geral da Arquidiocese de Viena entre 1995 e 1999 e ex-director da Cáritas Áustria.

Perante a dissidência deste grupo de sacerdotes, o Cardeal Schönborn comparou-os a jogadores de futebol que entram em campo mas se negam a respeitar as regras do jogo.

"Se alguém decide ser dissidente, evidentemente isso terá consequências", assinalou o Cardeal em declarações ao jornal Der Standard.

O Arcebispo de Viena expressou ainda a sua surpresa pelo manifesto e recordou a estes sacerdotes que fizeram livremente um voto de obediência ao seu bispo quando foram ordenados, "por isso quem quebra este princípio dissolve a unidade".

Por seu lado, o Bispo de Graz (Áustria), Dom Egon Kapellari, qualificou o manifesto como "um perigo para a unidade da Igreja".


terça-feira, 30 de agosto de 2011

Porque não são liberais os católicos...

Quando a sociedade não é dirigida por católicos sinceros mas por ditos «católicos» oportunistas, socialistas ou liberais, as nações empobrecem. E quem paga a factura são sempre os mesmos. A Argentina é mais um exemplo. Eis porque, entre muitas outras razões -- de ordem filosófica, moral, social, familiar, jurídica, cultural, etc. --, os católicos não podem ser liberais na economia.

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sábado, 20 de agosto de 2011

Bento XVI sobre educação

CARTA DO PAPA BENTO XVI

À DIOCESE E À CIDADE DE ROMA

SOBRE A TAREFA URGENTE

DA FORMAÇÃO DAS NOVAS GERAÇÕES


Queridos fiéis de Roma!

Pensei dirigir-me a vós com esta carta para vos falar de um problema que vós próprios sentis e sobre o qual as várias componentes da nossa Igreja se estão a comprometer: o problema da educação. Todos temos a preocupação pelo bem das pessoas que amamos, sobretudo das nossas crianças, adolescentes e jovens. De facto, sabemos que depende deles o futuro desta nossa cidade. Portanto, não podemos deixar de ser solícitos pela formação das novas gerações, pela sua capacidade de se orientar na vida e discernir o bem do mal, pela sua saúde não só física mas também moral.

Mas educar nunca foi fácil, e hoje parece tornar-se sempre mais difícil. Sabem-no bem os pais, os professores, os sacerdotes e todos os que desempenham responsabilidades educativas directas. Fala-se por isso de uma grande "emergência educativa", confirmada pelos insucessos com os quais com muita frequência se confrontam os nossos esforços para formar pessoas sólidas, capazes de colaborar com os outros e dar um sentido à própria vida. É espontâneo, então, dar a culpa às novas gerações, como se as crianças que nascem hoje fossem diversas das que nasciam no passado. Além disso, fala-se de uma "ruptura entre as gerações", que certamente existe e pesa, mas que é o efeito, e não a causa, da malograda transmissão de certezas e valores.

Devemos portanto dar a culpa aos adultos de hoje, que talvez já não sejam capazes de educar? É forte certamente, quer entre os pais quer entre os professores e em geral entre os educadores, a tentação a renunciar, e ainda antes o risco de não compreender nem sequer qual seja o seu papel, ou melhor a missão que lhes foi confiada. Na realidade, estão em questão não só as responsabilidades pessoais dos adultos ou dos jovens, que contudo existem e não devem ser escondidas, mas também uma atmosfera difundida, uma mentalidade e uma forma de cultura que fazem duvidar do valor da pessoa humana, do próprio significado da verdade e do bem, em síntese, da bondade da vida. Então, torna-se difícil transmitir de uma geração a outra algo de válido e de certo, regras de comportamento, objectivos credíveis com base nos quais construir a própria vida.

Queridos irmãos e irmãs de Roma, a este ponto gostaria de vos dizer uma palavra muito simples: não temais! Todas estas dificuldades, de facto, não são insuperáveis. São antes, por assim dizer, a outra face da moeda daquele dom grande e precioso que é a nossa liberdade, com a responsabilidade que justamente a acompanha. Contrariamente a quanto acontece em campo técnico ou económico, onde os progressos de hoje se podem somar aos do passado, no âmbito da formação e do crescimento moral das pessoas não existe uma semelhante possibilidade de acumulação, porque a liberdade do homem é sempre nova e portanto cada pessoa e cada geração deve tomar de novo, e directamente, as suas decisões. Também os maiores valores do passado não podem simplesmente ser herdados, devem ser feitos nossos e renovados através de uma, muitas vezes difícil, escolha pessoal.

Mas quando as bases são abaladas e faltam as certezas fundamentais, a necessidade daqueles valores volta a fazer-se sentir de modo urgente: assim, em concreto, aumenta hoje o pedido de uma educação que o seja verdadeiramente. Pedem-na os pais, preocupados e muitas vezes angustiados com o futuro dos próprios filhos; pedem-na muitos professores, que vivem a triste experiência da degradação das suas escolas; pede-a a sociedade no seu conjunto, que vê postas em dúvida as próprias bases da convivência; pedem-na no seu íntimo os próprios jovens, que não querem ser deixados sozinhos perante os desafios da vida. Quem crê em Jesus Cristo tem depois um ulterior e mais forte motivo para não ter receio: de facto, sabe que Deus não nos abandona, que o seu amor nos alcança onde estamos e como somos, com as nossas misérias e debilidades, para nos oferecer uma nova possibilidade de bem.

Queridos irmãos e irmãs, para tornar mais concretas estas minhas reflexões, pode ser útil determinar algumas exigências comuns de uma autêntica educação. Ela tem necessidade antes de tudo daquela proximidade e confiança que nascem do amor: penso na primeira e fundamental experiência do amor que as crianças fazem, ou pelo menos deveriam fazer, com os seus pais. Mas cada verdadeiro educador sabe que para educar deve doar algo de si mesmo e que só assim pode ajudar os seus alunos a superar egoísmos e a tornar-se por sua vez capazes de amor autêntico.

Há já numa criança um grande desejo de saber e de compreender, que se manifesta nas suas contínuas perguntas e pedidos de explicações. Portanto a educação seria muito pobre se se limitasse a dar noções e informações, e deixasse de lado a grande pergunta em relação à verdade, sobretudo àquela verdade que pode servir de orientação na vida.

Também o sofrimento faz parte da verdade da nossa vida. Por isso, procurando proteger os mais jovens de qualquer dificuldade e experiência do sofrimento, arriscamos de fazer crescer, apesar das nossas boas intenções, pessoas frágeis e pouco generosas: a capacidade de amar corresponde de facto à capacidade de sofrer, e de sofrer juntos.

Chegamos assim, queridos amigos de Roma, talvez ao ponto mais delicado da obra educativa: encontrar um justo equilíbrio entre a liberdade e a disciplina. Sem regras de comportamento e de vida, feitas valer dia após dia também nas pequenas coisas, não se forma o carácter e não se está preparado para enfrentar as provas que não faltarão no futuro. Mas a relação educativa é antes de tudo o encontro de duas liberdades e a educação com sucesso é formação para o recto uso da liberdade. Mas à medida que a criança cresce, torna-se um adolescente e depois um jovem; portanto devemos aceitar o risco da liberdade, permanecendo sempre atentos a ajudá-lo a corrigir ideias e opções erradas. O que nunca devemos fazer é favorecê-lo nos erros, fingir que não os vemos, ou pior partilhá-los, como se fossem as novas fronteiras do progresso humano.

Portanto, a educação nunca pode prescindir daquela respeitabilidade que torna credível a prática da autoridade. De facto, ela é fruto de experiência e competência, mas adquire-se sobretudo com a coerência da própria vida e com o comprometimento pessoal, expressão do amor verdadeiro. Portanto, o educador é uma testemunha da verdade e do bem: sem dúvida, também ele é frágil e pode falhar, mas procurará sempre de novo pôr-se em sintonia com a sua missão.

Caríssimos irmãos de Roma, destas simples considerações sobressai como é decisivo na educação o sentido de responsabilidade: responsabilidade do educador, certamente, mas também, e na medida em que cresce com a idade, responsabilidade do filho, do aluno, do jovem que entra no mundo do trabalho. É responsável quem sabe responder a si mesmo e aos outros. Além disso, quem crê procura responder a Deus que o amou primeiro.

A responsabilidade é em primeiro lugar pessoal, mas existe também uma responsabilidade que partilhamos juntos, como cidadãos de uma mesma cidade e de uma nação, como membros da família humana e, se somos crentes, como filhos de um único Deus e membros da Igreja. De facto as ideias, os estilos de vida, as leis, as orientações gerais da sociedade em que vivemos, e a imagem que ela dá de si mesma através dos meios de comunicação, exercem uma grande influência sobre a formação das novas gerações, para o bem mas muitas vezes também para o mal. Contudo a sociedade não é uma abstracção; no final somos nós próprios, todos juntos, com as orientações, as regras e os representantes que elegemos, mesmo sendo diversos os papéis e as responsabilidades de cada um. Portanto, há necessidade da contribuição de cada um de nós, de cada pessoa, família ou grupo social, para que a sociedade, começando pela nossa cidade de Roma, se torne um ambiente mais favorável à educação.

Por fim, gostaria de vos propor um pensamento que desenvolvi na recente Carta Encíclica Spe salvi sobre a esperança cristã: a alma da educação, como da toda a vida, só pode ser uma esperança certa. Hoje a nossa esperança está insidiada de muitas partes e corremos o risco de nos tornarmos, também nós, como os antigos pagãos, homens "sem esperança e sem Deus neste mundo" como escrevia o apóstolo Paulo aos cristãos de Éfeso (Ef 2, 12). Precisamente daqui nasce a dificuldade talvez mais profunda para uma verdadeira obra educativa: na raiz da crise da educação está de facto uma crise de confiança na vida.

Portanto, não posso terminar esta carta sem um caloroso convite a ter Deus como nossa esperança. Só Ele é a esperança que resiste a todas as desilusões; só o seu amor não pode ser destruído pela morte; só a sua justiça e a sua misericórdia podem sanear as injustiças e recompensar os sofrimentos suportados. A esperança que se dirige a Deus nunca é esperança só para mim, é sempre também esperança para os outros: não nos isola, mas torna-nos solidários no bem, estimula-nos a educar-nos reciprocamente para a verdade e para o amor.

Saúdo-vos com afecto e garanto-vos uma especial recordação na oração, enquanto envio a todos a minha Bênção.

Vaticano, 21 de Janeiro de 2008.


terça-feira, 26 de julho de 2011

As estrelas cadentes e decadentes

João J. Brandão Ferreira

A actriz Amy Winehouse morreu.

Numa sociedade “equilibrada” ler-se-ia no seu epitáfio o cristianíssimo “paz à sua alma”. Epitáfio cristão, simples e … pudico.

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Motivações do terrorista de Oslo
são anticristãs

As motivações do homem que assumiu a autoria dos atentados de Oslo, Anders Behring Breivik, não têm nada a ver com o cristianismo, nem sequer com ramos do cristianismo fundamentalista, explica o sociólogo da religião Massimo Introvigne, representante da Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa (OSCE) para a luta contra o racismo e as discriminações contra os cristãos.

Ao contrário, perfila-se numa organização de inspiração maçónica.

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sexta-feira, 8 de julho de 2011

Educar é ver mais longe

Nota Pastoral do Bispo de Aveiro
sobre as aulas de Educação Moral
e Religiosa Católica
(EMRC)

1.O mês de Junho é para as escolas e para quantos nelas estudam e ensinam o mês de avaliação do ano lectivo que termina e o mês de matrículas em ordem ao novo ano que vai começar. É o mês de exames de avaliação para aferir o passado e o mês de projectos educativos para desenhar o futuro. Devia, por isso mesmo, ser mês de festa e de alegria, de gratidão e de esperança.O que se vive e celebra nas escolas reflecte-se nas famílias e nas comunidades. A escola não é indiferente ou marginal a nada nem a ninguém na comunidade em que está inserida. O que ali se ensina e aprende, realiza e acontece, define e decide o rumo da sociedade que queremos ser. Um exame não avalia apenas o aluno e o professor. O seu resultado não lhes pertence em exclusivo. É êxito ou fracasso de todos nós. Uma avaliação feita na escola é, também, oportunidade de aferição de critérios educativos e de valores vividos em casa e na terra e uma matrícula aí realizada é sempre portadora de um projecto de futuro para a família e para a comunidade.

2.Na escola, semeia-se, constrói-se, ensina-se, educa-se e sonha-se. E isso é acção permanente. É trabalho de todos os dias do ano lectivo. A escola é casa de janelas abertas ao futuro. O hoje da escola é sempre vigília do amanhã. É que, educar é ver mais longe. É olhar para lá do óbvio, do efémero e do tempo presente. Na escola, o tempo não passa. Muitas vezes cansa e desgasta. Mas também encanta e deslumbra. A escola faz crescer e sonhar. E por isso, aí se educam os alunos e se perpetuam os mestres. Por isso, cada novo ano lectivo é para a escola sempre o primeiro. Aquele em que tudo se investe e em que todos trabalham, como se fosse o único. O trabalho na escola não vale apenas por si. O trabalho pedagógico desenha, com um misto de arte, saber e paciência, traços da alma em cada um dos alunos. É sempre trabalho fecundo. O trabalho educativo não é prisioneiro de cálculos, nem se encerra nas grades do tempo. Educar é, de certo modo, semear para a eternidade. Na escola, não se produzem coisas. Nem nascem aí os sábios. Formam-se pessoas, em aturado e cativante trabalho de atenção dada à alma que habita em cada um dos alunos. Dada a complexidade da missão e a grandeza do desafio de educar, ninguém se pode dispensar de trabalhar nesta causa. A educação é leme que nos guia neste sulcar de oceanos imensos de um contínuo «aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a ser e aprender a viver em relação com os outros”, como nos propõem os objectivos pensados para a educação na Europa. É neste compromisso comum que todos nos sentimos implicados e envolvidos: alunos, pais, encarregados de educação, professores, funcionários e membros da comunidade. É com todos nós que a escola se faz.

3.Deste olhar realista e abrangente para a escola e para a missão de educar nasce o dever e o direito, legalmente afirmado e respeitado, da presença e da acção da Educação Moral e Religiosa na escola. A Igreja, no que à Educação Moral e Religiosa Católica (EMRC) diz respeito, assume esta missão com sentimentos de alegria e sentido de responsabilidade, consciente de que aí, fiel ao anúncio do Evangelho, pode e deve realizar um belo e necessário serviço a toda a comunidade humana. Estamos presentes e disponíveis para trabalhar com aqueles que, por sua opção livre ou por escolha decidida dos seus pais, procuram nas aulas de EMRC um espaço e uma oportunidade de aprofundar saberes, delinear critérios de vida, afirmar a fé cristã e encontrar valores que alicercem e consolidem o seu caminhar rumo ao futuro. A presença da EMRC na escola, desde o 1.o Ciclo até ao termo do Secundário, transporta em si um permanente e interventivo empenhamento por parte dos alunos e professores desta disciplina no projecto educativo da escola e na abertura à comunidade educativa alargada, com quanto isso supõe e exige de competência profissional, disponibilidade de tempo, compromisso de acção e testemunho de vida. Os alunos e os professores de EMRC não estão sós nesta missão. Está com eles toda a Igreja, que deste modo se compromete e empenha. São muitos, também, aqueles alunos que sem uma opção clara de fé ou porventura mesmo distanciados de qualquer crença religiosa procuram nas aulas de EMRC um espaço de diálogo e de abertura ao confronto de ideias e à afirmação dos valores éticos de um sadio humanismo. Trazem consigo, aliada a uma natural e espontânea curiosidade de saber, a seriedade de quem lucidamente procura a verdade e nesta procura muitas vezes encontra Deus e sente a Sua discreta e actuante presença. Pertence à comunidade no seu todo e concretamente às famílias cristãs sensibilizar os alunos para o valor e para importância da matrícula em EMRC, que sendo uma disciplina de opção exige e supõe a afirmação expressa da vontade de nela se inscrever. Sei quanto esta presença na escola é exigente e simultaneamente difícil e gratificante para cada um dos alunos e professores. Mas sei, igualmente, que a EMRC constitui um bem para os alunos, para os professores, para a escola, para as famílias e para a comunidade. Esta reflexão é, por isso também, palavra de gratidão dita a todos quantos trabalham nas nossas escolas e em tantas outras frentes de serviço, na família e na comunidade, em prol de uma educação integral das crianças e dos jovens de hoje. O futuro das pessoas e o rumo das sociedades decidem-se, muitas vezes, em pequenos gestos e dependem de humildes e discretas decisões de quem sabe que educar é ver mais longe, para, em cada dia que passa, formar pessoas felizes, preparar um amanhã diferente e construir um mundo melhor.

Aveiro, 15 de Junho de 2011

+António Francisco dos Santos

Bispo de Aveiro



Discernir sempre a qualidade da música usada na liturgia, sublinha o Papa

Na sua carta enviada pela ocasião do 100.° Aniversário do Pontifício Instituto de Música Sacra, o Papa Bento XVI incitou a obter a formação adequada que permita discernir sempre a qualidade da música que se usa na liturgia.

No texto enviado ao Cardeal Zenon Grocholewski, Grande Chanceler do Pontifício Instituto, o Papa recorda que foi São Pio X quem fundou a Escola Superior de Música Sacra, elevada duas décadas depois a Pontifício Instituto por Pio XI.

Bento XVI destacou que para compreender claramente a identidade e a missão desse Instituto era necessário saber que São Pio X o fundou “oito anos depois de ter emanado o Motu Proprio ‘Tra le sollecitudini’ de 22 de Novembro de 1903, com o qual realizou uma profunda reforma no campo da música sacra, recorrendo à grande tradição da Igreja contra o influxo exercido pela música profana, sobre tudo a ópera”.

“Para ser executada na Igreja universal, essa intervenção magisterial necessitava de um centro de estudos e de ensino que transmitisse de forma fiel e qualificada as linhas indicadas pelo Supremo Pontífice segundo a tradição, autêntica e gloriosa, que se remonta a São Gregório Magno”.

“No lapso dos últimos cem anos – prosseguiu Bento XVI – esta instituição assimilou, elaborou e irradiou os conteúdos doutrinais e pastorais dos documentos pontifícios, também os do Concílio Vaticano II concernentes à música sacra para que iluminem e guiem a obra dos compositores, dos maestros de capela, dos liturgistas, dos músicos e de todos os formadores neste âmbito”.

O Papa ressaltou depois como desde São Pio X até hoje “tendo em conta a evolução natural, há uma continuidade substancial do Magistério sobre a música sacra” e citou Paulo VI e João Paulo II, que “à luz da constituição conciliar Sacrosanctum concilium reiteraram a finalidade da música sacra, quer dizer, ‘a glória de Deus e a santificação dos fiéis’”.

“Mas temos que nos perguntar sempre: Qual é o verdadeiro sujeito da liturgia? A resposta é singela: a Igreja. Não é o indivíduo ou o grupo que celebra a liturgia, mas esta é em primeiro lugar a acção de Deus através da Igreja, que conta com sua história, sua rica tradição e sua criatividade”.

“A liturgia, e em consequência a música sacra, ‘vive de uma relação constante e adequada entre sana ‘traditio’ e ‘legitima progressio’, tendo sempre presente que estes dois conceitos se integram mutuamente porque a tradição é uma realidade viva e engloba portanto em si mesmo o princípio do desenvolvimento e do progresso”.

Sendo fiel à sua missão e tendo em conta os elementos descritos, continuou o Papa, “este Pontifício Instituto continuará a oferecer uma contribuição válida para a formação neste campo, de pastores e fiéis leigos nas Igrejas particulares, favorecendo também um adequado discernimento da qualidade das composições musicais utilizadas nas celebrações litúrgicas”.



Nada me faltará

Maria José Nogueira Pinto, DN
Acho que descobri a política - como amor da cidade e do seu bem - em casa. Nasci numa família com convicções políticas, com sentido do amor e do serviço de Deus e da Pátria. O meu Avô, Eduardo Pinto da Cunha, adolescente, foi combatente monárquico e depois emigrado, com a família, por causa disso. O meu Pai, Luís, era um patriota que adorava a África portuguesa e aí passava as férias a visitar os filiados do LAG. A minha Mãe, Maria José, lia-nos a mim e às minhas irmãs a Mensagem de Pessoa, quando eu tinha sete anos. A minha Tia e madrinha, a Tia Mimi, quando a guerra de África começou, ofereceu-se para acompanhar pelos sítios mais recônditos de Angola, em teco-tecos, os jornalistas estrangeiros. Aprendi, desde cedo, o dever de não ignorar o que via, ouvia e lia.
Aos dezassete anos, no primeiro ano da Faculdade, furei uma greve associativa. Fi-lo mais por rebeldia contra uma ordem imposta arbitrariamente (mesmo que alternativa) que por qualquer outra coisa. Foi por isso que conheci o Jaime e mudámos as nossas vidas, ficando sempre juntos. Fizemos desde então uma família, com os nossos filhos - o Eduardo, a Catarina, a Teresinha - e com os filhos deles. Há quase quarenta anos.

Procurei, procurámos, sempre viver de acordo com os princípios que tinham a ver com valores ditos tradicionais - Deus e a Pátria -, mas também com a justiça e com a solidariedade em que sempre acreditei e acredito. Tenho tentado deles dar testemunho na vida política e no serviço público. Sem transigências, sem abdicações, sem meter no bolso ideias e convicções.
Convicções que partem de uma fé profunda no amor de Cristo, que sempre nos diz - como repetiu João Paulo II - "não tenhais medo". Graças a Deus nunca tive medo. Nem das fugas, nem dos exílios, nem da perseguição, nem da incerteza. Nem da vida, nem na morte. Suportei as rodas baixas da fortuna, partilhei a humilhação da diáspora dos portugueses de África, conheci o exílio no Brasil e em Espanha. Aprendi a levar a pátria na sola dos sapatos.
Como no salmo, o Senhor foi sempre o meu pastor e por isso nada me faltou -mesmo quando faltava tudo.
Regressada a Portugal, concluí o meu curso e iniciei uma actividade profissional em que procurei sempre servir o Estado e a comunidade com lealdade e com coerência.
Gostei de trabalhar no serviço público, quer em funções de aconselhamento ou  assessoria quer como responsável de grandes organizações. Procurei fazer o melhor pelas instituições e pelos que nelas trabalhavam, cuidando dos que por elas eram assistidos. Nunca critérios do sectarismo político moveram ou influenciaram os meus juízos na escolha de colaboradores ou na sua avaliação.
Combatendo ideias e políticas que considerei erradas ou nocivas para o bem comum, sempre respeitei, como pessoas, os seus defensores por convicção, os meus adversários.
A política activa, partidária, também foi importante para mim. Vivi--a com racionalidade, mas também com emoção e até com paixão. Tentei subordiná-la a valores e crenças superiores. E seguir regras éticas também nos meios. Fui deputada, líder parlamentar e vereadora por Lisboa pelo CDS-PP, e depois eleita por duas vezes deputada independente nas listas do PSD.
Também aqui servi o melhor que soube e pude. Bati- -me por causas cívicas,
 mas vitoriosas, outras derrotadas, desde a defesa da unidade do país contra regionalismos centrífugos, até à defesa da vida e dos mais fracos entre os fracos. Foi em nome deles e das causas em que acredito que, além do combate político directo na representação popular, intervim com regularidade na televisão, rádio, jornais, como aqui no DN.
Nas fraquezas e limites da condição humana, tentei travar esse bom combate de que fala o apóstolo Paulo. E guardei a Fé.
Tem sido bom viver estes tempos felizes e difíceis, porque uma vida boa não é uma boa vida. Estou agora num combate mais pessoal, contra um inimigo subtil, silencioso, traiçoeiro. Neste combate conto com a ciência dos homens e com a graça de Deus, Pai de nós todos, para não ter medo. E também com a família e com os amigos. Esperando o pior, mas confiando no melhor.
 Seja qual for o desfecho, como o Senhor é meu pastor, nada me faltará.

terça-feira, 5 de julho de 2011

BENTO XVI
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Nos 150 anos de L'Osservatore Romano

Ao Ilustríssimo Senhor

Prof. GIOVANNI MARIA VIAN

Director de "L'Osservatore Romano"

Para um jornal diário cento e cinquenta anos de existência são um período deveras considerável, um longo e significativo caminho rico de alegrias, dificuldades, compromisso, satisfações e de graça. Portanto, este importante aniversário de "L'Osservatore Romano" - cujo primeiro número foi publicado com a data de 1 de Julho de 1861 - é antes de tudo motivo de agradecimento a Deus pro universis beneficiis suis: isto é, por tudo o que a sua Providência dispôs neste século e meio, durante o qual o mundo mudou profundamente, e por quanto dispõe hoje, quando as mudanças são contínuas e cada vez mais rápidas, sobretudo no âmbito da comunicação e da informação.

Ao mesmo tempo, a presente feliz circunstância oferece a ocasião para algumas reflexões sobre a história e sobre o papel deste diário, chamado habitualmente "o jornal do Papa". Por conseguinte, somos convidados - como disse Pio XI, de v.m., em 1936, há exactamente setenta e cinco anos - a "rever o caminho percorrido e o que ainda falta percorrer", ressaltando sobretudo a singularidade e a responsabilidade de um diário que há um século e meio dá a conhecer o Magistério dos Papas e é um dos instrumentos privilegiados ao serviço da Santa Sé e da Igreja.

"L'Osservatore Romano" teve origem num contexto difícil e decisivo para o Papado, com a consciência e a vontade de defender e apoiar as razões da Sé Apostólica, que parecia ser posta em perigo por forças hostis. Fundado por iniciativa privada com o apoio do Governo pontifício, este diário da tarde definiu-se "político-religioso", estabelecendo como seu objectivo a defesa do princípio de justiça, na convicção, fundada na palavra de Cristo, de que o mal não terá a última palavra. Este objectivo e convicção foram expressos pelos dois célebres motes latinos - o primeiro tirado do direito romano e o segundo do texto evangélico - que, desde o primeiro número de 1862, se lêem no seu cabeçalho: Unicuique suum e, sobretudo, Non praevalebunt (Mt 16, 18).

Em 1870 o fim do poder temporal - sentido depois como providencial não obstante abusos e actos injustos sofridos pelo Papado - não envolveu "L'Osservatore Romano", nem tornou inúteis a sua presença e a sua função. Ao contrário, uns quinze anos mais tarde, a Santa Sé decidiu adquirir a sua propriedade. O controle directo do jornal por parte da autoridade pontifícia aumentou com o tempo o seu prestígio e influência, que cresceram ulteriormente em seguida, sobretudo pela linha de imparcialidade e de coragem mantida face às tragédias e aos horrores que marcaram a primeira metade do século XX, eco "fiel de uma instituição internacional e supranacional", como escreveu o Cardeal Gasparri em 1922.

Sucederam-se então acontecimentos trágicos: o primeiro conflito mundial, que devastou a Europa transformando o seu rosto; o afirmar-se dos totalitarismos, com ideologias nefastas que negaram a verdade e oprimiram o homem; por fim, os horrores do shoah e da segunda guerra mundial. Naqueles anos tremendos, e depois durante o período da guerra fria e da perseguição anticristã posta em prática pelos regimes comunistas em muitos países, não obstante os meios e as forças fossem poucas, o jornal da Santa Sé soube informar com honestidade e liberdade, apoiando a obra corajosa de Bento XV, de Pio XI e de Pio XII em defesa da verdade e da justiça, único fundamento da paz.

Desta forma, "L'Osservatore Romano" pôde sair de cabeça levantada do segundo conflito mundial, como reconheceram imediatamente influentes vozes laicas e como escreveu em 1961, por ocasião do centenário do diário, o Cardeal Montini, que dois anos mais tarde se teria tornado Papa com o nome de Paulo VI: "Aconteceu como quando numa sala se apagam todas as luzes, e permanece acesa só uma: todos os olhares se dirigem para a que ficou acesa; e por sorte esta era a luz vaticana, a luz tranquila e flamejante, alimentada pela apostólica de Pedro. "L'Osservatore Romano" pareceu então aquilo que, em substância, é sempre: um farol orientador".

Na segunda metade do século XX começou a circular em todo o mundo através de uma coroa de edições periódicas em diversas línguas, impressas não só apenas no Vaticano: actualmente oito, entre as quais, desde 2008, também a versão em malayalam publicada na Índia, a primeira em caracteres totalmente não latinos. A partir do mesmo ano, numa época difícil para os mass media tradicionais, a difusão é apoiada pela impressão associada a outros jornais na Espanha, na Itália, em Portugal, e agora também com uma presença na internet cada vez mais eficaz.

Diário "muito especial" pelas suas características únicas, "L'Osservatore Romano", neste século e meio, prestou contas antes de tudo do serviço desempenhado a favor da verdade e da comunhão católica por parte da Sé do Sucessor de Pedro. O diário publicou assim pontualmente as intervenções pontifícias, seguiu os dois Concílios celebrados no Vaticano e as numerosas Assembleias sinodais, expressão da vitalidade e da riqueza dos dons da Igreja, mas nunca esqueceu de ressaltar também a presença, a obra e a situação das comunidades católicas no mundo, que por vezes vivem em condições dramáticas.

Neste tempo - marcado com frequência pela falta de pontos de referência e pela remoção de Deus do horizonte de muitas sociedades, também de antiga tradição cristã - o diário da Santa Sé apresenta-se como um "jornal de ideias", como um órgão de formação e não só de informação. Por isso deve saber manter fielmente a tarefa desempenhada neste século e meio, com atenção também ao Oriente cristão, ao irreversível compromisso ecuménico das diversas Igrejas e Comunidades eclesiais, à busca constante de amizade e colaboração com o Judaísmo e com as outras religiões, ao debata e ao confronto cultural, à voz das mulheres, aos temas bioéticos que apresentam questões decisivas para todos. Prosseguindo a abertura a novos autores - entre os quais o de um número crescente de colaboradoras - e acentuando a dimensão e o alcance internacional presentes desde as origens do diário, depois de cento e cinquenta anos de uma história da qual se pode sentir orgulhoso, "L'Osservatore Romano" sabe assim expressar a amizade cordial da Santa Sé pela humanidade do nosso tempo, em defesa da pessoa humana criada à imagem e semelhança de Deus e remida por Cristo.

Por tudo isto, desejo dirigir o meu pensamento reconhecido a todos os que, desde 1861 até hoje, trabalharam no jornal da Santa Sé: aos Directores, aos Redactores e a todo o Pessoal. A Vossa Excelência, Senhor Director, e a quantos cooperam actualmente neste entusiasmante, importante e benemérito serviço à verdade e à justiça, assim como aos benfeitores, garanto a minha constante proximidade espiritual e envio de coração uma especial Bênção Apostólica. Vaticano, 24 de Junho de 2001

Bento XVI


 

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Carta a D. José Policarpo
pedindo-lhe explicações
sobre a entrevista
pro-ordenação de mulheres

As declarações de D. José Policarpo à revista da Ordem dos Advogados, embora ambíguas mas preconizando, no fim de contas, a prazo, a ordenação de mulheres, em clara oposição ao Magistério da Igreja, têm provocado em Portugal e no estrangeiro várias reacções de repúdio.
Registamos aqui uma carta que nos foi remetida, dirigida a D. José Policarpo a pedir-lhe explicações sobre essas declarações e posteriores «esclarecimentos» sobre elas.

Nápoles, 3 de Julho de 2011


Excelentíssimo e Eminentíssimo Senhor Cardeal Patriarca de Lisboa
D. José da Cruz Policarpo,

Laudate Iesu Christe.

Sobre a informação que o Patriarcado de Lisboa mandou comunicar à ACI (publicada a 02 Jul. 11 / 04:31 pm), informo Vossa Eminência que:

1.    O signatário enviou ao Patriarcado (através do respectivo site, a 29 Junho 2011) o texto que abaixo segue (depois do traço ponteado) e que nele fez referência, como V. E. pode aquilatar, à notícia da agência Ecclesia com o seguinte título e sub-título: «Cardeal-patriarca: Ordenação das mulheres só quando «Deus quiser - Teologicamente não há nenhum obstáculo fundamental, diz D. José Policarpo»

2.    É um facto que ontem, dia 2, esta notícia já não se encontrava disponível no referido site. Contudo, isso não se torna um problema pois existe uma cópia do mesmo, e a versão original da Revista.

3.    Informo ainda V. E. que em 2007, no mesmo site agência Ecclesia (17-11-2007), e que está ainda disponível, foi divulgada uma notícia com o seguinte título e teor: «Ordenação de mulheres não será tão cedo»: “Os tempos ainda não estão amadurecidos para se pensar nisso, se o Papa assim decidisse, haveria conflitos, rupturas e solavancos na sociedade”, disse D. José da Cruz Policarpo ao ser questionado sobre a possibilidade da ordenação de mulheres na Igreja Católica. O Cardeal-Patriarca de Lisboa foi um dos conferencistas convidados para um colóquio promovido pelo Instituto Jurídico da Comunicação da Faculdade de Direito de Coimbra e à margem da sua intervenção exortou a se “rezar muito ao Espírito Santo” para que esse assunto seja esclarecido no seio de toda a Igreja.

4.    Existem ainda outros registos sobre esta matéria.

5.    O signatário não seleccionou deliberadamente nenhuma passagem da entrevista que tem registo no Boletim da Ordem dos Advogados, mensal nº 78, Maio 2011, «A justiça demorada pode provocar colapso», p. 39-40. E isso pode V.E. verificar no texto anexo que foi enviado ao Patriarcado (ler depois do traço ponteado).

Considerando:

1.       Que no ACI digital com registo: «REDAÇÃO CENTRAL, 02 Jul. 11 / 04:31 pm (ACI)» com o título: «Cardeal Policarpo "não foi preciso ao falar do sacerdócio"», faz saber que V. E. : «não está a favor das ordenações femininas porém "não foi preciso ao falar do sacerdócio em uma recente entrevista" assinalou à agência ACI Prensa uma fonte do Episcopado português»;

2.      Que como V.E. mandou fazer saber: «não está a favor das ordenações femininas»;

3.      Que como V.E. mandou fazer saber: «não foi preciso ao falar do sacerdócio»;

4.      Que como V.E. afirmou: «Teologicamente não há nenhum obstáculo fundamental»;

5.      Que como V.E. afirmou: «O Santo Padre João Paulo II, a certa altura, pareceu dirimir a questão. Penso que a questão não se dirime assim»;

6.      Que o comunicado do Patriarcado à ACI, limita-se a reproduzir a entrevista registada no “Boletim da Ordem dos Advogados, mensal nº 78”, e por esse facto, NÃO TORNA AS DECLARAÇÕES de V.E. mais precisas.

7.      Reiterando que as declarações de V. E. se transformaram em escândalo além fronteiras;

Solicito encarecido e obstinadamente, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, que apresente publicamente,

1.      A redacção do texto sobre o qual, a precisão em falta no presente texto difundido, seja esclarecedora da posição de V. E. sobre o porquê de «não estar a favor das ordenações femininas»;

2.      Atendendo a que «Os ministros dos sacramentos são ordinariamente os sacerdotes, que para isso receberam o poder de ordenação. (…) O Concílio de Trento definiu: “Se alguém disser que todos os cristão têm o poder de ensinar e administrar todos os sacramentos, seja excomungado» (s. 7, can 10, Denz. 853). 

Queira V. E. clarificar o que entende, quando afirma que: «Teologicamente não há nenhum obstáculo fundamental». Se conceptualmente existe “obstáculo teológico”, é V.E. que o afirma, a definição dogmática registada supra, constitui-se como tal, isto é, como obstáculo teológico?

3. A Santa Madre Igreja sempre ensinou que a verdadeira igualdade entre os homens (entenda-se também entre homens e mulheres) consiste na: (I) igualdade de ORIGEM (descendemos dum mesmo Criador); (II) de NATUREZA (com alma igualmente espiritual, imortal, criada à imagem e semelhança de Deus e redimida por Nosso Senhor Jesus Cristo) e (II) de DESTINO: todos nos encontramos igualmente sujeitos à morte, temos o mesmo Inferno a recear e o mesmo Céu a merecer.
Pelo que se torna fundamental esclarecer, clarificar, isto é, dar precisão à seguinte afirmação de V. E.:

«Penso que não há nenhum obstáculo fundamental. É uma igualdade fundamental de todos os membros da Igreja».

Creio que no que diz respeito à precisão a dar à redacção da entrevista dada por V.E., a simples resposta às questões supra, serão fundamentais para colocar a posição de Vossa Eminência, Cardeal Patriarca de Lisboa, definitiva e inequivocamente, esclarecida em Portugal e no estrangeiro.

 
Em defesa de Cristo Rei,

Sacerdos in aeternum secundum ordinem Melchisedech
Pontifex in aeternum perfecte
Hostia Dei et hominum
“trádidi quod et accépi”

Respeitosamente,

Rui Manuel das Neves Azevedo Machado
Católico, fiel leigo
Tenente-Coronel