quarta-feira, 17 de maio de 2017

Cardeal Müller: «As autoridades da Igreja são o único grupo que luta absolutamente contra o abuso de menores»


Rita Garcia, Observador, 9 de Maio de 2017
Enviada especial ao Vaticano

Em entrevista ao Observador no Vaticano, o cardeal Gerhard Müller, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, fala das diferenças entre Francisco e Bento XVI e dos casos de abusos de menores.

Gerhard Müller é um homem tão solene como as funções que ocupa. Alto, robusto e aprumado, com as suas vestes negras de cardeal, é desde 2012 o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o braço direito do Papa Francisco na preservação dos dogmas da Igreja católica. Escolhido por Bento XVI para ocupar um cargo que ele próprio desempenhara, tinha — e tem — muito em comum com Joseph Ratzinger. Ambos são alemães, teólogos e académicos, e partilham uma certa visão do mundo. Além disso, foi Müller o escolhido por Bento XVI para coordenar a publicação das suas Obras Completas.

Nasceu em Finthen, um subúrbio da cidade de Mainz, em 1947. O pai era um operário da indústria automóvel e a mãe uma doméstica que acompanhou de perto a educação dos quatro filhos. Gerhard sempre quis ser padre. Segundo revelou ao Osservatore Romano (o jornal oficial do Vaticano), a mãe costumava contar que, com apenas quatro anos, o filho ficou tão impressionado com a imagem do bispo de Magonza, Albert Stohr, que exclamou: «Quando for grande, quero ser bispo!». E foi mesmo.

Doutorou-se em 1977 e foi ordenado padre no ano seguinte. Em 2002, João Paulo II nomeou-o bispo de Ratisbona. O sonho estava realizado. Em 2014, coube a Francisco entregar-lhe o barrete vermelho de cardeal. Os dois nem sempre estão de acordo e têm estilos distintos, mas mantêm uma relação leal: encontram-se uma vez por semana ou de 15 em 15 dias no Palácio Apostólico para falar de trabalho.

De resto, Gerhard Müller passa grande parte do tempo no seu gabinete do Palácio do Santo Ofício, um imponente edifício amarelo construído no início do século XVI e que albergou o temido tribunal eclesiástico com o mesmo nome. É nas traseiras do palácio, situado a Sul da colunata da Basílica de São Pedro, que fica o gabinete do Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. As grandes janelas têm vista para a Aula Paulo VI, uma gigantesca sala de audiências situada dentro do Vaticano, com capacidade para 12 mil pessoas. O Papa vive a dois passos, na Casa de Santa Marta. Müller mora do outro lado da Basílica, perto da Porta de Sant’Anna.

O Prefeito é visto como um conservador que não hesita em recordar publicamente os preceitos da Doutrina quando as vozes progressistas clamam por mudanças. Foi atacado depois de lembrar, numa entrevista à revista Il Timone, que, à luz da Doutrina católica, os divorciados recasados vivem em situação de adultério e «o adultério é um pecado mortal». Ao Observador, Müller diz que não tem medo de fazer afirmações impopulares: «O próprio Jesus não foi assim tão bem aceite quando falou da indissolubilidade do matrimónio». No entanto, sente-se insultado quando lhe atribuem o epíteto de polícia da Doutrina.

Numa conversa pausada e assertiva com o Observador no Vaticano, recusa as acusações feitas por Marie Collins, a irlandesa que foi vítima de abusos sexuais por um padre na infância e se demitiu da Comissão Pontifícia para a Protecção de Menores por alegar que a Congregação para a Doutrina da Fé colocou entraves ao trabalho do grupo de trabalho criado pelo Papa Francisco. Garante que a hierarquia da Igreja está determinada a lutar contra a pedofilia nas suas fileiras, e lamenta que o olhar da sociedade seja tão intolerante com o clero, quando se mostra complacente com abusadores de Hollywood ou de outros sectores poderosos.

Nas vésperas da visita do Papa Francisco a Portugal, Gerhard Müller considera que a mensagem de Fátima não podia ser mais actual, numa época em que surgem novos nacionalismos e imperialismos perigosos para a Humanidade. Diz ao Observador que agora, como em 1917, é preciso apelar à conversão dos corações para que o ódio não vença o amor.

«Não me parece que o Papa Francisco tenha mudado a Doutrina da Igreja. A doutrina dogmática não pode ser mudada porque se baseia na revelação e no magistério da Igreja, do Papa e dos bispos»

Foi nomeado Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé pelo Papa Bento XVI e é próximo da sua mensagem, estudou-a profundamente. Quais foram as principais alterações com a chegada de Francisco?

O Prefeito desta Congregação não está ligado às características pessoais do Papa, mas à sua missão. Não se trata apenas de uma relação pessoal. O Papa, seja ele Bento, Leão ou Francisco, tem a mesma missão confiada por Jesus e a nossa Congregação já leva 500 anos a apoiar o Papa no seu mister de ser o primeiro pastor do rebanho, e de dar verdadeiro testemunho da fé revelada em Jesus Cristo. Os media podem estar mais interessados em sentimentos pessoais e nesse tipo de discussão, nós estamos mais orientados para a nossa tarefa de promover a Fé católica em todo o mundo, em nome e com a autoridade do Papa actual. E também para a defesa da Fé e da disciplina da Igreja contra heresias, cismas e outros casos onde ela seja violada.

Essa é a abordagem formal ao seu trabalho. Mas o facto é que se trata de dois homens com estilos totalmente diferentes. Quais são as diferenças práticas na forma de trabalhar de Francisco e de Bento XVI?

O Papa tem o seu ênfase próprio, a sua própria história. As circunstâncias da sua vida e da formação da sua razão e das suas experiências são muito diferentes das de alguém oriundo da Alemanha, com uma vida académica, virada para o nível académico que existe na teologia alemã há vários séculos. O Papa Francisco tem uma espiritualidade que lhe vem dos Jesuítas, enquanto a do Papa Bento XVI lhe chega mais de Santo Agostinho, São Boaventura e da tradição da teologia existencial. Seguramente que a realidade do Papa Francisco, vindo de um contexto latino-americano, é muito diferente da história e da cultura europeias. No entanto, somos a mesma Igreja e a Fé não divide as pessoas. É a base da unidade. «Una fides» é a expressão latina para uma fé, a mesma fé que temos, a mesma missão. É mais interessante ver o que liga os diferentes Papas através da longa História da Igreja do que olhar para as diferenças. É muito interessante ver como o Espírito Santo age por meio das personalidades distintas que ocupam a Cathedra Petri (a cadeira de Pedro).

Nos últimos quatro anos, quais foram as principais alterações que Francisco trouxe à Igreja?

Os media dão atenção aos sapatos vermelhos ou pretos, o que, para mim, não são coisas assim tão importantes. Reparam se ele vive em privacidade no Palácio Apostólico ou em Santa Marta. Estas não são questões de relevância teológica, mas o mais significativo é o novo estilo que vem da experiência do Papa na América Latina, mais próxima da realidade dos pobres e das grandes diferenças que existem na sociedade.

Na Alemanha, depois da Segunda Guerra Mundial, deixou de haver esta disparidade entre as classes, temos uma sociedade mais unida, há mais solidariedade, graças à Doutrina Social da Igreja que teve início no pós-Guerra, na Alemanha, e aos partidos democráticos de inspiração cristã e aos social-democratas. Não há assim tantas forças anti-clericais.

No meu tempo de professor universitário em Munique, todos os anos tirava três meses de férias em países da América Latina — Peru, Brasil. Por isso, esta mentalidade, diferente da europeia e da norte-americana, não me é assim tão estranha. Conheci algumas obras sobre a teologia da libertação que está de acordo com a Doutrina da Igreja, enquanto outras são mais próximas da abordagem marxista. O que eu retiro da teologia da libertação é um maior desenvolvimento da Doutrina Social da Igreja, relativamente às circunstâncias especiais que se verificam na América Latina.

Do ponto de vista do dogma, não há nada que diga que o Papa deve vir da Europa, do centro da Europa. No passado, houve muitos Papas provenientes da Grécia, da Síria, de outras partes do Império Romano, representando outras culturas. Não é absolutamente novo ter um Papa que vem de uma cultura diferente. Agora, pela primeira vez, temos Papas de continentes diferentes, mas a cultura da Argentina não é totalmente diferente da europeia. É mais próxima do que algumas culturas asiáticas. A realidade latino-americana é uma mistura dos costumes europeus com os nativos. Noutros continentes, como a África ou a Ásia, há uma cultura própria mais forte, que não sofre tanta influência do pensamento europeu. Isso para nós não constitui um problema. É um sinal da riqueza da revelação de que todos são chamados a pertencer à mesma Igreja, à mesma família de Deus em todo o mundo.

«Não é possível ter dois tipos de cristianismo: um para uma elite, que respeita a palavra de Deus, e o outro para os outros, a quem impomos apenas alguns direitos e sacramentos, deixando que a vida corra como ela é. Jesus veio para mudar o velho mundo de pecado, do qual fazia parte o divórcio. Jesus explicou isto de forma muito clara»

Na América Latina, o Papa esteve sempre próximo dos pobres, da periferia da sociedade, de que ele tanto fala. Essa realidade traz desafios à Igreja e à Doutrina?

Temos a Doutrina social. Esta questão das periferias não começou com o Papa Francisco, o que acontece é que ele tem sublinhado esse aspecto, tem-lhe dado relevo. Mas não começámos do ponto zero. Na História da Igreja temos tantas situações análogas… Quando houve novos encontros entre diferentes culturas, quando os povos germânicos e eslavos entraram na cultura cristã isso deu origem a tensões e à necessidade de novos ajustes. Não temos uma cultura cristã tão puramente europeia que justifique ficarmos chocados com a aproximação de outra cultura católica. Há sempre uma dimensão de universalidade da Igreja, que pode ser representada e inculturada por povos diferentes. As culturas devem estar abertas à vida universal de todos os povos do mundo. São esses povos de todo o mundo que formam a família de Deus. João Crisóstomo escreveu numa célebre carta a Ireneu de Lyon como era admirável que aqueles que viviam na Índia, na Síria e na Germânia daquele tempo, apesar das diferentes culturas e línguas, fossem membros do mesmo corpo de Jesus Cristo. Isso é um milagre e uma maravilha permanente que temos na Igreja.

Então a grande diferença nestes quatro anos é uma questão de estilo.

É o estilo. O Papa que vier a seguir também terá o seu próprio estilo. Foi sempre assim, ninguém pode ser uma cópia do seu antecessor. Cada Papa, na sua pessoa, é um sucessor de São Pedro, dogmaticamente falando — e não um sucessor do seu antecessor. Do ponto de vista temporal e cronológico, é, mas ao nível do dogma é o sucessor de Pedro e tem o direito de realizar a sua missão de acordo com o seu carisma, com a sua história, de moldar o Pontificado à sua maneira.

O Papa anterior trabalhou nesta Congregação, foi o Prefeito durante anos. Era da casa. Francisco não. Até que ponto é diferente a relação dos dois com a Congregação para a Doutrina da Fé?

Devido à sua história pessoal, naturalmente que Bento XVI era mais próximo. Não é possível passar aqui 24 anos e depois dizer: «Isto não tem nada a ver comigo». Por isso, claro que as suas emoções e a sua sensibilidade serão mais próximas desta Congregação, mas a tarefa deste departamento não mudou. A ida e vinda de um Papa não significa o mesmo que a entrada ou saída do Prefeito. As tarefas sobrepõem-se e a missão desta Congregação não depende apenas do Prefeito, mas de todos os padres e dos 25 cardeais que trabalham connosco. A tarefa da Congregação para a Doutrina da Fé não se alterou e isso consiste em aconselhar o Santo Padre, em dar apoio ao seu magistério, com autoridade e responsabilidade, com o trabalho do dia a dia. Para os nossos documentos e doutrinas, precisamos de aprovação do Papa, mas na nossa vida quotidiana agimos sob a autoridade dele, mas com a nossa responsabilidade.

Sobre as diferenças entre Bento XVI e Francisco: «ninguém pode ser uma cópia do seu antecessor.
Cada Papa é um sucessor de São Pedro e não um sucessor do seu antecessor»

Com que frequência se encontra com o Papa?

Depende. Os prefeitos desta Congregação e da Congregação para os Bispos têm encontros regulares com o Papa, todas as semanas, de quinze em quinze dias. Dependendo da ocasião, essas reuniões podem ser mais frequentes.

Encontram-se no Palácio Apostólico?

Normalmente, no Palácio Apostólico porque não são encontros privados entre amigos ou família. São reuniões de trabalho onde lhe levamos os documentos que estamos a preparar para ele tomar decisões.

Houve momentos, depois da eleição deste Papa, que insiste numa abordagem pastoral, em que o senhor cardeal alertou que a Igreja deve ser prudente com algumas mudanças. Refiro-me à interpretação da exortação apostólica Amoris Laetitia, e à carta que alguns cardeais escreveram ao Papa durante o Sínodo da Família, por exemplo. Como lida com o facto de o Prefeito parecer, por vezes, ter uma opinião diferente da do Papa?

Não me parece que o Papa tenha mudado a Doutrina da Igreja. A doutrina dogmática não pode ser mudada porque se baseia na revelação e no magistério da Igreja, do Papa e dos bispos. Na Doutrina da Igreja, Jesus é alguém que revela, é um mediador para a salvação. Os Apóstolos e seus sucessores exercem apenas o ministério da revelação e da salvação que nos é dada por Jesus Cristo. Temos de ser verdadeiros ministros de Cristo. O Papa Francisco já disse que a doutrina relativamente ao matrimónio é muito clara, muito bem formulada e não está apenas relacionada com palavras da Bíblia. Resulta de doutrina estabelecida ao longo de dois mil anos. Não podemos ignorar o Concílio de Trento, por exemplo, nem a doutrina sobre o matrimónio elaborada na [constituição pastoral] Gaudium et Spes, resultante do Concílio Vaticano II, nem o que é dito na [exortação apostólica] Familiaris Consortio [de João Paulo II], nem na encíclica Caritas in Veritate, do Papa Bento XVI, nem em todas as declarações feitas por nós. O problema hoje é como nos devemos dirigir a este grande número de pessoas que não entende a Doutrina cristã relativamente ao matrimónio. Partilham outra mentalidade que não é amistosa, nem favorável à vida e às práticas cristãs. [A questão está em perceber] como chegar junto destas pessoas e explicar aquilo que significa para nós a graça de Deus, qual é o significado profundo do matrimónio, da paternidade, de alguém se tornar pai ou mãe. Estes elementos básicos da nossa antropologia nem sempre são compreendidos.

Mas essas diferentes abordagens vêm de toda a parte, incluindo da Igreja. Os bispos do seu país, a Alemanha, por exemplo, têm uma opinião diferente em relação ao Capítulo VIII da exortação Amoris Laetitia.

Mas nada disto depende das opiniões pessoais dos membros da Igreja. Não são as opiniões dos bispos que são decisivas, mas a fidelidade à palavra de Deus. Há aqui um certo positivismo do magistério, como se o Papa ou o conselho dos bispos fossem senhores da revelação. Isso é um mal entendido. O Papa deu uma interpretação na Amoris Laetitia, e não é bom que os bispos dêem uma interpretação da interpretação. Critiquei isso. É contrário à estrutura dos sacramentos da Igreja católica. O Papa tem uma autoridade superior, sujeita à revelação, e é responsável pela unidade da Igreja, na Fé revelada. Não é alguém que emite certas opiniões de maneira a fazer uma síntese de opiniões sobre isso. Alguns bispos correm o risco de dar mais atenção àquilo que pode sofrer o efeito da opinião pública do que à palavra de Deus, que deveria vir em primeiro lugar, de acordo com a Bíblia e a tradição apostólica.

«Se eu disser 'Podem fazer o que quiserem', serei muito amado. Dirão: 'Oh, é um grande amigo nosso.' Mas se os pais ou os professores permitirem tudo às crianças... No longo prazo, não é bom para nós»

E qual é a sua proposta para lidar com os católicos que contraíram o matrimónio e se divorciaram?

O sacramento do matrimónio é indissolúvel por vontade de Deus. Ninguém pode mudar isso. Uma possibilidade é voltar para o esposo legítimo ou então desistir das relações que não são válidas. A questão está apenas em perceber se as condições para aquele matrimónio estavam reunidas, de acordo com os preceitos da Igreja. O casamento civil não é exactamente igual ao sacramento do matrimónio. Seguramente que há muitas pessoas que não conseguem entender isto.

Parece-lhe que é sempre possível voltar para o matrimónio?

Se humanamente não for possível, também não podem viver [com outros] como se fossem esposos.

Há quem argumente que isso elimina a possibilidade de penitência ou a possibilidade de reconhecer o que correu mal, permanecendo envolvidos na vida da Igreja.

Não é possível ter dois tipos de cristianismo: um para uma elite, que respeita a palavra de Deus, e o outro para os outros, a quem impomos apenas alguns direitos e sacramentos, deixando que a vida corra como ela é. Jesus veio para mudar o velho mundo de pecado, do qual fazia parte o divórcio. Jesus explicou isto de forma muito clara. Não é assim tão fácil satisfazer a vontade de Deus. Jesus não queria ir para a Cruz. Podemos dizer que era necessário que Jesus morresse pelos nossos pecados, mas isso não depende da nossa vontade pessoal, da nossa opinião. Quando as pessoas dizem que sim apenas a uma pessoa, para a vida inteira, e lhes é concedido por Deus o laço matrimonial, Ele estabelece uma aliança entre essas duas pessoas. Devemos respeitar a realidade do sacramento que recebemos. Seguramente que para muitos no mundo isto é estranho. Muitas pessoas são incapazes de perceber e procuram formas de escapar a esta realidade. Mas se somos baptizados, somos baptizados, somos cristãos. Não podemos dizer: «Ah, eu vivo num mundo de muçulmanos, vou à mesquita, porque podemos louvar a Deus em todos os sítios.» Se somos cristãos, somos cristãos. É preciso assumir as consequências. Se nos casamos enquanto cristãos, temos de assumir as consequências disso. Não podemos dizer: «Casei-me primeiro, tive duas crianças, e depois casei-me com outra pessoa, tive outros filhos e já não quero saber dos primeiros.» Há obrigações que resultam do matrimónio e que é preciso assumir.

Enquanto Prefeito desta Congregação, sente-se, de certa forma, o polícia da Doutrina?

De certa forma, isso parece-me insultuoso. É um estereótipo que recai sobre a nossa Congregação. A fidelidade à palavra de Jesus Cristo é uma tarefa da Igreja, não tem nada a ver com policiamento. A palavra de Deus é uma palavra de salvação. Poderia parecer bom para nós que encontrássemos formas de fundamentar Jesus Cristo de maneira a que a religião fosse aceite por todos e merecesse o aplauso de todos, mas nós somos a Igreja católica. Temos de permanecer próximos das palavras de Deus, caso contrário perdemos os nossos fundamentos. Não podemos falar apenas para agradar às pessoas.

«A demissão [de Marie Collins, vítima de abuso na infância por parte de um padre que decidiu sair da Comissão Pontifícia para a Protecção dos Menores] não teve nada a ver connosco. Fomos acusados e eu não sei porquê»

Quer dizer que muitas vezes lhe cabe a si ser a voz do dever…

Se eu disser «Podem fazer o que quiserem», serei muito amado. Dirão: «Oh, é um grande amigo nosso.» Mas se os pais ou os professores permitirem tudo às crianças… No longo prazo, não é bom para nós. O próprio Jesus não foi assim tão bem aceite quando falou da indissolubilidade do matrimónio. Os Apóstolos não ficaram muito entusiasmados. Disseram: «É impossível para nós enquanto homens». Mas Jesus disse: «Com a graça de Deus, tudo é possível». Isto é o Evangelho cristão — e não apenas falar para agradar às pessoas. Há quem fale em conservadores e liberais. O que são liberais? O que é que aconteceu a alguns países que aderiram ao cristianismo liberal, reduzindo a base do próprio cristianismo? Caíram no secularismo, na indiferença. Não é assim tão fácil ser e tornar-se cristão. Só há um caminho estreito que conduz ao Céu. Por isso, é preciso manter clara a revelação de Jesus Cristo, tornando possível segui-Lo.

Esta Congregação tem a tarefa difícil de lidar com os casos de abusos sexuais na Igreja. Em Março, Marie Collins [vítima de abuso na infância por parte de um padre] demitiu-se da Comissão Pontifícia para a Protecção dos Menores. Como vê esta saída?

Esta demissão não teve nada a ver connosco. Fomos acusados e eu não sei porquê.

Essas críticas pareceram-lhe um ataque pessoal?

Não, mas levamo-las muito a sério porque os nossos colaboradores trabalham de dia e de noite há 16 anos, de forma exemplar. É uma tarefa árdua, não é fácil trabalhar neste campo. E agora são acusados de não fazer nada… Esta Comissão começou há dois anos. Não é possível que a nossa Congregação seja acusada de ter a culpa desta demissão. Todos queriam trabalhar com esta Comissão. Se alguém não queria continuar naquele trabalho, podia sair, mas não acusar outro grupo de pessoas, que nada tiveram a ver com isso.

O senhor cardeal e a Congregação estiveram sempre disponíveis para a Comissão?

Trabalhámos juntos na Constituição [Pastor Bonus], mas esta Congregação tem uma tarefa especial confiada pelo Papa para liderar os processos canónicos. Se os outros lá fora tiverem ideias diferentes, não dependemos daquilo que os outros pensam de nós. Não podem dar à nossa Congregação a definição que entenderem. Se entendem que devemos entrar em contacto com as vítimas ou os perpetradores de uma forma pastoral, essa não é a nossa missão.

Quando um destes casos entra na Congregação, qual é o procedimento habitual?

Há um procedimento estabelecido pelo Papa João Paulo II, e que os Papas Bento XVI e Francisco aceitaram, que assenta em regras da Lei Canónica e da Constituição motu proprio Sacramentorum Sanctitatis Tutela. Os primeiros destinatários destas acusações de abusos cometidos sobre menores por clérigos são as dioceses ou as congregações religiosas. Estas instituições eclesiásticas informam-nos a nós, que somos a segunda ou terceira instância deste processo. A principal responsabilidade centra-se na diocese e não aqui em Roma. Aqui não somos responsáveis por toda a Igreja. Apenas agimos com a autoridade do Papa. O Santo Padre é uma instância de apelo e, por isso, ele pode pedir à sua Congregação que supervisione tudo e tome algumas decisões. Mas não está tudo centralizado em Roma. Não podemos ocupar-nos das terapias, dos discursos pastorais, da investigação nestes locais. Estamos em Roma, não por todo o mundo. A Congregação não é uma organização internacional, é apenas uma instituição que dá apoio ao Santo Padre, na sua responsabilidade sobre a Igreja universal. A responsabilidade concreta recai sobre as dioceses. Nós temos de nos restringir aos processos canónicos.

«A opinião pública fala apenas dos clérigos como se, cada vez que vemos um padre na rua, ele fosse um possível criminoso, abusador de crianças. A realidade é totalmente oposta. A percentagem de padres envolvidos nestes casos lamentáveis é muito pequena, mais pequena do que na população geral»

Quantos casos chegaram aqui nos últimos três anos?

É difícil dizer porque aqui chegam as acusações e nós temos de nos concentrar nas sentenças que são dadas no fim. Alguns casos prolongam-se por muito tempo e duram 14 ou 15 anos.

E quantas sentenças foram atribuídas nos últimos três anos?

Não sei o número exacto. Depende dos anos. Mas temos alguns dados publicados no Anuário Pontifício. Mas não são tantos quanto as pessoas pensam.

Serão centenas?

Centenas… Mas num período de 50 ou 60 anos. E isto são sentenças. Porque também há acusações que não podem ser clarificadas ao fim de 50 anos. Às vezes há casos em que as testemunhas dizem que ouviram alguma coisa, nalgum lado, mas não há um autor do abuso, ninguém é acusado. Também há acusações estranhas que são verdade e nós damos as sentenças de acordo com a Lei Canónica e não a nosso bel-prazer, de acordo com a nossa subjectividade.

Em países profundamente católicos, fazer uma denúncia contra um padre pode ser muito difícil. A Igreja é muitas vezes vista como uma instituição poderosa.

A Igreja não é uma instituição poderosa com poder político, mas tem uma autoridade que está de acordo com a salvação, a revelação e o Evangelho. Essa é a missão da Igreja. Os Papas e nós sempre dissemos que é uma absoluta contradição para o ethos de um padre abusar de menores ou cometer outros crimes contra a dignidade do Homem, porque somos as primeiras testemunhas da dignidade do Homem, incluindo os menores, as crianças. Por outro lado, a opinião pública fala apenas dos clérigos como se, cada vez que vemos um padre na rua, ele fosse um possível criminoso, abusador de crianças. A realidade é totalmente oposta. A percentagem de padres envolvidos nestes casos lamentáveis é muito pequena, mais pequena do que na população geral. Temos tantos casos de abusos na sociedade civil, nas sociedades ocidentais, nas asiáticas e em África e noutras culturas onde é quase legal. E ninguém fala nisso. É como se o abuso de menores fosse um problema exclusivo do clero. A realidade é outra. Intriga-me que não haja um movimento público para parar o abuso de crianças, nomeadamente na pornografia infantil na televisão, em livros, na Internet. Não há acções para parar isso. Se houver gente influente envolvida nisto, toda a gente encontra formas de os desculpar. Se acontecer em Hollywood, ninguém se importa. Compreendem, têm pena dessas pessoas. A realidade é que as autoridades da Igreja católica, tal como milhões e milhões de católicos, não estão envolvidas nisto. As autoridades da Igreja — os bispos e o Papa — são o único grupo que luta absolutamente contra o abuso de menores, não apenas em teoria, mas também na prática. Estamos na linha da frente desta luta. E a Comissão para a Protecção de Menores não foi instituída apenas para lidar com este grupo de padres, mas também para confrontar a Igreja católica com a sua autoridade moral contra estes abusos que acontecem aos milhões em todo o mundo.

«O respeito pelos direitos humanos é uma grande mensagem da Igreja, também através da voz profética da Virgem Sagrada que apareceu a estas três crianças em Fátima. Crianças, pobres, marginalizadas, longe dos centros do poder, longe de Silicon Valley...»

O Papa Francisco mencionou a intenção de criar um tribunal para lidar com este tipo de abusos, mas isso não aconteceu. Porque razão?

Nós temos um tribunal contra casos reais de abusos e de crimes, mas não temos condições para construir uma definição fluída daquilo que é a negligência e do que é o abuso. Um tribunal deve ter uma definição das matérias que julga e a negligência não é assim tão fácil de entender. As circunstâncias nem sempre são fáceis. No fim do processo, no fim da investigação, sabemos mais coisas, mas no início há vozes que ninguém sabe de onde vêem. É fácil criticar, mas na realidade não é assim tão fácil de investigar, de encontrar informação significativa.

A Igreja está a fazer tudo o que pode para prevenir estes casos em todo o mundo?

Isso é absolutamente verdade. No início de 2001, houve uma reorganização [da forma de lidar com este assunto], porque ninguém sabia o que devia fazer. Ninguém sabia que este também era um problema existente no seio do clero católico, não havia uma visão global. Desde essa altura, há um procedimento claríssimo para enfrentar os problemas que surgem.

Pensa que, durante a investigação, os suspeitos devem ser mantidos nos cargos ou devem ser afastados das crianças?

Depende dos casos. Não é possível dar a todos os casos a mesma penalização. A culpa deve ter uma pena adequada. Nos tribunais civis, as pessoas não recebem todas as mesmas penas — é impossível. Depende das circunstâncias, da prevenção do futuro. Mas há muitos casos aqui em que decidimos que devemos dispensar as pessoas do estado clerical. Para outros, há medidas distintas. Mas não há nenhum caso provado de abuso de menores sem punição.

Quanto a Fátima, qual é a relevância desta viagem do Papa?

É o centenário e, por isso, é uma viagem importante. Vemos que os problemas do mundo são muito semelhantes aos desafios que havia em 1917. Estava a começar a Primeira Guerra Mundial, era o arranque de grandes ideologias que devastaram a Humanidade. Agora somos confrontados com novos nacionalismos e imperialismos que são muito perigosos para a Humanidade. Por isso, julgo que a mensagem de Fátima é muito importante, enquanto chamada à conversão dos nossos corações, para os enchermos de amor e não de ódio, promovendo os valores da solidariedade, da responsabilidade ou da ecologia, do cuidado com o ambiente e, especialmente, da protecção da dignidade humana e para a dedicação de todos à totalidade da vida, na Terra, mas também pensando no nosso caminho em direcção ao Céu. O nosso horizonte não se limita ao seu curto percurso na Terra. O respeito pelos direitos humanos é uma grande mensagem da Igreja, também através da voz profética da Virgem Sagrada que apareceu a estas três crianças em Fátima. Crianças, pobres, marginalizadas, longe dos centros do poder, longe de Silicon Valley…





terça-feira, 16 de maio de 2017

Nossa Senhora da Conceição, Padroeira e Rainha de Portugal


Portugal Glorioso, 8 de Dezembro de 2016

Como se tornou Nossa Senhora

a verdadeira Soberana de Portugal.

O culto a Santa Maria nasceu nos primórdios da nacionalidade. Desde o nosso primeiro Rei D. Afonso Henriques – um grande devoto de Nossa Senhora e que fez várias concessões a Santa Maria Bracarense, como tributo pela ajuda concedida na manutenção do seu território, designadamente engrandecendo a Catedral de Braga elevando-a à categoria de templo nacional, passando deste modo, Santa Maria de Braga, a ser a Padroeira do território portucalense – que todos os Reis da 1.ª dinastia praticaram o seu culto, agradecendo-lhe o auxílio prestado para a manutenção da independência do novo reino.

Também na 2.ª dinastia, iniciada com D. João, Mestre de Avis, este na Batalha de Aljubarrota incitou os seus companheiros de armas em nome de Deus e da Virgem Maria.

D. Nuno Álvares Pereira, Condestável do Reino, por ser devotíssimo da Virgem Santa Maria, que respondeu às suas preces em Valverde, Atoleiros e Aljubarrota, mandou construir a Igreja de N. ª Sr. ª da Conceição de Vila Viçosa, (imagem no fim do post) e encomendou, para o efeito, em Inglaterra a imagem de Nossa Senhora da Conceição. E quando ingressa no Convento do Carmo em Lisboa como irmão leigo, usa apenas o nome de Frei Nuno de Santa Maria.

A São Nuno de Santa Maria se deve a renovação de uma antiga Confraria de Vila Viçosa, existente pelo menos desde 1349 e por si consagrada a Nossa Senhora da Conceição, que ainda hoje subsiste, a «Régia Confraria de Nossa Senhora da Conceição».

Mas foi após a Restauração de 1640, com D. João IV, que se verifica um grande impulso na devoção à Senhora da Conceição, por todo o país.

No dia 8 de Dezembro de 1640, Frei João de S. Bernardino, ao pregar na capela Real de Lisboa na presença do Duque de Bragança, agora já Rei de Portugal, termina o sermão por uma solene promessa:

Seja assi, Senhora, seja assi; e eu vos prometo, em nome de todo este Reyno, que elle agradecido levante um tropheo a Vossa Immaculada Conceição, que vencendo os seculos, seja eterno monumento da Restauração de Portugal.

Em 25 de Março de 1646, o rei D. João IV organizou uma cerimónia solene, em Vila Viçosa, para agradecer a Nossa Senhora a restauração da independência em relação a Espanha. Foi até à igreja de Nossa Senhora da Conceição, ofereceu a coroa portuguesa a Nossa Senhora, colocando-a a seus pés proclamou-a Padroeira Portugal. O acto da proclamação alargou-se a todo o País, com o povo a celebrar, pelas ruas, entoando cânticos de júbilo.

Assim se tornou Nossa Senhora a verdadeira Soberana de Portugal, por isso, desde este dia, mais nenhum rei português usou a coroa real na cabeça, direito que passou a pertencer apenas à Nossa Senhora. Em cerimónias solenes, a coroa passou a ser colocada em cima de uma almofada, ao lado do rei. Um facto extraordinário e único no mundo.


Em 1648 D. João IV mandou cunhar medalhas de ouro e prata que correram como moeda, em honra da Padroeira de Portugal, tendo no reverso a imagem de Nossa Senhora da Conceição coroada de sete estrelas sobre o globo e a meia-lua, tendo aos lados o sol, o espelho, a casa de ouro, a arca da aliança, o porto e a fonte selada com a legenda: Tutelaris Regni. Foi, até, com duas destas moedas em ouro que o Rei pagou, nesse ano, o tributo prometido ao Santuário de Nossa Senhora de Vila Viçosa.


Outros reis, seus sucessores, continuaram a tradição deste culto de homenagem a Nossa Senhora, caso de D. João V, em 1717, que recomenda a todas as igrejas a celebração anual com pompa e solenidade da Festa da Imaculada Conceição, enquanto D. João VI emite um decreto criando a Ordem Militar de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa e a Cabeça da Ordem (lugar principal) na Sua Real Capela.

Santuário de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, também conhecido por Solar da Padroeira, por nele se encontrar a imagem da padroeira de Portugal.

Há uma grande peregrinação anual ao Santuário de Vila Viçosa que se celebra todos os anos a 8 de Dezembro, dia da Imaculada Conceição, Padroeira de Portugal. O Papa João Paulo II visitou este Santuário durante a sua primeira visita a Portugal, em 14 de Maio de 1982.


Fontes;

http://www.arqnet.pt/

http://refugiodomocho.blogspot.pt/

http://risco-continuo.blogs.sapo.pt/





segunda-feira, 15 de maio de 2017

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Nossa Senhora


José Régio (1901-1969)

    Tenho ao cimo da escada, de maneira
    Que logo entrando os olhos me dão nela,
    Uma Nossa Senhora de Madeira
    Arrancada a um Calvário de capela.

    Põe as mãos com fervor e angústia. O manto
    Cobre-lhe a testa, os ombros, cai composto;
    E uma expressão de febre e espanto
    Quase lhe afeia o fino rosto.

    Mãe das Dores, seus olhos enevoados
    Olham chorosos, fixos, muito além...
    E eu, ao passar, detenho os passos apressados
    Peço-lhe: – A sua bênção, Mãe!

    Sim, fazemo-nos boa companhia,
    E não me assusta a sua dor; quase me apraz.
    O Filho dessa Mãe nunca mais morre. Aleluia!
    Só isso bastaria a me dar paz.

    «Porque choras Mulher?... – docemente a repreendo,
    Mas à minh'alma, então, chega de longe a sua voz
    Que eu bem entendo:
    «Eu sei! Teus filhos somos nós».





quarta-feira, 10 de maio de 2017

Fátima: visões ou aparições?


Cónego José Manuel dos Santos Ferreira, Observador, 09/05/2017
Pároco de Santa Maria de Belém – Mosteiro dos Jerónimos

Pode haver visões ou aparições?
Como se distinguem?
E que aconteceu em Fátima?
Foram aparições ou simplesmente visões?

O filósofo francês Jean Guitton (1901-1999), num livro intitulado Os misteriosos poderes da fé, escrito em diálogo com o jornalista e escritor Jean-Jacques Antier, (edição francesa de 1997 e tradução portuguesa de 2000), observa que as pessoas com fé tendem a admitir que as visões ou aparições são possíveis e que até já aconteceram muitas vezes, ao passo que os descrentes ou cépticos dirão que não têm qualquer consistência ou realidade, nem sequer podem existir. Para estes, aquilo a que chamamos visão ou aparição não é mais do que um estado doentio em que o protagonista se apercebe de uma sensação sem que esta tenha nenhuma causa real na sua origem. Para os crentes, porém, a aparição ou visão é uma experiência real (p. 283 da edição portuguesa).

Admitindo que possam existir, como se distinguem «visões» de «aparições»?

O mesmo filósofo distingue entre visões exteriores e visões interiores. «As visões exteriores, ou visões sensíveis, ou aparições, implicam a representação de uma entidade sobrenatural – por exemplo a Virgem Maria – sob uma forma perceptível aos sentidos». Aqui, «o objecto apresenta-se no espaço real e aqueles que acompanham o vidente podem vê-lo ou não. Pelo contrário, as visões interiores são circunscritas exclusivamente à consciência do vidente, e as eventuais testemunhas não as vêem» (p. 284).

A distinção essencial é, portanto, entre «visão interior, cujo objecto está circunscrito à consciência do sujeito, e a visão exterior (ou aparição), cujo objecto se apresenta sensivelmente no espaço real» (p. 285).

O teólogo francês Louis Bouyer, no seu Dicionário de Teologia, define assim o conceito de aparição: «Chama-se aparição a uma manifestação de Deus, dos anjos ou até de seres humanos que já morreram, (santos ou não), que se apresenta de uma forma que impressiona os sentidos». E conclui: «Deus, os anjos e os santos podem manifestar-se a nós, se tal for a vontade divina, tanto por uma simples impressão sobrenatural feita sobre a nossa imaginação, como pela apresentação objectiva aos nossos sentidos de uma realidade corporal ou material de origem milagrosa» (trad. espanhola de 1990, p. 84).

E em Fátima, para aqueles que acreditam, houve visões ou aparições?

O filósofo português Carlos Henrique do Carmo Silva, num artigo publicado por ocasião do 80.º aniversário dos acontecimentos de Fátima («Aparições e experiências místicas: reflexão sobre o fenómeno de Fátima e contributo para uma sua renovada meditação espiritual», Didaskalia, Lisboa 1998), caracteriza o que aqui aconteceu como «um celeste contacto» (p. 21), expressão que, só por si, alude à mesma «realidade objectiva» de que falam os autores anteriormente citados.

Uma aparição é, portanto, «um celeste contacto», que ali está, «no espaço exterior», sob a forma de «uma realidade corporal ou material», mas indubitavelmente – e nem poderia ser de outra maneira – «de origem milagrosa».

Assim sempre se considerou terem sido os acontecimentos de Fátima: isto é, «aparições», e não simplesmente «visões» da Virgem Santa Maria.

«Na idílica, porém rústica, paisagem da Cova da Iria, como já nos Valinhos, e no pastoreio a que se dedicavam Lúcia, Francisco e Jacinta, surgem recortes de uma outra Presença que lhes aparece e se torna sensível». Assim resume Carlos Henrique do Carmo Silva estes acontecimentos, fazendo notar logo de seguida que «se toma aqui a aparição não como uma visão (de diversas «imagens invisíveis», de um magma fantasmático, ou de uma clarividência confusa, semelhante à da consciência onírica…), mas na acepção do aparecer visível de uma figura, um recorte presencial que distintamente se sobrepõe ao regime do mundo da percepção habitual» (p. 37 e nota 82).

As aparições de Fátima são esta presença objectiva e exterior da Virgem, manifestada aos três Videntes, presença tão objectiva como a das árvores ou das casas, ou das próprias ovelhas que pastoreavam, distinta destas ou de quaisquer outras realidades, porém, por ser sobrenatural e de origem miraculosa.

Em sentido contrário, porém, temos um texto assinado pelo Cardeal J. Ratzinger, futuro Papa Bento XVI, ao tempo Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, sob o título de Comentário Teológico, e incluído num conjunto de Documentos sobre «A Mensagem de Fátima», com data de 26 de Junho de 2000.

O Comentário começa por recordar a distinção perfeitamente tradicional entre os três tipos de visões:

«A antropologia teológica distingue, neste âmbito, três formas de percepção ou «visão»: a visão pelos sentidos, ou seja, a percepção externa corpórea; a percepção interior; e a visão espiritual».

Mas, depois de ter reconhecido a existência de três tipos de visão, o Comentário limita consideravelmente o seu alcance, pois, segundo ele, quer a visão seja interna ou externa, o vidente deforma necessariamente o que viu.

O Comentário exclui em seguida categoricamente que os acontecimentos de Fátima (ou de Lourdes) possam ser visões exteriores ou sensíveis, e classifica-as deliberadamente entre as visões interiores:

«É claro que, nas visões de Lourdes, Fátima, etc., não se trata da percepção externa normal dos sentidos: as imagens e as figuras vistas não se encontram fora no espaço circundante, como está lá, por exemplo, uma árvore ou uma casa».

Para o provar, dá um exemplo que parece incontestável:

«Isto é bem evidente, por exemplo, no caso da visão do Inferno (descrita na primeira parte do «segredo» de Fátima) ou então na visão descrita na terceira parte do «segredo».

Mas também não se tratou de uma simples visão espiritual ou intelectual:

«De igual modo, é claro que não se trata duma «visão» intelectual sem imagens, como acontece nos altos graus da mística. Trata-se, portanto, da categoria intermédia, a percepção interior que, para o vidente, tem uma força de presença tal que equivale à manifestação externa sensível».

E acrescenta:

«Este ver interiormente não significa que se trata de fantasia, que seria apenas uma expressão da imaginação subjectiva. Significa, antes, que a alma recebe o toque suave de algo real mas que está para além do sensível, tornando-a capaz de ver o não-sensível, o não-visível aos sentidos: uma visão através dos «sentidos internos». Trata-se de verdadeiros «objectos» que tocam a alma, embora não pertençam ao mundo sensível que nos é habitual. (…) A pessoa é levada para além da pura exterioridade, onde é tocada por dimensões mais profundas da realidade que se lhe tornam visíveis».

E insiste:

(…) As imagens por eles [os pastorinhos de Fátima] delineadas (…) também não se hão-de imaginar como se por um instante se tivesse erguido a ponta do véu do Além, aparecendo o Céu na sua essencialidade pura, como esperamos vê-lo um dia na união definitiva com Deus».

O Comentário nega, portanto, a realidade dos fenómenos exteriores, e não vê, nas visões de Fátima, senão uma percepção interior dos videntes. Para ele, em Fátima como em Lourdes, as figuras vistas pelos videntes não se encontram exteriormente no espaço!

A descrição da Virgem pelas crianças não seria, portanto, mais do que uma imagem daquilo que eles captaram interiormente. Por outras palavras, Nossa Senhora não teria vindo a Fátima: os visitantes não tiveram senão uma percepção interior da sua presença.

Esta leitura do Cardeal Ratzinger pode ser contestada?

Pode, claramente, em primeiro lugar porque, embora seja um texto oficial da Congregação para a Doutrina da Fé, não é uma «Instrução» nem uma «Notificação», como tantas que o Cardeal Ratzinger assinou, recebendo depois a aprovação do Papa, que ordena em seguida a sua publicação. Veja-se como termina, por exemplo, uma «Instrução sobre as orações para alcançar de Deus a cura», publicada em 14 de Setembro de 2000: «O Sumo Pontífice João Paulo II, na Audiência concedida ao abaixo-assinado Prefeito, aprovou a presente Instrução, decidida na reunião ordinária desta Congregação, e mandou que fosse publicada».

Este modo solene de conclusão com a aprovação papal não existe neste caso, o que se compreende, porque o texto em apreço não pretende ser mais do que um «Comentário», que intencionalmente não se reveste de especial autoridade no âmbito do Magistério da Igreja. Será legítimo, portanto, se houver razões para isso, pensar de modo diferente ou até discordar sobre matérias que nele se abordam, sem prejuízo do grande respeito que nos merecerá sempre o seu Autor.

Julgo, porém, que existem muitas razões para discordar da classificação dos acontecimentos de Fátima neste género intermédio, isto é, como sendo simples visões interiores, ainda que genuínas e de origem sobrenatural.

A verdade é que a Ir. Lúcia era de uma opinião totalmente contrária: ela estava certa de ter visto realmente a Virgem Maria, como esperava um dia vê-la no Céu. Em 1924, na comissão de inquérito canónico, foi-lhe feita esta pergunta: «Tens a certeza de que viste realmente uma Senhora em cima da carrasqueira e de que não te enganaste?»

E Lúcia respondeu: «Tenho a certeza de que a vi e de que não me enganei; ainda que me matassem, ninguém me faria dizer o contrário».

«E quem era essa Senhora?»

Respondeu: «Antes de ela dizer que era a Senhora do Rosário, não sabia quem era; agora estou convencida de que era Nossa Senhora» (Documentação Crítica de Fátima, doc. 82, p. 324).

No decurso da sua vida, a Ir. Lúcia não teve só visões sensíveis ou aparições, mas foi sujeita aos três tipos de visões acima referidos. As inspirações que receberá do Céu em resposta às suas interrogações serão frequentemente uma percepção interior. Já a visão de Tuy (13 de Junho de 1929) deverá, pelo contrário, integrar-se no segundo tipo, pois a Ir. Lúcia diz que viu, e não há nenhuma razão para duvidar do seu testemunho. Mas as personagens ou objectos desta imagem não estavam presentes fisicamente, em particular Deus Pai: portanto, dificilmente pode tratar-se de uma visão sensível.

A visão do Inferno pode igualmente ser inserida nesta categoria, visto que, como nota o Comentário do Cardeal Ratzinger, o fogo não se ateou na Cova da Iria! Claro que o Inferno não esteve, fisicamente, diante dos pequenos videntes: eles viram-no graças àquela luz que emanava das mãos da Virgem.

Mas o facto de a visão do Inferno ser da categoria das visões imaginativas, não prova que o resto da visão o seja, pois, como diz Adolfo Tanquerey, numa obra clássica sobre o assunto, nada impede que haja diversas percepções diferentes no decurso de uma mesma aparição. Esta dupla percepção já se produziu, aliás, na primeira aparição de 13 de Maio de 1917. Pelo reflexo vindo das mãos da Virgem, os pastorinhos viram-se em Deus: esta visão é muito provavelmente uma visão interior, que vem acrescentar-se à visão sensível da Senhora. Nas aparições de 1917, é fácil discernir as visões interiores, pois elas são precedidas de um gesto de abertura das mãos da Virgem e por um raio de luz que emana das suas mãos, como para materializar a graça da visão dada.

Mas as visões de Nossa Senhora são seguramente visões sensíveis. É seguro que a Virgem Maria apareceu aos pastorinhos sob uma forma exterior sensível. O carácter ofuscante das aparições é também uma prova da realidade do corpo glorioso da Santíssima Virgem. A Lúcia foi muitas vezes obrigada a baixar os olhos, tão viva era a luz que emanava da Virgem. O Cón. Formigão perguntou-lhe:

– Por que razão não raro baixas os olhos deixando de fitar a Senhora?

– É que ela às vezes cega (Documentação Crítica de Fátima, p. 58)

Na narrativa que fez da aparição de 13 de Outubro, disse:

«Veio no meio dum esplendor. Desta vez também cegava. De vez em quando eu tinha de esfregar os olhos» (J. de Marchi, Era uma Senhora mais branca que o sol, p. 177).

Também os fenómenos físicos que acompanharam os acontecimentos de Fátima e foram observados por numerosas testemunhas, não podem ser frutos de uma visão imaginativa. O seu número é impressionante. Esses fenómenos exteriores manifestam sem qualquer dúvida possível a presença efectiva de uma pessoa celeste.

Não só os videntes, mas também muitos daqueles que tiveram a graça de assistir (exteriormente) às aparições observaram esses fenómenos físicos, e isto em todas as aparições e não somente por ocasião do Milagre do Sol. Em parte nenhuma fora de Fátima, a Virgem rodeou a sua vinda e autenticou a sua presença de tantos sinais tão extraordinários. E essas testemunhas eram particularmente numerosas: cerca de 50 na 2.ª aparição, 4 000 na 3.ª, 18 a 20 000 na 4.ª, 25 a 30 000 na 5.ª e cerca de 70 000 na última, estando alguns por vezes a vários quilómetros do lugar das aparições!

Por ocasião dos acontecimentos de Fátima, as testemunhas mais próximas puderam observar diversos fenómenos dificilmente atribuíveis a visões interiores. Mas outros fenómenos puderam ser observados por um grande número de testemunhas exteriores.

Foram eles os seguintes:

I – Relâmpagos, que sempre antecedem as Aparições. Trovões, no momento preciso da Aparição, ou no seu termo, e cuja origem parecia provir da azinheira.

II – Curvatura do arbusto, como se tivesse estado coberto por um manto, e com as folhas todas inclinadas na mesma direcção (na segunda Aparição).

III – Perfume, de essência nova e desconhecida, evolando-se do ramo da azinheira cortado dos Valinhos, e sentido pela senhora Maria Rosa e circunstantes, após a quarta Aparição.

IV – Nubescente globo luminoso, avançado de Este para Oeste, e deslizando majestosamente através do espaço, até tocar a azinheira (na quinta Aparição).

V – Nuvem branca ou matizada, e de vista agradabilíssima, que várias vezes se formou em torno dos Videntes, com vaporizações de fumo ascendente até cinco ou seis metros de altura. E, isto, por três vezes bem distintas, na mesma Aparição.

VI – Chuva evanescente de rosas, com rosinhas brancas, maiores vistas de longe, e que, pouco a pouco, se vão tornando mais pequenas, com o aproximarem-se do chão, até desaparecendo de todo.

VII – Diminuição da luz solar em pleno meio-dia, sem nuvens nem eclipses. Viam-se a Lua e as estrelas. Este fenómeno verificou-se em todas as Aparições, à excepção da última. Quanto à primeira Aparição, não se sabe.

VIII – Milagre do Sol, que, segundo os testemunhos, consta de três fases:
  • a) O Sol torna-se opaco, com reflexos de madrepérola; pode-se fixar sem dificuldade, havendo ausência absoluta de nuvens e de eclipse;
  • b) Irradiações de cores, com rotação em feixes irisados que se difundem por todo o céu, semelhantes a fogo-de-artifício,
  • c) Movimento do disco solar, como que aumentando, ao princípio e dando a sensação de se precipitar sobre a terra; em seguida, movimento de translação do disco sobre o firmamento, de relance, tanto em linha retilínea, como quebrada.
«Em geral, podemos dividir, em duas classes, todos estes fenómenos: a primeira consta de fenómenos instantâneos; a segunda, de fenómenos estáveis. Os primeiros foram os relâmpagos e os trovões; os segundos, todos os outros. Compreende-se desta forma que Fátima se tenha imposto e triunfado…» (Sebastião Martins dos Reis, «Síntese crítica de Fátima», Junta Distrital de Lisboa, Boletim Cultural, 1987/68. p. 86-88).

O Cardeal J. Ratzinger foi eleito Papa em 2005. O seu pensamento sobre Fátima mudou?

Os seguintes pronunciamentos falam por si:

1. «Decorre hoje o nonagésimo aniversário das APARIÇÕES de Nossa Senhora em Fátima. Com o seu veemente apelo à conversão e à penitência é, sem dúvida, a mais profética das APARIÇÕES modernas. Vamos pedir à Mãe da Igreja, Ela que conhece os sofrimentos e as esperanças da humanidade, que proteja nossos lares e nossas comunidades». (Papa Bento XVI, 13/5/2007)

2. «Prova disto mesmo é este lugar bendito. Mais sete anos e voltareis aqui para celebrar o centenário da primeira VISITA feita pela Senhora «vinda do Céu», como Mestra que introduz os pequenos videntes no conhecimento íntimo do Amor Trinitário e os leva a saborear o próprio Deus como o mais belo da existência humana.» (Papa Bento XVI, 13/5/2010)

3. «Com a família humana pronta a sacrificar os seus laços mais sagrados no altar de mesquinhos egoísmos de nação, raça, ideologia, grupo, indivíduo, VEIO DO CÉU a nossa bendita Mãe oferecendo-Se para transplantar no coração de quantos se Lhe entregam o Amor de Deus que arde no seu. Então eram só três, cujo exemplo de vida irradiou e se multiplicou em grupos sem conta por toda a superfície da terra, nomeadamente à passagem da Virgem Peregrina, que se votaram à causa da solidariedade fraterna. Possam os sete anos que nos separam do centenário das APARIÇÕES apressar o anunciado triunfo do Coração Imaculado de Maria para glória da Santíssima. (Papa Bento XVI, 13/5/2010)

4. «O meu pensamento vai para Nossa Senhora de Fátima, de quem hoje recordamos a última APARIÇÃO. À Celeste Mãe de Deus vos confio, caros jovens, para que possais generosamente responder à chamada do Senhor.» (Papa Bento XVI, 13/10/2010).





É bom conhecermos a verdadeira Marine Le Pen (2): influências maçónicas


https://www.youtube.com/watch?v=gi5405Bs7xc&feature=youtu.be






É bom conhecermos a verdadeira Marine Le Pen (1): abortista

A eurodéputée Sophie Montel do FN, que preside ao groupe frontistea no Conselho Regional de Bourgogne-Franche-Comté, pronunciou um discurso centrado no «direito das mulheres», apoiando o aborto:

«Nous ne faisons pas du vieux conservatisme en reprenant à notre compte des combats d'arrière-garde. Nous sublimons la femme, nous défendons la libre disposition de son corps qui passe naturellement par la sanctuarisation de la contraception et la non-remise en cause de l'avortement. Oui, mes amis, le Front national défend le droit de la femme à disposer de son corps.»

Marine Le Pen e a eurodéputée Sophie Montel do FN, que preside
ao groupe frontistea no Conselho Regional de Bourgogne-Franche-Comté

«Tens razão, Sophie» — exclama Marine

Sophie Montel foi aplaudida por parte da sala e assobiada por outra. Esta passagem soa a ataque a  Marion Maréchal-Le Pen, sobrinha de Marine Le Pen, e que tem sobre este assunto uma posição totalmente contrária.  Marion  refere-se à «banalização do aborto».

No seu discurso, Marine Le Pen disse a Sophie Montel:

«Tens razão, Sophie».





terça-feira, 25 de abril de 2017

A mensagem de Fátima

CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ

Joseph Card. Ratzinger

Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé

APRESENTAÇÃO

Na passagem do segundo para o terceiro milénio, o Papa João Paulo II decidiu tornar público o texto da terceira parte
do « segredo de Fátima ».

Depois dos acontecimentos dramáticos e cruéis do século XX, um dos mais tormentosos da história do homem, com o ponto culminante no cruento atentado ao « doce Cristo na terra », abre-se assim o véu sobre uma realidade que faz história e a interpreta na sua profundidade segundo uma dimensão espiritual, a que é refractária a mentalidade actual, frequentemente eivada de racionalismo.

Ler mais em:

http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_20000626_message-fatima_po.html