quinta-feira, 12 de maio de 2016


O mistério dos camiões do São Carlos


Devia ter sido feito em segredo e pela calada da noite, mas o desvio de centenas de quilos de documentos da PIDE/DGS, no auge do Verão Quente de 1975, foi testemunhado pelo próprio comandante da PSP de Lisboa



José Pedro CastanheiraExpresso, 16 de Abril de 2016

Foi numa noite do Verão Quente de 1975 em que havia Conselho da Revolução. O comandante da PSP de Lisboa estava a comer no restaurante Belcanto quando um dos donos o alertou. No Largo de São Carlos, ao pé da ópera, estavam estacionados dois camiões da Armada, para onde um grupo de marinheiros ia transportando caixotes trazidos, escadas abaixo, das ruas vizinhas. Seriamente intrigado, o tenente-coronel José Aparício mandou dois dos seus homens investigar. Os volumes vinham da antiga sede da PIDE/DGS, a polícia política da ditadura, na Rua António Maria Cardoso. Assim que os camiões se puseram em marcha, foram seguidos por dois subchefes da PSP numa viatura à paisana. Quando regressaram ao Comando da Rua Capelo, os graduados contaram que os camiões foram directamente para o aeródromo militar de Figo Maduro, contíguo ao aeroporto da Portela, tendo transferido a mercadoria para um aparelho da Aeroflot, a companhia de aviação da União Soviética.

Testemunha. O coronel José Alberto Aparício, de 79 anos,
junto à antiga sede da PIDE/DGS (hoje, um condomínio de luxo)
Foi o antigo general do KGB Oleg Kalugin quem, em 1994, confirmou nas suas memórias o que há muito se suspeitava: o desvio de inúmera documentação da PIDE/DGS para Moscovo. Mais tarde, esta operação foi documentada de forma insofismável por Vasili Mitrokhin, ex-arquivista-chefe de um dos principais departamentos dos serviços secretos soviéticos. O Expresso, através do seu correspondente em Londres, Paulo Anunciação, teve acesso ao famoso arquivo Mitrokhin, que se encontra depositado na Universidade de Cambridge, onde o antigo alto funcionário do KGB pormenoriza parte do conteúdo do acervo documental desviado para a então União Soviética, num total de 474 quilos.

Não sendo capaz de datar de forma rigorosa a operação que testemunhou, o comandante distrital da PSP de Lisboa da altura, tenente-coronel José Aparício, garante ao Expresso que «foi no Verão de 1975, muito provavelmente no tempo dos governos de Vasco Gonçalves. Fiz um relatório para o Comando-Geral da PSP. Durante muitos anos guardei uma cópia desse e de outros documentos, mas que decidi destruir. Hoje, tenho pena...»

Nomeado por Costa Gomes na Assembleia do 11 de Março

José Aparício fora nomeado comandante da PSP de Lisboa logo a seguir ao 11 de Março de 1975, na sequência do malogro do golpe de Estado liderado pelo ex-Presidente da República, general António de Spínola. O oficial já estivera em comissão de serviço na PSP antes do 25 de Abril. «A primeira vez que estive na PSP foi em 1969, era capitão, num intervalo entre duas comissões» em África. A última fora na Guiné, e seguir-se-ia mais uma, em Moçambique, de onde regressou, já major, em finais de 1973. Voltou para a PSP uma semana antes do golpe dos capitães. «Estava colocado no Regimento de Infantaria N.º 10, em Aveiro. Convidaram-me para ir de novo para a PSP de Lisboa e aceitei.»

O Comando da PSP na capital estava instalado na Rua Capelo, paredes meias com o Governo Civil de Lisboa — no espaço onde foi recentemente instalado o Museu da Polícia de Segurança Pública. No 25 de Abril de 1974, o comandante era o coronel Pedro Barcelos. «Era um homem do curso do Spínola, que também estivera na guerra civil de Espanha, mas que se portou muito bem.» O major Aparício era o oficial de operações. Consumado e vitorioso o golpe dos capitães, Spínola, o novo Presidente da República, colocou à frente da PSP de Lisboa um dos seus homens de confiança, o major Casanova Ferreira, que manteve Aparício no mesmo cargo. «O Casanova não deixou que houvesse um único saneamento político na PSP.»


Envolvido no golpe spinolista de 11 de Março de 1975, Casanova Ferreira foi de imediato destituído. «Nessa noite, eu estava como habitualmente no Comando, quando fui chamado pelo general Costa Gomes.» O então Presidente da República estava no Instituto de Sociologia Militar, na Calçada das Necessidades — actual Instituto da Defesa Nacional —, onde dirigia a Assembleia do MFA. Uma reunião que passaria para a história como a «assembleia selvagem», onde foi decretada a nacionalização da banca e dos seguros e recusada a pena de morte contra os golpistas.

Aparício não estranhou o pedido de Costa Gomes. «Conhecia-o bem. Durante o período revolucionário, dava-nos muitas vezes ordens directas, passando por cima do ministro da Administração Interna, que tinha a tutela da PSP, e do próprio primeiro-ministro.» Nessa mesma noite, num intervalo da Assembleia, Costa Gomes comunicou a Aparício que seria nomeado novo comandante da PSP de Lisboa. Dependia hierarquicamente do general Pinto Ferreira, o comandante-geral da GNR, que passara a acumular com a PSP. Além disso, «passei também a despachar com o COPCON para as questões de ordem pública». Espécie de braço armado da revolução, o Comando Operacional do Continente (COPCON) era chefiado pelo general Otelo Saraiva de Carvalho. «Ia regularmente aos briefings do COPCON, no forte do Alto do Duque, com o Otelo.» Pouco depois, foi promovido a tenente-coronel.

Em 1975 frequentou um curso intensivo em Inglaterra. «Foi o general Pedro Cardoso, que era o ‘patrão’ das informações militares no EMGFA, que me mandou. Éramos quatro, entre os quais o major Cuco Rosa, da Polícia Militar. Os britânicos ajudaram-nos muito a aprender a lidar com manifestações e situações de violência urbana.» Do seu currículo na PSP constam ainda vários cursos nos EUA, França e Israel.

Inspirado na experiência britânica, «passámos a reunir em joint committees: nós, a PJ de Lisboa, a GNR, a Guarda Fiscal, os serviços de informações e os bombeiros. As reuniões eram normalmente no meu Comando ou na PJ, na Gomes Freire. Éramos mais ou menos dez, mas operacionais, não políticos. Havia uma partilha permanente de informação, de tal modo que eu sabia quase tudo o que se passava em Lisboa.» A cooperação entre os serviços era a palavra de ordem. «Só depois é que começaram a construir muros entre as várias quintas...» À sua disposição, a PSP de Lisboa possuía uma rede de rádios portáteis Motorola, «com pagers para nos chamarmos uns aos outros». O material havia sido adquirido «antes do 25 de Abril, mas ainda estava em fase experimental».

Durante o Verão Quente de 1975, «sempre que havia reuniões do Conselho da Revolução, a gente não saía do Comando». Principal órgão do poder político e militar, o Conselho da Revolução tinha reuniões com desfecho imprevisível. Prolongavam-se muitas vezes pela noite fora, não raro até ao nascer do sol. Havia decisões tomadas na hora, a que havia que dar cumprimento imediato — e a PSP, tal como o COPCON, tinha de estar disponível. «Ao lado do meu gabinete tinha um quarto com uma cama. Dormi ali muitas noites. E não era só eu: também os comandantes de Divisão, responsáveis por várias zonas da cidade, quase todos eles oficiais do meu curso.»

«Conheci muitos dos agentes do KGB»

Uma vez que a messe da polícia encerrava depois do jantar, durante a noite, «quando era preciso, íamos comer ao Belcanto, que passou a ser uma espécie de cantina». Um dos restaurantes mais afamados do Chiado — hoje dirigido pelo chefe José Avillez —, a uma trintena de metros da PSP, o Belcanto tinha uma freguesia muito variada. Desde meninas que se dedicavam ao engate até melómanos e amantes de ópera, que ali ceavam nas noites de récita no Teatro de São Carlos, passando por políticos, homens de negócios e — nos anos efervescentes de 1974 e 1975 — pessoal dos serviços de espionagem que se haviam instalado em Lisboa. «A fina-flor dos serviços secretos estrangeiros estava em Lisboa. Sabíamos que muitos deles ficavam no Hotel Tivoli.»

Caos 1. Militares da Marinha (e Exército) fazem guarda à sede nacional da PIDE/DGS,
na Rua António Maria Cardoso, após a tomada do edifício, a 26 de Abril
Aparício conhecia alguns. «Vi o Jacques Foccart no Belcanto mais de uma vez, logo a seguir ao 25 de Abril.» Foccart era um dos responsáveis dos serviços franceses de informação, muito atento a tudo quanto se passava em África, incluindo a lusófona... “Veio ver quem mandava nisto. Foi trazido pelo genro do Jorge Jardim, o comandante Themes de Oliveira, que eu conhecia muitíssimo bem.» O Belcanto era (e é) servido por duas portas, uma que dá para a Rua Anchieta, enquanto a principal está virada para o Largo de São Carlos. «O Foccart nunca entrava e saía pela mesma porta. E sei que o Marenches também lá foi — mas esse não o cheguei a ver pessoalmente.» Director do SDECE, os serviços secretos franceses, o famoso conde Alexandre de Marenches fora quem, na manhã de 25 de Abril de 1974, ao receber em Paris o subdiretor-geral da DGS, Barbieiri Cardoso, o informara de que estava a decorrer um golpe militar em... Lisboa.

«Pelo Belcanto passava sobretudo gente dos serviços ocidentais. Pelo menos que eu soubesse.» Aparício, no entanto, também conhecia os soviéticos — desconfiando desde sempre que pertenciam ao KGB, o que o arquivo Mitrokhin viria a confirmar. «Conheci muitos dos nomes referidos no Expresso. Encontrava-os muitas vezes nas recepções das embaixadas. O Semenychev era o mais relevante: era o primeiro-secretário da embaixada, mais importante do que o próprio embaixador. Era um prazer conversar com ele: um tipo muito culto e inteligente. Tentou convencer-me a aprender russo para melhor poder ler autores como Tolstói e Dostoiévski... Foi um dos ‘diplomatas’ russos expulsos em 1981 pelo governo de Sá Carneiro... Outros dois que também conhecia eram o Boris Kesarev, chefe da delegação comercial, e o correspondente do jornal ‘Izvestia’, Viktor Nesterov.»

Caos 2. Um jornalista britânico consulta diversa documentação numa sala
O Belcanto fora fundado, como muitos outros dos melhores restaurantes de Lisboa, por galegos, e não havia praticamente um dia em que Aparício não fosse lá. «Nem que fosse para tomar um café, que é talvez o meu maior vício. Ainda hoje sou capaz de beber uma dúzia de bicas por dia, mas na altura chegava às vinte...» Frequentador habitual, «conhecia todos os sócios e empregados. Informaram-me e avisaram-me de muita coisa que se passava na cidade...»

«Chamei dois subchefes muito batidos e mandei-os seguir os camiões»

Numa das muitas noites em que havia Conselho da Revolução, José Aparício foi como de costume ao Belcanto. «Seriam umas onze e meia, estava a comer qualquer coisa, quando o Aurélio, que era um dos sócios, veio ter comigo: ‘Venha ali ver uma coisa’, disse com ar misterioso. E levou-me para o exterior.» O Teatro de São Carlos estava encerrado e no Largo não havia quase vivalma. A não ser dois camiões com a traseira encostada ao muro fronteiro, de onde se desce pelas escadas que fazem a ligação à Rua Paiva de Andrada. Aparício apurou o olhar e percebeu de imediato que eram dois camiões militares de carga, de caixa fechada de lona. As matrículas eram da Marinha, facilmente identificáveis por começarem pelas letras «AP», de Armada Portuguesa. Em redor, o movimento era intenso, com marinheiros a descerem as escadas com caixotes nos braços, que depositavam no interior dos camiões. «Pareciam dois grupos, num total de uma dezena de marinheiros — ou pelo menos fardados de marinheiros —, aparentemente comandados por um sargento.»

Caos 3. Os responsáveis da polícia política deixaram deliberadamente
os papéis de forma caótica e desorganizada
Não tendo competência para intervir em situações envolvendo a Marinha ou qualquer outro ramo das Forças Armadas — só a Polícia Militar o poderia fazer —, mesmo assim Aparício tratou de averiguar o que se passava. Atravessou a Rua Capelo e entrou no Comando da PSP. «Chamei os dois primeiros homens que encontrei. Estavam à paisana, eram da Secção de Justiça, e mandei-os ver o que se passava, donde vinham aqueles marinheiros e o que transportavam. Eles subiram ao Largo do Chiado, entraram discretamente pela Rua António Maria Cardoso, foram andando até à sede da PIDE/DGS e vieram ter comigo ao Comando.» Era do interior das instalações da extinta polícia política da ditadura que estava a sair a misteriosa mercadoria, que os marinheiros transportavam pela António Maria Cardoso; passado o Teatro São Luiz, viravam à direita na Travessa dos Teatros, seguiam à esquerda pela Paiva de Andrada e, em frente do night club Nina (que não deixava de fazer concorrência às meninas do Belcanto), desciam as escadas que conduzem ao Largo de São Carlos, onde acondicionavam as caixas nos camiões.

Caos 4. Parte do armamento encontrado no interior ainda foi utilizado
pelos «pides», que dispararam sobre civis, fazendo cinco mortos
Tudo aquilo pareceu muito estranho ao comandante da PSP. Interrogando-se sobre o que estaria a ser retirado da sede da PIDE — documentação?, armas e munições?, o que mais poderia ser? —, quis saber o seu destino. «Chamei dois subchefes muito batidos, da velha guarda, e mandei-os ver para onde iam os camiões. Lembro-me de que um era o Silva, o tipo mais eficaz que eu já conheci, sempre disponível, que me resolveu várias encrencas. Morava na Rua Conde de Almoster, em Benfica, numas casas da PSP que por lá havia.»

Os dois subchefes meteram-se num carro da PSP sem qualquer identificação e foram atrás dos dois misteriosos camiões. «Seguiram-nos de forma discreta até ao aeródromo militar de Figo Maduro», contíguo ao aeroporto da Portela. «Os camiões entraram sem qualquer dificuldade, em direcção a um avião da Aeroflot», a companhia aérea da União Soviética, para cujo interior se fez a mudança dos caixotes.

Um «Relatório Imediato» para o Comando-Geral da PSP

De regresso ao Chiado, os dois subchefes fizeram um relato ao comandante, que, por sua vez, redigiu um «Relatório Imediato». «Era uma informação elementar, própria daquele tipo de relatórios. Seriam umas dez linhas, quase telegráficas.» Como era norma, afiança o agora coronel, «o relatório foi enviado para o Comando-Geral da PSP, e decerto que também para o COPCON. Além disso, falei no caso a vários camaradas de armas, incluindo alguns amigos meus que pertenciam ao Conselho da Revolução. Lembro-me de também ter falado ao general Galvão de Melo, porque tinha sido o primeiro responsável da Junta de Salvação Nacional pela Comissão de Extinção da PIDE/DGS. Mas ninguém ligou nada a isto».

Numa investigação sumária, a PSP procurou identificar e localizar os camiões a partir das matrículas da Armada. «Pedi aos meus serviços que os descobrissem, mas nenhuma das matrículas existia.» Ou seja, «eram falsas». Anos mais tarde, «pedi a alguns camaradas da Marinha para tentarem saber o que se passara, mas nunca conseguiram apurar nada».

Caos 5. Na delegação do Porto, um grupo de civis (entre os quais jornalistas) consulta
os muitos milhares de fichas feitas e guardadas pela PIDE/DGS
Aparício reconhece que cometeu «dois erros». «Todos os aviões têm uma identificação, mas não tomámos nota da matrícula do aparelho. Não o pedi aos meus homens, e eles não o fizeram. Esse foi o primeiro erro. O segundo é que podia ter pedido, mais tarde, o plano de voo. Porque não há aparelho que saia de um aeródromo que não tenha de comunicar o plano de voo, onde está incluído o respectivo destino. Não me lembrei de o fazer, de maneira que fiquei sem saber para onde voou: se para Berlim, se para Moscovo, se para outra cidade qualquer.» Ser-lhe-ia muito fácil obter o plano de voo. «Na altura, era membro por inerência de uma comissão de segurança aeroportuária. Mas, como era da Aeroflot, imagino que tenha voado para Moscovo.»

José Alberto Aparício manteve-se à frente da PSP da capital até 1980. Viria a ser substituído no governo da Aliança Democrática, presidido por Francisco Sá Carneiro. Coronel na reforma, hoje com 79 anos, é um dos militares que acumulou mais experiência na PSP em termos operacionais. Não duvida: «A operação foi muito bem montada. Foi escolhida uma noite em que estava reunido o Conselho da Revolução, em que sabiam que não haveria ninguém nas instalações da António Maria Cardoso. Os camiões ficaram estacionados suficientemente longe da sede da PIDE, para não levantar muitas suspeitas.» Aliás, nem poderiam ficar parados diante do edifício, uma vez que não deixariam os carros eléctricos circular — é por ali que passa a famosa carreira 28 da Carris. «As matrículas eram falsas e nada me diz que os marinheiros não o fossem: podiam ser civis disfarçados com fardas da Marinha. E no aeródromo de Figo Maduro estava tudo preparado para os receber. Pode escrever: eram profissionais com todos os efes e erres.»

Aparício é incapaz de dar uma data. «Foi no Verão de 1975, muito provavelmente ainda no tempo do Vasco Gonçalves como primeiro-ministro. E na vigência do general graduado Pinto Ferreira no Comando-Geral da PSP. Esteve lá até 29 de Setembro de 1975 e desde que foi substituído nunca mais me falou.» À demissão de Pinto Ferreira não terá sido alheio o assalto e incêndio, três dias antes, da embaixada de Espanha em Lisboa, a que as forças de segurança assistiram de forma passiva.

«Há coisas que nunca se esquecem na vida»

O Expresso contactou o Ministério da Administração Interna no sentido de localizar o relatório enviado para o Comando-Geral da PSP pelo seu então comandante distrital, tenente-coronel Aparício. A resposta, transmitida pelo gabinete da ministra Constança de Sousa, foi negativa: «Apesar das diligências do Departamento de Sistemas de Informação e Comunicações [DSIC] da Polícia de Segurança Pública, não foi possível encontrar qualquer documento referente ao tema.»

Igualmente contactado foi o então comandante do COPCON, a quem Aparício admite que também enviou uma cópia do relatório. «Não me lembro de qualquer relatório desse género», afirmou o coronel Otelo Saraiva de Carvalho. «Lembro-me muito bem de ter o José Aparício nos briefings matinais do COPCON — designadamente no dia do assalto ao consulado e à embaixada de Espanha, em que a PSP não fez nada. Mas esse tal relatório nunca o vi e nunca ouvi falar dele. E estou autorizado a dizer que o mesmo aconteceu com o coronel António Jorge Cardoso, que era o chefe da Repartição de Informações do COPCON, com quem falei.» Otelo, que tem acompanhado as revelações do Expresso a partir do arquivo Mitrokhin, acredita que «a maior parte da documentação terá sido levada para Moscovo não durante o PREC mas logo a seguir ao 25 de Abril, quando se formou a Comissão de Extinção da PIDE/DGS».

Acervo. O arquivo da PIDE/DGS, depositado na Torre do Tombo, em Lisboa,
devidamente guardado, organizado e com acesso público (em cima).
Dois «boletins de informação» elaborados pela PIDE sobre o cidadão
Francisco da Costa Gomes, futuro Presidente da República e marechal (em baixo)

Durante alguns anos, Aparício conservou uma cópia do relatório, que entretanto decidiu queimar. «Destruí há alguns anos pelo fogo, na Beira Baixa, o que pessoalmente tinha guardado do tempo do PREC.» Entre o material que guardara incluíam-se «cópias dos mandados de captura do COPCON enviados à PSP e nunca cumpridos; relatórios de alguns acontecimentos em que a PSP teve intervenção nesses tempos envolvendo figuras hoje importantes e ainda no activo; notas de algumas reuniões importantes; notícias e informações de ‘rasquices’ e ‘baldas’ de muitos intervenientes desses tempos revoltos; fitas de gravação de comunicações telefónicas de, e para, o telefone directo que tinha no meu gabinete». Até que chegou um dia em que «decidi destruir tudo. Reuni tudo o que tinha, e algum tempo depois, zás, tudo ficou em cinzas». «Hoje penso que fiz bem», mesmo tendo «consciência que sob o ponto de vista histórico fiz mal».

Quanto a outras testemunhas, «infelizmente já ninguém está vivo: nem os dois polícias que mandei fazer o reconhecimento do terreno, nem os subchefes que seguiram os camiões, nem o meu amigo Aurélio, sócio do Belcanto, nem o general Pinto Ferreira, a quem apresentei o relatório». José Aparício confia, porém, na sua (excelente) memória. «Há coisas que nunca se esquecem na vida. Uma delas, por exemplo, é a origem do avião que levou os caixotes da PIDE. É que não era um avião da TWA, era da Aeroflot, não sei se me faço entender...»

O conteúdo dos caixotes só viria a ser conhecido em 1994, através do antigo general do KGB Oleg Kalugin. No seu livro «Memórias de Um Espião», aquele dissidente soviético refere a audaciosa operação que consistiu no transporte, num camião, de uma «montanha de dados classificados» para a embaixada da União Soviética em Lisboa, de onde transitaram de avião para Moscovo. Muitos outros detalhes surgiram a público em 1999, com a revelação do arquivo Mitrokhin — o ex-arquivista-chefe de um dos principais departamentos do KGB. O livro «O Arquivo Mitrokhin. O KGB na Europa e no Ocidente», da autoria do próprio Vasili Mitrokhin e do investigador britânico Christopher Andrew, foi traduzido e lançado em Portugal no ano seguinte, pela Dom Quixote. Mas os pormenores da rede portuguesa do KGB só recentemente foram divulgados pelo Expresso. Um dos apontamentos redigidos por aquele alto funcionário do KGB — que se refugiou em Inglaterra com todo o seu gigantesco acervo documental — confirma de forma inequívoca que, «no final de 1975», a organização do KGB (ou rezidentura) em Portugal «recebeu do PCP» diverso material pertencente ao arquivo da PIDE/DGS.

José Aparício leu obviamente tanto o livro de Kalugin como o de Mitrokhin. Não se espanta, porque assistiu. «O general Kalugin só comete um erro: não foi um camião, foram dois. Ah! E não foram para a embaixada da URSS, foram directamente para o aeroporto. A não ser que tenha havido mais do que uma operação!»





domingo, 8 de maio de 2016


O que acontece quando um leigo

se veste de sacerdote?


Blog Senza Pagare, 8 de Maio de 2016


«O que acontece quando um leigo se veste de sacerdote?: Uma investigação sobre o poder do uniforme» é o título de uma reportagem fruto de uma experiência social de Tom Chiarella, que comprou uma batina e disfarçou-se de sacerdote para ver e provocar reacções nos transeuntes, enquanto passeava pelas ruas de Chicago nos Estados Unidos.

O artigo foi publicado pela revista Esquire Magazine, que não costuma apresentar conteúdo católico nas suas páginas, e que posteriormente foi também utilizado pelo site ChurchPop, o qual publicou 5 curiosas descobertas que Chiarella fez depois de estar vestido com o clássico uniforme católico: a batina.

A primeira parte do artigo descreve como foi a experiência de andar vestido de batina pelas ruas de Chicago e que conclusões tira a propósito desses momentos. Chiarella chega a afirmar: «Eu não tenho uniforme. […] Tenho uma camisola azul muito catita quando quero vestir algo que me caracterize. É a minha escolha. De facto, esta é uma liberdade muito entediante, adquirida a partir de uma mudança social numa ou outra onda populista do último século. As pessoas olham para isto como uma espécie de libertação.» E acrescenta também: «Um bom uniforme tem presença. Sem dúvida, faz com que não se passe despercebido. Todos reagem. E acima de tudo, mostra com simplicidade a sua missão.»

Para efeitos de esclarecimento, Chiarella durante a sua experiência nunca mentiu a nenhuma pessoa e quando alguém perguntava se ele era um padre ele respondia que não. Aqui estão os 5 aspectos desta experiência que mais se destacam:

1. As pessoas olhavam-no para onde fosse

«Uma hora com o uniforme e soube logo isto: Num dia radiante de Verão, numa grande cidade, um padre com batina é algo digno de observar. As pessoas estabelecem imediatamente contacto visual com o Sr. Padre, inclinando a cabeça em gesto de reverência, ainda que muito ligeiramente por vezes. Da mesma forma, ficam a assistir ao sacerdote a passar. Respeitosamente. De longe.»

«Ao caminhar acompanhados, os homens deixam de lado a sua forma habitual de estar para saudar repentinamente com um: ‘Bons dias, Senhor Padre’. O que provavelmente é um hábito apreendido nos seus tempos passados na escola secundária».

2. As pessoas queriam tocar-lhe

«Por norma, quando estás de uniforme, ninguém te quer tocar. Excepto, quando se trata de uma batina; nesse caso, as pessoas vão querer tocar no sacerdote. Na grande maioria das pessoas que encontrei, pretendiam basicamente agarrar-me a mão.»

«Ao contrário do que seria expectável, a veste sacerdotal é a que tem mais procura de acção física entre os uniformes que já vesti para o mesmo efeito social. Durante todo o dia tem que se dar abraços, ajoelhar-se para falar com os mais pequenos e até, por vezes, inclinar-se para as selfies».

3) Os sem-abrigo iam ao seu encontro para pedir ajuda

«Particularmente as pessoas mais carenciadas. Durante todo o dia deparava-me com homens e mulheres a viver nas ruas. Por vezes, chegavam até mim e seguravam a minha mão. Em duas ocasiões pediram-me a bênção, a qual eu não podia dar. Não podia da maneira que eles mais queriam. E isso criou em mim um desejo de ser capaz de realizar um serviço para o mundo, contudo, encontrei uma situação em que não podia fazer nada.»

«O uniforme vem com algo de responsabilidade, caso contrário, não passava de um mera indumentária. Comecei a ajoelhar-me, oferecendo uma nota de 10 dólares e dizendo: ‘Não sou um padre, mas percebo-te’. E não podia fazê-lo apenas uma vez sem continuar a fazer umas quantas vezes mais. Chicago é uma enorme cidade, com uma quantidade imensa de almas encurraladas. Fico ainda mais entristecido do que poderia alguma vez ter imaginado depois de ver tudo isto.»

4) Veio a ser parte da rota turística da cidade

Esgotado, o autor desta experiência ainda vestido como presbítero, dirigiu-se a uma carrinha de comida ambulante, comprou a sua refeição e cumprimentou um autocarro turístico, que devolveu essa saudação ao som das buzinas.

5) É difícil ser sacerdote

Dada a maneira como muita gente recorria à sua presença em busca de alguma esperança ou de auxílio, o autor conclui depois de todas as experiências que fez com diversos tipos de uniformes: «Estranhamente, a veste sacerdotal foi a mais exigente. [...] É fácil vestir uma batina, porém, não é fácil andar com ela, de forma alguma.»

in ACI Prensa

(Tradução: Manuel Portugal e Mello)




sexta-feira, 6 de maio de 2016


Os cidadãos e a gramática


Maria Regina Rocha, Público, 4 de Maio de 2016

Talvez não tenha sido muito feliz a criação do termo «igualdade de género», pois as pessoas não são palavras, sendo mais adequada a expressão «igualdade de direitos, deveres e garantias entre sexos», e, quanto ao «Cartão de Cidadão», esta designação naturalmente que engloba todo e qualquer cidadão.

Recentemente, tem sido objecto de discussão a denominação do Cartão de Cidadão, documento por meio do qual, em Portugal, se procede à identificação das pessoas, verificando-se em diversos artigos, e invocando-se a «igualdade de género», alguma confusão entre sexo e género, pelo que talvez valha a pena distinguir estes dois conceitos e explicar como funciona a língua portuguesa (e respectiva gramática) no que diz respeito à designação dos seres e das pessoas em geral.

Como ponto prévio, convém referir que o signo linguístico é arbitrário, o que significa, genericamente, que a designação de um determinado objecto, ser, fenómeno, etc., obedece a alguma convenção, variando de língua para língua. Observe-se, por exemplo, que «o mar» (palavra do género masculino em português) corresponde a «la mer» (feminino em francês) e a «the sea» (sem género em inglês) e que «uma criança» (palavra do género feminino em português, independentemente do sexo da criança em causa) corresponde a «un enfant» (palavra masculina em francês) e a «a child» (palavra sem género em inglês): como se vê, palavras diferentes e de diferentes géneros para designar a mesma realidade.

Assim, é conveniente distinguir sexo de género gramatical.

O sexo diz respeito a características morfológicas das pessoas e de outros seres vivos. Um género gramatical é um conjunto de palavras que seguem determinadas regras de concordância, distintas das dos outros géneros. Há línguas em que existe em alguns domínios uma relação entre género e sexo, mas não absoluta nem determinante (o caso da nossa), outras em que não há qualquer relação entre género e sexo; outras, raras, em que existe uma relação exacta; muitas em que o género está relacionado com outros factores (animado ou inanimado; metal, madeira ou pedra...), e mesmo algumas em que não existe sequer género.

Em português, muitos dos substantivos que designam um ser animado têm um género que corresponde a uma distinção de sexo (exemplos: o menino, a menina; o gato, a gata), mas muitos outros há em que tal não se verifica, quer no que diz respeito aos animais, quer no que diz respeito às pessoas.

Efectivamente, embora haja nomes de animais que têm masculino e feminino (o coelho, a coelha; o cavalo, a égua…), muitos dos substantivos que designam animais têm apenas uma forma (masculina ou feminina) para os dois sexos. São os substantivos epicenos, de que são exemplo a borboleta, a foca, a girafa, a serpente, o milhafre, o sapo, o tubarão…

Passando às palavras que designam pessoas, notamos que muitas delas têm a marca de género correspondente ao sexo, ou por meio do uso de uma palavra diferente consoante o sexo (exemplos: homem, mulher; pai, mãe), ou marcando-se a palavra feminina com um morfema próprio (exemplo: professor, professora). Há, no entanto, um certo número de substantivos, chamados «comuns de dois» e outros «sobrecomuns», que não têm essas marcas. Os «comuns de dois» são aqueles que têm a mesma forma para o masculino e para o feminino, sendo apenas o artigo que indica se nos estamos a referir a uma pessoa do sexo feminino ou do sexo masculino (exemplos: o artista, a artista; o colega, a colega; o presidente, a presidente). Os «sobrecomuns» são aqueles que têm um só género gramatical, não se distinguindo nem sequer pelo artigo (exemplos: a testemunha, o cônjuge, a vítima), verificando-se apenas pelo contexto, quando necessário, qual o sexo da pessoa. Este último caso acontece porque não importa aqui marcar a distinção de sexo: o que importa é a condição ou a situação da pessoa, e não a diferença de sexo.

De referir, ainda, que, na sua maior parte, as palavras quer de um género quer do outro se referem a objectos ou a seres vivos de qualquer sexo (lagarto, salgueiro...), não havendo nenhum tipo de critério nessa distribuição.





terça-feira, 3 de maio de 2016


Três falsificações da misericórdia


Samuel Gregg


Misericórdia, ensinou São João Paulo II, não é um livre-trânsito para fora da prisão que nos permite relegar a moral cristã para o reino do «ideal» ou demasiado pesado, excepto para super-católicos.


[Tradução automática. Original em

http://www.catholicworldreport.com/Item/4755/three_counterfeits_of_mercy.aspx]

Misericórdia é uma palavra que tem dominado o discurso católico ao longo dos últimos três anos, principalmente porque o Papa Francisco raramente faz um comentário público sem invocar-lo. Claro, é uma ideia nova para os cristãos. Imediatas dois antecessores de Francisco, Bento XVI e São João Paulo II, escreveu longamente sobre esse tema. Este último ainda escreveu uma encíclica inteira sobre o tema. Em Dives in Misericordia (1980), o santo que morreu na Vigília de Domingo da Divina Misericórdia sublinhou que a misericórdia divina está profundamente enraizado nas Escrituras Hebraicas e totalmente revelado na vida de Cristo, mais notavelmente na Cruz.

Leitores historicamente consciente de Dives in Misericordia, em breve reconhecer, contudo, que uma razão pela qual João Paulo escreveu este texto era para lembrar a todos que a busca da justiça pode facilmente degenerar em esforços para realizar programas ideológicos. «É óbvio», João Paulo escreveu, «que, em nome de uma suposta justiça (por exemplo, justiça histórica ou justiça de classe) o vizinho às vezes é destruído, morto, privado de liberdade ou despojado dos direitos humanos fundamentais» (12 DM). Estas palavras refletida claramente conhecimento do papa do comunismo e os comunistas: pessoas que escravizados e assassinados milhões em nome de seu socialista, materialista e ateu noções de que a justiça inerentes.

Atenção à misericórdia nos direciona para a última fonte de justiça, o Deus que é amor e, portanto, impede a justiça de entrar em colapso em algo completamente anti-humano. Mas o aviso do João Paulo também foi direcionado para os muitos cristãos que, na esteira do Vaticano II e em nome da justiça, foram reduzindo o Evangelho a deste mundo agendas políticas ou abraçando versões particulares de teologia da libertação. A visão do papa era que uma Igreja que abraça uma compreensão da justiça que não é informado pelo e, finalmente, dirigido ao perdão está no caminho rápido para perder o seu carácter distintivo cristão.

Esse é o risco associado com overemphasizing qualquer aspecto da mensagem cristã à custa de suas outras facetas chave. Você acaba distorcendo significativamente o Evangelho. Talvez menos bem entendido, no entanto, é que o estresse atual sobre a misericórdia não está isento desta tentação. Longe disso.

Misericórdia como sentimentalismo

Como todo mundo, os cristãos são influenciados pelo clima social em que vivem. Não é nenhum exagero dizer que aqueles de nós que vivem no Ocidente estão imersos em culturas em que o sentimentalismo, ao contrário fundamentado discurso, é uma característica distintiva. Quer se trate de pessoas que começam argumentos com a expressão «Eu apenas sinto que», ou aqueles que incessantemente invocam difíceis de casos (defensores da eutanásia são mestres desta arte preta) para justificar o que é claramente errado, a tendência é clara: a razão está fora e emotivismo é em.

Esse fenômeno inclui grandes segmentos da vida católica e de opinião. Considere, por exemplo, aquelas clero cuja forma pastoral é mais parecido com o de um terapeuta secular do que um padre e cuja pregação é difícil distinguir a partir das reflexões de Oprah.

Em tal atmosfera, não é surpreendente que a misericórdia é cada vez mais entendida por alguns cristãos, como base para pintar aqueles que destacar os requisitos da razão como rigorists ou julgamento. Essa atitude periodicamente à tona nos 2014 e 2015 Sínodos sobre a família. Aqueles que educadamente lembrou aos participantes sinodais, por exemplo, que o cristianismo sempre ensinou que existem absolutos morais que identificam certas escolhas livres como sempre mal foram retratados frequentemente como de coração duro ou com falta de misericórdia, invariavelmente, por bispos que presidiam financiado pelo contribuinte, hiper- igrejas burocratizados e vazios que agora funcionam principalmente auxiliares como mansas de estados de bem-estar da Europa ocidental.

Quem teria pensado que aqueles que referenciada a lei moral e sua lógica interna inscrito, como nos diz São Paulo, na própria natureza do homem e confirmado pelo Decálogo à força re-enfatizada por Cristo teria acusado de «atirar pedras» e rotulados como «fariseus»? Não há nada misericordioso, no entanto, sobre a tentativa de marginalizar as verdades conhecíveis através da revelação e da razão em nome da misericórdia. Também não há nada compassivo sobre fingir que a misericórdia permite ensinamento moral de Cristo para ser posta de lado em casos difíceis. O próprio Cristo nunca fez isso.

Da mesma forma, a misericórdia não é realizado por ignorar a verdade de que qualquer liberdade de escolha para o mal moral envolve fazer sérios danos ao que de João Paulo 1993 encíclica Veritates Splendor chama de «bens fundamentais» (VS 48, 50), que estão no cerne do cristão a vida moral. Com efeito, na ausência dos absolutos que proíbe tais escolhas, coerente raciocínio moral se torna impossível. Todo mundo é posteriormente à deriva em um mar de emotivismo.

Misericórdia como injustiça

Isso leva a um outro problema com a misericórdia separado da razão e da lei moral de Cristo:-lo rapidamente prejudica qualquer concepção coerente de justiça.

Em 1980, João Paulo alertou em Dives in Misericordia que «Em nenhuma passagem da mensagem do Evangelho o perdão, nem piedade como sua fonte, indulgência para o mal, no sentido de escândalos, no sentido de lesão ou insulto dizer. Em qualquer caso, a reparação para o mal e do escândalo, a compensação por lesão, e satisfação para insulto são condições para o perdão »(14 DM). Se isso soa cabeça-dura, isso é porque é. Lembre-se, porém, que o Jesus Cristo que encarna a misericórdia não é o equivalente de um animal divina recheado. Sempre que as Escrituras retratam Cristo oferecendo misericórdia para com os pecadores, seu perdão é sempre atado com um lembrete gentil, mas clara da lei moral e a expectativa de que os atos pecaminosos será descontinuado.

Para tirar o ponto ainda mais longe: se concepções sentimentalista de misericórdia estão autorizados a conduzir o uso da razão para fora da vida cristã, que se tornaria impossível para a Igreja a denunciar qualquer forma de injustiça de uma forma coerente. Por quê? Porque os critérios de justiça não seria mais estável.

Isso tornaria difícil para a Igreja para falar de qualquer maneira racional sobre, por exemplo, a injustiça na vida económica ou a diferença entre guerras justas e injustas. Em vez disso católicos seria reduzida a cometer os mesmos argumentos utilitaristas e emotivista que caracterizam a religião liberal e secularismo ou simplesmente juntar à já longa lista de contemporânea populistas cujo preferido modo de engajamento público sobre questões de justiça é demagogia.

Deste ponto de vista, podemos ver como a propagação da misericórdia de contrafacção em toda a Igreja não se limita a minar a capacidade dos católicos para identificar formas certas e erradas de relacionamentos pessoais. Sua lógica se faz e sua aplicação a justiça em todos os aspectos da vida um exercício de sentimentalismo aplicada. E isso não é forma de justiça.

Misericórdia como mediocridade

Os cristãos acreditam que Cristo tomou sobre o peso de nossos pecados e os expiou na Cruz. Justiça foi, assim, satisfeito. No entanto ato singular de Cristo, da misericórdia não significa que seus seguidores estão agora livres para viver uma vida de mediocridade. Ao contrário do que estranha 2014 do cardeal Walter Kasper alegação de que «o heroísmo não é para o cristão comum,» todos os cristãos são chamados a uma vida de santidade. Certamente, é impossível responder a esta chamada, na ausência de misericórdia e graça. Mas uma outra forma de misericórdia falsificados certamente envolve sugerindo que a santidade é simplesmente além de a maioria de nós. Neste cenário, a misericórdia de Deus efetivamente serve para nos deixar fora do gancho, com a santidade tornar-se entendida como algo alcançável apenas por uma elite valente.

Alguns têm sugerido que traços dessa mentalidade pode ser encontrado em algumas partes do capítulo 8 do Papa Francisco Exortação Apostólica Amoris Laetitia. Quaisquer que sejam os méritos de tais análises, é verdade dizer que a misericórdia cristã não pode ter nada a ver com a aceitação, muito menos afirmação de mediocridade espiritual ou moral. Isso seria contradizer o ensino muito consistente do catolicismo que, embora todos nós cair e falhar uma e outra vez, «o dom da misericórdia. . . oferece libertação da escravidão do mal e dá a força para não mais pecar» (VS 118).

Essa última citação vem da conclusão do Veritatis Splendor . Aqui São João Paulo ofereceu uma bela meditação sobre Maria e o fim último a que a misericórdia nos dirige. Alguns se perguntam como um papa que, inspirado por Santa Faustina, a freira humilde cujo nome é indistinguível da devoção à Divina Misericórdia, poderia escrever tão poderosamente sobre a misericórdia, mas também produzem uma encíclica sobre as altas exigências da moral cristã. Em Veritatis Splendor parágrafos finais 's, no entanto, João Paulo virou-se para Maria para nos mostrar por que não há nenhuma contradição.

Descrevendo Maria como «Mãe de Misericórdia», porque seu filho é «a revelação da misericórdia de Deus», João Paulo reiterou que «Cristo não veio para condenar, mas para perdoar, para mostrar misericórdia» (VS 118). Misericórdia, no entanto, não é um cartão de livre-trânsito que nos permite entregar a moral cristã para o reino do «ideal» ou demasiado pesado, excepto para super-católicos. Lidar diretamente com aqueles que afirmam «que a moralidade cristã é, em si, muito exigente, difícil de compreender e quase impossível de praticar» (VS 119), João Paulo especifica que «transformado por sua graça e renovada por sua misericórdia» (VS 119) é perfeitamente possível viver a vida cristã em toda a sua plenitude.

Então, qual é o papel de Maria em tudo isso? Por um lado, como a Mãe de Cristo, ela obtém misericórdia para nós. Ao mesmo tempo, depois de ter sido humano, João Paulo especificado, Maria «Compreende o homem pecador e o ama com amor de Mãe.» E como qualquer mãe responsável, ela não confundir misericórdia com uma opção preferencial pelos averageness ou uma licença para sentimentalista mush. Em vez disso, é precisamente porque Maria personifica o amor e a misericórdia que «ela está do lado da verdade e compartilha o peso da Igreja, ao recordar a todos e sempre as exigências morais» (VS 120).

No final, é a mulher judia lúcido, simples que nos mostra que não há verdadeiro choque entre a misericórdia e a vocação da vida moral cristã. Isso destaca o erro de tentar colocar uma cunha entre os dois, como por meio de implantação de linguagem ambígua que é típico do legalismo que é característica do laxismo. Misericórdia representa a disposição de Deus para perdoar uma e outra vez, o ponto de estar a dar-nos a força para resolver a ir e não peques mais.

Visto dessa perspectiva, reduzindo misericórdia a mera emotivismo ou transformá-la em uma desculpa para a mediocridade não é apenas uma mentira. Esses entendimentos de misericórdia rebaixar a nossa razão e desejo de distância o que o teólogo dominicano Servais Pinckaers chamado a liberdade de excelência a que o homem sozinho é chamado.

Como todas as falsificações, como a misericórdia não pode ajudar, mas decepcionou.






Censuras


João José Brandão Ferreira, Oficial Piloto Aviador

O primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán esteve em Portugal, onde no dia 15 de Abril, participou na conferência da Internacional Cristã Democrata. Que se saiba apenas o jornal «Expresso» noticiou o evento.

Entretanto quase todos os órgãos de comunicação social (OCS) verteram horas de imagens, som e resmas de escrita, sobre a multitude de jogos de futebol entretanto ocorridos.

As eleições presidenciais na Áustria deram, na 1.ª volta, o apuramento para o despique final, um candidato tido de extrema-direita, juntamente com outro de extrema-esquerda (camuflado com o rótulo de ecologista), com a «originalidade» da derrota clamorosa de todos os candidatos do «centrão».

Pois o país ficou a ignorar, praticamente tais resultados e o que se passou…

Ao mesmo tempo, porém, noticias, reportagens e comentários sobre a morte de estrelas do rock, normalmente ligadas a escândalos sexuais, droga, taras e vícios sociais vários (ou será que já não há vícios?), lograram amplo eco nas pantalhas, restante espectro electromagnético e em caracteres alfabéticos, impressos numa substância que teve a sua origem nos papiros egípcios.

Obama – o «entertainer» – veio à Europa interferir abusivamente no referendo inglês sobre a permanência da Grã-Bretanha na União Europeia; vai à Alemanha tentar condicionar a chanceler Merkel (que, por acaso, se chama «Kasner») sobre as opções a tomar por aquele país – que depois de vencido na II Guerra Mundial, até hoje não teve um tratado de paz – relativamente às suas opções na NATO, versus Rússia, ao mesmo tempo que tenta pressionar aquele grupo de políticos burocratas, não eleitos e principescamente pagos, sitos nas diferentes agências da desunião europeia, sem norte, a assinarem o Acordo de Parceria Transatlântica de Comercio e Investimento[1], que anda a ser negociado «por baixo da mesa» e que, a ir para a frente, irá soterrar de vez, a soberania dos estados europeus (e os EUA), sem que a esmagadora maioria dos OCS nacionais, tenha feito desta viagem a mais elementar cobertura jornalística.

Sem embargo, partem dois ou três carros com umas bugigangas – logo denominada de caravana – para oferecer aos refugiados/migrantes/emigrantes/etc., finalmente sustidos na Grécia (ou noutro ponto qualquer) e é um ver se te avias de notícias laudatórias.

Aqui deve fazer-se um parêntesis para dizer que as notícias devem ser apenas isso: noticias. Não têm, nem cabe aos jornalistas enquanto tal, adjectivá-las…

Por outro lado, a grande maioria das ocorrências – que são às centenas – de latrocínios, destruições, atentados à integridade física e moral de pessoas, exigências ridículas e despropositadas e os milhentos problemas e custos, causados por esta vaga de migração descontrolada – que está a fazer com que as populações dos países «assaltados» estejam a ficar prisioneiras e escravas no seu próprio território (ou o território agora, é comum a todos?) – são omissas em 95% dos «média» nacionais!

E quando alguns ditos refugiados – pois só conhecem de Portugal, alguns dos seus futebolistas – sendo inquiridos, não desejam vir para cá, é o próprio Presidente da República que se amofina com isso e quer é que eles venham…

Pergunta-se (os exemplos podiam continuar «ad nauseum»): se isto não representa a mais despudorada censura (incluindo a autocensura, que é a pior de todas) é o quê?

Se tal não se enquadra na mais inacreditável manipulação, enquadra-se em quê? Se o que pela rama se descreveu, não configura a maior falta de respeito pela liberdade de informação e de expressão, configura o quê, santo Deus?

Deus, eu disse Deus?

Será por isso que Sua Santidade o Papa levou refugiados muçulmanos (e, aparentemente, só esses) para o Vaticano?

Será que acampam na Capela Sistina ou irão construir uma mesquita (com minarete e tudo) para os albergar?

Será que a Santa Sé também irá pagar a transladação dos mártires cristãos, que andam a ser dizimados um pouco por todo o mundo maioritariamente muçulmano, só por o serem, para o local onde Pedro fundou a Igreja?

O prémio Carlos Magno 2016, entregue anualmente na cidade de Aachen, foi atribuído a Sua Santidade. Felizmente que o chefe espiritual dos católicos, apesar de o ter aceitado, não se deslocará àquela cidade alemã, sendo o prémio entregue em Roma.

Porventura não haverá ninguém em toda a Santa Madre Igreja, que possa alertar o Sumo Pontífice para o significado e envolventes, de tal distinção?

O mundo foi sempre um local perigoso. Convinha não andarmos confundidos.


[1] Conhecido pela sigla inglesa TTIP – «Transatlantic Trade and Investment Partnership»





domingo, 1 de maio de 2016


Alguns ocultam-se atrás da misericórdia...








Pacheco Pereira


Jorge Costa, Insurgente


O que torna o Pacheco Pereira um traste não é as ideias que tem ou não tem. Passamos a semana inteira a ouvir coisas tão ou mais estúpidas do que aquelas que ele faz questão de repetir por todo lado em que lhe derem atenção, sem acharmos que quem as profere é, por isso, indigno.

O que faz dele um traste moral é não ter a coragem de sair do PSD, e ir para Associação 25 de Abril, para o Bloco, para a Bloca, ou para onde lhe der na realíssima gana.

Toda a gente tem o direito de mudar. O problema é que para sair civilizadamente do partido de que um dia fez parte teria de reconhecer que mudou (supondo que é disso que se trata e não de ressentimentos pessoais insusceptíveis de comentário), que já não faz parte daquilo, mas que nem por isso o grupo político a que pertenceu e as pessoas com quem partilhou posições deixam de ser respeitáveis, como eram antes, tal como é respeitável quem quer que jogue limpo no jogo da democracia, que é o jogo do pluralismo.

Teria, enfim, de se resolver. Ele não. Prefere ficar à espera de ser empurrado, para se converter num caso heróico, transformando os outros, os que ficaram onde estavam, em pulhas. Obviamente que isso não acontecerá nunca, até porque Pacheco Pereira, ao fim do dia, é insignificante, o mundo não está inteiramente preenchido pelos trastes, e toda a sua relevância se reduz agora a este rosnar permanente que parece, bem vistas as coisas, ser a sua verdadeira vocação. Sem isso, e resolvendo-se civilizadamente, ficava o quê?





sexta-feira, 29 de abril de 2016


Dois cidadãos contaram duas histórias


História do cidadão americano


Comprei uma casinha, dessas abertas, para alimentar pássaros, pendurei-a na varanda e coloquei-lhe alpista. Ficou maravilhosa! Nos primeiros dias, apareceram alguns pássaros simpáticos e eu carinhosamente nunca deixei faltar as sementes para os alimentar.

Ao fim de duas semanas, tivemos centenas de aves que se deleitavam com o fluxo contínuo de comida livre e facilmente acessível. Então, os pássaros começaram a construir ninhos nas beiras do pátio, acima da mesa e ao lado da churrasqueira, ou seja, por todo o lado.

Depois veio a porcaria, porque faziam as suas necessidades em toda a parte: nas cadeiras, na mesa ..., enfim, em tudo! Algumas aves alteraram o seu comportamento, tentando-me atacar em voo de mergulho e me bicar, apesar de eu ser o seu benfeitor.


Outras aves faziam tumulto e eram barulhentas. Pousavam no alimentador e a qualquer hora, ruidosamente, exigiam mais comida quando esta ameaçava acabar.

Chegou um momento em que eu não conseguia sentar-me na minha própria varanda. Então, desmontei o alimentador de pássaros e em três dias acabaram indo embora. Limpei toda a porcaria e acabei com os ninhos que fizeram por todo o lado.

Tudo voltou a ser como costumava ser: calmo, sereno e nenhum pássaro exigindo direitos a refeições grátis.

História do cidadão europeu


O nosso Estado dá comida de graça, habitação, subsídios, assistência médica e educação gratuita a qualquer pessoa nascida num País de outro continente, que diga ser refugiada, o que originou que, de repente, chegassem dezenas de milhares de pessoas. De repente, os nossos impostos terão que subir para pagar os serviços gratuitos, os apartamentos, os custos gratuitos de saúde dessas pessoas.

Na escola querem retirar a carne de porco e salsichas da alimentação porque essas pessoas dizem que é contra a sua religião, querem arranjar espaços para construir locais onde esses possam praticar a sua religião, querem que as suas raparigas andem cobertas, as suas mulheres não aceitam ser atendidas num hospital por médicos do sexo masculino porque é contra a sua religião, e muitas outras situações que se as contássemos provocariam um pânico generalizado.

As caixas de cereais matinais, o leite e outros alimentos vêm com rótulos bilingues.

Sou obrigado a usar teclas especiais para poder falar com o meu banco no nosso idioma e a ver pessoas estranhas acenando bandeiras, que não são a nossa, e ouvi-las berrando e gritando pelas ruas, exigindo mais direitos e liberdades gratuitas.

É apenas a minha opinião, mas talvez seja hora de também o governo desmontar o alimentador de pássaros.






quinta-feira, 28 de abril de 2016


Na Rússia só existe uma escola católica legal


Típico primeiro dia de aula
na Escola Franciscana da Natividade de Novosibirsk.

Luís Dufaur

Em todas as áreas religiosas do mundo – pagãs, muçulmanas, fetichistas, etc., etc. – há escolas católicas mantidas por Ordens religiosas ou por missionários, às vezes com heróicos esforços. As escolas católicas têm prestigio até em países insólitos.

Por isso elas atraem uma multidão de muçulmanos no Paquistão e na Jordânia, de hinduístas na Índia ou no Nepal, de taoístas e agnósticos em Taiwan, e de ateus até em países comunistas como o Vietname.

Mas na Rússia de Vladimir Putin não podem existir. São fechadas por via policial ou ameaças de origem oficial. Na Rússia, país de 143 milhões de habitantes que ocupa a sexta parte das terras emergidas, a única excepção é a escola infantil católica de Novosibirsk, na Sibéria, informou o site «Religión en Libertad».

Foi fundada cinco anos após a queda do Muro de Berlim, como uma experiência clandestina de frades franciscanos, num pequeno apartamento que depois foi sendo ampliado.

Quase ninguém se atreve a denunciar a anomalia da ausência na Rússia de escolas católicas. Para alguns, a excepção da escolinha de Novosibirsk funciona como um pará-vento da repressão.

Correm rumores da existência de academias católicas em cidades siberianas. Noutras cidades haveria maternidades católicas semiformais, mas agindo na clandestinidade, como no tempo do comunismo soviético.

O director de Novosibirsk, o sacerdote franciscano Corrado Trabucchi, explica que a escola fornece um currículo completo com todas as matérias.

Começou num tempo em que havia alemães católicos enviados para campos de concentração soviéticos da região e que queriam um ensino católico para os filhos e netos.

Os franciscanos de Novosibirsk, gerem a única escola católica da Rússia
O nível de cultura religiosa em Novosibirsk é paupérrimo, como resultado do ateísmo de Estado e do desinteresse da igreja cismática pela formação religiosa. De início, as crianças nada sabem de religião, nem mesmo quem foi Jesus Cristo.

A escola sobrevive com uma licença estatal exclusiva. Em geral, o regime de Putin considera suspeitas as actividades católicas, chegando a ameaçar tornar a Igreja católica ilegal, acusando-a de agente que encoberta serviços secretos estrangeiros.

A escola católica tem popularidade na cidade e atrai crianças cujos pais professam outras religiões, mas desconfiam dos estabelecimentos públicos. A oração conjunta católica é obrigatória todos os dias. As crianças de famílias ortodoxas são convidadas a baptizarem-se, pois o clero cismático faz muito pouco nesse sentido.

As crianças aprendem a celebrar festas como a de Natal. Recebem educação patriótica, aprendem o alfabeto russo e a sua origem no grego, a História Sagrada, o Antigo e o Novo Testamento. A escola mantém-se com donativos vindos do exterior. O Estado ajuda pouco ou nada.

Um dos maiores problemas é que pela ausência de moral na Rússia, a maioria das famílias está destruída. Muitas crianças só conhecem a avó ou a tia com quem vivem.

As celebrações, orações e festas comuns como a de São Nicolau devem evitar o risco de serem acusadas de «ópio do povo».





segunda-feira, 25 de abril de 2016