sábado, 16 de abril de 2016
quinta-feira, 14 de abril de 2016
Eutanásia, morte digna?
Pe. Vasco Pinto de Magalhães, Observador, 22 de Fevereiro de 2016
Como é possível que, num mundo cheio de mortes por ideologias fanáticas que pretendem um mundo limpo de infiéis, sem dignidade nem lugar, estejamos nós a discutir como matar para eliminar o sofrimento
Gostava de perceber o que se entende por dignidade. Para os defensores da eutanásia, esse tem sido um argumento. Mas dá vontade de perguntar: uma pessoa sofrida, em grande sofrimento, por uma doença ou situação «sem cura» perde a dignidade? A mãe a fazer o luto de um filho, por exemplo, ou um deficiente profundo, um doente «terminal» ou o Papa João Paulo II tremendo e babando-se nos seus últimos tempos, tornaram-se indignos? Não seria melhor «ajudá-los a morrer» ou, talvez, «matá-los piedosamente»? A resposta que me dão é que «faz muita impressão», que «não há direito de deixar ali a sofrer», que «a sua vida já só é um peso para si mesmo e para os outros» que «a sua vida acabou», «que sentido tem?»; e por isso mais vale acabar mesmo… e nós ajudamos; claro… se for esse o seu desejo pedido com liberdade.
Vale a pena comentar e responder a estas questões.
1) Então, a dignidade da morte viria desta ser a pedido, consciente e livre! Mas… todos sabemos que a liberdade é sempre condicionada e, de modo especial, ainda mais, no grande sofrimento ou na euforia. Um mínimo de psicologia e de entendimento da linguagem sabe que não se pode tomar à letra o que se ouve ou se lê. Quantas vezes atendo pessoas que mais ou menos com insistência me dizem «não aguento mais», «não sei o que ando cá a fazer», «isto não faz qualquer sentido», «quero morrer, ajude-me», etc. Então começa a conversa, respeitando essa dor. Conte-me a história toda, vamos ver por onde entra essa imensa solidão ou essa revolta, essa culpabilidade ou experiência de desamor insuportável… vamos falar dessa infelicidade, desse medo aterrador, desse sentimento de exclusão… E, tirando alguns casos de suicidas obsessivos, sempre se encontra algum caminho, uma janela, que ajuda a ver a luz (lá ao fundo), a descobrir uma aceitação possível. É preciso tempo, paciência e acolhimento para que a pessoa se comece a sentir amada ou, pelo menos, a admitir que pode ser reconhecido o seu valor. Tomo muito a sério a pessoa que pede a morte, mas devo perguntar-me: quer morrer ou está a dizer-nos outra coisa? Quer que aquele sofrimento morra, certamente. Mas a morte pela eutanásia, não mata o sofrimento, mata a pessoa! Aliás o que a minha experiência diz é que se eu, mais do que entender o seu sofrimento, também lhe mostro que concordo com a eutanásia, o que lhe estou a comunicar é: «realmente, mais um que acha que eu já não sirvo para nada».
2) A desfiguração e o sofrimento psíquico ou físico não tira dignidade à pessoa: esta, por maior que seja a limitação, não deixa de ser pessoa, sempre digna de ser respeitada e amada. O que é indigno na pessoa é a mentira, a corrupção, a inveja, a prepotência e a soberba que exclui e escraviza. A eutanásia também não resolve essas doenças morais, nem dá espaço para que sejam repensadas e superadas, eventualmente, com o acompanhamento, com o perdão e o paliativo necessário. Se, em vez de acompanhar a pessoa, para lhe dar dignidade a mato, não só não a compreendi como a «coisifiquei». Diz-se: faço-o por pena, para que não sofra! Mas bem dizia o Prof. Daniel Serrão: «a morte por compaixão é a morte da compaixão». Na verdade o que acaba ali é a relação e o cuidado com o outro; e, por um acto não médico, alivia-se a tensão: resolve-se, sim, o problema de quem acompanha e já não sabe lidar com ele. Uma subtil tentação, nem sempre perceptível, sob a capa de parecer que é um agir «pro vida».
3) A morte a pedido manifesta a autonomia da pessoa e daí a sua dignidade? Pode parecer, mas vejo aí uma confusão entre auto-suficiência e autonomia. Autonomia significa que se tem uma «lei própria» e se tem consciência dela e se é coerente com ela, com todos os seus condicionamentos. A pessoa vai-se tornando cada vez mais autónoma na medida em que se vai tornando cada vez mais moralmente livre. E a liberdade, que é uma aprendizagem difícil, é a capacidade de gerir os seus condicionamentos e escolher o bem maior; isto é, decidir-se pelo que é mais humano e mais nos humaniza como seres sociais. A auto-suficiência é não ter que dar contas a ninguém e fazer o que se entende por imaginar que se pode dispor de si e dos outros «como se quiser». Não somos auto-suficientes. A morte a pedido pode não parecer, mas é uma tentação de auto-suficiência. Escolher matar-se tal como matar, não é, certamente, escolher o bem maior – com autonomia e liberdade. É mais um grito de socorro. E socorrer deve ser um acto inteligente (o que se passa aqui? Qual é a dor?) e não uma cedência a um impulso ingénuo e «piedoso».
4) Se admitirmos que há um direito a querer morrer (e um direito a que me matem?), isso não implica que alguém, um médico, por exemplo, tenha o dever de o fazer. Terá o dever moral de ajudar quem faz tal pedido, na medida das suas possibilidades, mas ninguém pode impor essa obrigação de matar outro, mesmo que compreenda a sua dor e o seu pedido. Se se chegasse a legalizar a eutanásia devíamos ter claras várias coisas importantes. A primeira, que o que é legal não só não é necessariamente bom, como não é necessariamente legítimo moralmente. A segunda, que os direitos de uns não podem forçar os de outros; além do direito de discordar, tem-se o direito a que se respeite, positivamente, a objecção de consciência. Por fim, cada um deveria ter o direito de ter a lista toda dos médicos «eutanasistas». Eu não recorreria a um médico que pudesse olhar para mim e pensasse «este já está a mais; não vai longe; a sua vida não é digna!» Aliás, nenhum parlamento tem direito a avaliar e legislar sobre a vida. Isto é a determinar que há vidas que se podem descartar ou que não são dignas; mesmo que se diga que é para respeitar a autonomia e a liberdade.
5) A «solução» da eutanásia, no estádio actual da medicina (do acompanhamento psicológico e espiritual, dos cuidados paliativos, das possibilidades de enquadramento social, etc.), seria uma saída completamente reaccionária e violenta. Sim, num estádio anterior de civilização, cultural e socialmente falando, talvez se pudesse entender os defensores da «boa morte» ou até os «abafadores». Mas, hoje, é difícil de aceitar o matar como um bom caminho. É claro que é preciso compreender a dor de quem acompanha a doença prolongada de uma pessoa querida sem ver saídas rápidas e eficazes. Mas os cuidados paliativos também atendem e apoiam o contexto familiar da pessoa em processo terminal, mais ou menos prolongado.
6) Há ainda um outro perigo ou tentação. A eutanásia pode dar dinheiro! Poupar nos gastos com velhinhos ou deficientes, ter mais facilmente espaço e camas para outros com mais possibilidades e mais ricos, poderia ser um razoável negócio, dentro de uma cultura de morte que elimine quem não é útil, quem não produz, ou quem é considerado um peso demasiado. Nessa cultura, seriam os próprios infelizes, pobres e feios a pedir a eutanásia, não encontrando lugar num «desejável mundo cosmeticamente limpinho». Os totalitarismos já fizeram essa experiência e não deu resultado. Como seria «O admirável mundo novo» dos «eutanasistas»?
7) Morte assistida! Todas as mortes devem ser acompanhadas com cuidado respeito e afecto: não assistidas como quem vê o espectáculo, mas como quem vive solidário esse momento tão importante de cada vida humana. Porquê trocar os nomes à realidade? Para enganar quem? Se estou a facilitar e dar condições para que alguém se suicide, não é suicídio assistido, é conivência e participação. Se estou a «eutanasiar» outra pessoa, ainda que com todo o jeito e preparação, estou a matá-la. Mesmo que tenha sido a seu pedido, não é assistência, é ser autor «responsável». Para quê branquear o acto de matar com o título de «morte assistida»? Se é preciso perceber o que se quer dizer com «mata-me!», também é preciso desmascarar o que se quer dizer com «dou assistência à tua morte!»
Como é possível que, num mundo cheio de mortes por ideologias fanáticas e doentes que pretendem um mundo limpo de infiéis, sem dignidade nem lugar, estejamos, nós, a discutir como matar para eliminar o sofrimento! Que atraso civilizacional!
quarta-feira, 13 de abril de 2016
General Pires Veloso – Democrata e Patriota
O Presidente da Câmara Municipal do Porto, o
Comandante do Pessoal do Exército, a Comissão Promotora da Homenagem ao General
Pires Veloso e a Âncora Editora têm o prazer de convidar V.Exa. para o
lançamento do livro
General
Pires Veloso – Democrata e Patriota
A obra será apresentada pelo Prof. Dr. Adriano
Vasco Rodrigues.
A sessão terá lugar no próximo dia 21 de Abril, pelas 18:30 horas,
no Salão Nobre do Quartel de Santo Ovídio, Praça
da República, Porto.
Estacionamento gratuito no interior do Quartel, com entrada pelo Portão Norte, junto à Igreja da Lapa.
terça-feira, 12 de abril de 2016
Diálogo confuso com os muçulmanos
Robert Reilly
Em 2013 a Faith and Reason Institute (que detém o The Catholic Thing) publicou, juntamente com a Westminster Institute uma monografia que eu escrevi sobre as Perspectivas e Perigos do Diálogo Católico-Muçulmano. Neste texto examinei uma década e meia de esforços por parte das três conferências episcopais regionais de desenvolver este diálogo. Os resultados não eram encorajadores.
Quem não se mostrou minimamente preocupada foi a Conferência Episcopal dos EUA, que aumentou a parada e criou uma comissão de diálogo nacional. O que podemos esperar desta iniciativa? Mais confusão, temo dizer.
Há vários problemas. Tal como a maioria dos Americanos, os bispos sabem pouco ou nada sobre o Islão. Logo, não compreendem o contexto em que falam os seus interlocutores. O resultado é que partem do princípio que os seus parceiros de diálogo são apenas uma imagem espelhada deles mesmos. É um grande erro.
Um exemplo foi dado recentemente pelo bispo de San Diego, Robert W. McElroy, no Instituto de Justiça e Paz da Universidade Joan B. Kroc, em San Diego. O Catholic News Service fez manchete com «Bispo desafia católicos a combater ‘maré feia de preconceito anti-islâmico’». O bispo considera que os católicos devem erguer a voz contra as «distorções de ensinamentos e teologia muçulmana sobre a sociedade e o Estado».
Que distorções são essas? Aparentemente devemos ver com revolta as «repetidas falsidades» de que o Islão é inerentemente violento, que os muçulmanos procuram impor a Sharia no lugar da Constituição americana e de que a imigração muçulmana ameaça a «identidade cultural do povo americano».
O parceiro de diálogo do bispo McElroy nessa noite era Sayyid Syeed, líder da Sociedade Islâmica da América do Norte (ISNA), cujo nome já me era conhecido por ser uma presença regular no diálogo católico-muçulmano da minha região. Talvez o bispo não conhecesse a história do ISNA, que surgiu da Irmandade Muçulmana, a primeira organização no mundo a trabalhar pelo restabelecimento do califado e que se dedica à implementação da Sharia.
Mas não se fiem apenas em mim.
O Dr. Muzammil Siddiqi, ex-presidente do ISNA e participante frequente nas sessões de diálogo, disse o seguinte ao jornal «Pakistan Link»: «Não nos devemos esquecer que as leis de Allah devem ser estabelecidas em todas as terras, e que todos os nossos esforços devem conduzir-nos nessa direcção». Em 2001 escreveu «à medida que mais pessoas aceitam o Islão, insha’allah, isso levará à implementação da Sharia em todas as regiões».
Zuhdi Jasser, fundador do Forum Islâmico Americano para a Democracia adverte que, na convenção anual do ISNA em 1995, o orador principal, Imam Siraj Wahhaj, pediu a substituição da Constituição pelo Alcorão. Não admira que Jasser lamenta aquilo a que chama uma «relação infeliz entre a hierarquia católica e o ISNA». (Jasser, ao que parece, não seria um bom parceiro para este tipo de diálogo).
Embora reconheça a situação terrível que os cristãos enfrentam no Médio Oriente, o bispo McElroy louvou o respeito do Islão pelo que chama «os povos do Livro». Foi logo ecoado por Syeed que disse, de acordo com a CNS, que o primeiro milénio foi marcado por boas relações entre o Cristianismo e o Islão, mas que tudo isso mudou no milénio seguinte, que incluiu as cruzadas.
É uma perspectiva interessante da história.
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| Sayyid Syeed |
Sugiro aos bispos que coloquem nas suas listas de leitura o livro de Bat Ye’Or «O Declínio do Cristianismo Oriental sob o Islão: Da Jihad aos Dhimmis», para que possam falar com rigor sobre o respeito que o Islão revelava pelos «povos do livro» durante o primeiro milénio e posteriormente. Com base neste passado, será tão inadequado dizer que há algo «inerentemente violento» no Islão?
Syeed concluiu, dizendo que no segundo milénio «as duas fés dividiram o mundo em ‘a casa do Islão’ e ‘a casa do Cristianismo’». Na verdade essa divisão foi feita muito antes e pelo Islão, que criou a distinção entre dar al-islam e dar al-harb, com o mundo cristão a ser descrito como a «casa da Guerra».
Mas será que esta distinção seja antiquada? Por volta da mesma altura em que o bispo McElroy falava, num sermão de sexta-feira em Edmonton, Alberta, o imã Shaban Sherif Mady declarava: «Anseiam por isto, porque o profeta Maomé disse que Roma iria ser conquistada! E será conquistada. Constantinopla foi conquistada. Roma é o Vaticano, é o coração do Estado cristão».
Pergunto, então, quem é que está a entender mal o Islão, o Imã Siraj Wahhaj ou o bispo? (Nem falo em Syeed, porque ele saberia certamente que Maomé disse isto).
Por outras palavras o evento do Instituto de Paz de San Diego proporciona um microcosmo para tudo o que costuma correr mal com o diálogo católico-muçulmano quando este é conduzido pelas conferências episcopais. Nenhum dos muitos reformadores muçulmanos intelectuais com quem trabalhei ao longo dos anos foi alguma vez convidado para um encontro destes. Na maior parte, apenas as organizações muçulmanas se devem dar ao trabalho de se candidatar.
Isto ajuda a legitimar os clones da Irmandade Muçulmana e aliena as verdadeiras vozes de reforma muçulmana. Por outro lado, uma vez que acabam frequentemente por representar mal a substância, os diálogos acabam por espalhar equívocos sobre o Islão em vez de os ultrapassar.
Uma vez que os muçulmanos se estão nas tintas sobre o que os católicos dizem sobre o Islão, os únicos a quem este tipo de diálogo confunde são os próprios católicos. Sugiro, como lema para esta nova iniciativa de diálogo da USCCB, o dito de Bento XVI de que «a verdade torna possível o consenso» e, por consequência, a insensatez torna-a impossível.
De acordo com a reportagem da CNS da semana passada, o bispo McElroy disse que a revolta que domina o actual clima político é um sinal de alienação popular por as pessoas não sentirem que estão a ser ouvidas pelas elites. O bispo McElroy é uma das elites. Estará a ouvir?
domingo, 10 de abril de 2016
sexta-feira, 8 de abril de 2016
Uma excelente análise
sobre o «aborto ortográfico»
«Insegurança ortográfica»
«Uma excelente análise, por Acílio
Estanqueiro Rocha, Professor Emérito da Universidade do Minho, Departamento
de Filosofia, Instituto de Letras e Ciências Humanas, sobre a Insegurança
Ortográfica que o AO/90 gerou entre aqueles que aceitaram, sem
pestanejar, a imposição ilegal e inconstitucional deste monumental engano.»
Acílio Estanqueiro Rocha
1 — Já afirmámos que o Acordo Ortográfico veio
criar enorme «insegurança ortográfica», onde esta antes não
existia; subestimaram-se vários pareceres solicitados que alertavam para isso
mesmo. Aliás, no ano passado, o Parlamento recomendou ao Governo a constituição
de um grupo de trabalho para acompanhar o processo de aplicação do AO, com elaboração
de relatório; que se saiba, nem grupo nem relatório.
Mostrámos já que a obsessão pela unificação
ortográfica criou, em vez das duas, três grafias, patente em exemplos simples
(portuguesa/brasileira):
aspeto/aspecto,
detetar/detectar,
receção/recepção,
conceção/concepção,
deceção/decepção,
perceção/percepção,
espetador/espectador,
perentório/peremptório,
tática/táctica,
espetro/espectro,
cato/cacto,
perspetiva/perspectiva,
interceção/intercepção, etc.
Assim se pretende que se escreva agora (em
Portugal) «aspeto», «conceção», «perspetiva», que antes se
escrevia (Portugal e Brasil) «aspecto», «concepção», «perspectiva»,
e que continua a ser «aspecto», «concepção», «perspectiva» (Brasil).
Não entendo tamanha estultícia! Se eu escrever, por
ex., a «receção do texto» em vez de «recepção do texto»,
como evitar que o leitor não pense em «recessão», se é isso que ouve a toda a
hora e sofre no seu vencimento ou pensão? Um brasileiro, ao ler «receção»,
não entende…
Como sabemos, a aprendizagem da ortografia não se
faz só na escola: é um processo quotidiano, multímodo, que envolve a memória
visual; escrever «Egito» causa calafrios: é um triste
espectáculo, que já não tem espectadores mas «espetadores» (a
primeira vez que li, pensei em «espeto»). Aliás, como é sabido, as
grandes diferenças que separam as variantes portuguesa e brasileira da língua
não são ortográficas, mas são lexicais, semânticas e morfossintácticas.
2 — Sobre as consoantes não pronunciadas, importaria
evitar a homografia, por ex., «acto»/«ato» (verbo), «corrector»/«corretor» (da
bolsa), «óptico» (relativo à vista)/«ótico» (relativo ao ouvido),
sendo que, no Brasil, continua a escrever-se «óptico»; seria também
imprescindível evitar a homofonia (por ex., «intersecção» e «intercessão»),
como é necessário ainda evitar o fechamento vocálico («acção», «aspecto»,
«baptismo», «lectivo», etc.). Note-se que o português europeu está a tornar-se,
por vezes, dificilmente inteligível na oralidade, dada a tendência para fechar
as vogais. Já um linguista advertiu que «adoção» (de «adoptar»)
poderia conduzir à pronúncia de «adução» (de «aduzir»); este
é um problema grave: as próximas gerações tenderão a ler «setor», «receção»,
«deceção», etc., sem abrirem as vogais.
As consequências gravosas do AO saltam à vista: ao
contrário de outras alterações ortográficas do século XX, este AO atinge
aspectos estruturais da Língua Portuguesa. Todo este processo tem sido, pois,
arrogante e autoritário.
3 — A sanha em simplificar (complicando) o
português europeu, acaba por o desfigurar como património que opera a comunhão
entre gerações, reduzindo a língua a um mero veículo de comunicação, a um
artefacto instrumental, não atendendo ao carácter consuetudinário e à
estabilidade ortográfica que são dimensões valiosas de identificação. A
simplificação a todo o custo, a redução à pura fonética, como se de uma
experiência laboratorial se tratasse, é uma das consequências mais nocivas do
AO: é assim, por ex., que «acto» se torna «ato»; se, no
artigo anterior, demos o exemplo de «directo», veja-se, entre outros, por ex.,
«acção», do latim «actio», «action» (em inglês), «action» (francês),
«Aktion» (alemão), «acción» (espanhol), «actiune» (romeno).
Tal afasta o Português europeu dessas línguas
europeias românicas e germânicas (incluindo o inglês). Por isso, o AO
vai dificultar que alunos portugueses aprendam (sem erros) línguas estrangeiras
e que estudantes de países europeus aprendam (sem erros) o Português.
Note-se que na língua inglesa abundam palavras com
consoantes e vogais não pronunciadas, as «silent letters» – «dou(b)t»,
«forei(g)n», «ni(gh)t», «thou(gh)t»,
etc.
Ao pretender-se que a grafia coincida com a
«pronúncia», esquece-se que esta é contingencial, variando de país para país,
de região para região, de pessoa para pessoa. Aliás, se nos orientássemos
apenas por critérios fonéticos, deveríamos escrever, por ex., «úmido» (como
no Brasil), o que seria por demais ridículo.
Não conheço nenhum AO em nenhuma outra língua.
Quem se preocupa com a unificação do inglês? E há, pelo menos, dezassete
variantes do inglês, meia dúzia do alemão, quinze do francês e vinte do espanhol.
Trata-se de mais uma originalidade da política
portuguesa, própria de políticos modernaços mas ignaros, pós-modernos, que não
sabem o que é um livro; se citam versos de um poema, é só ao jeito de tique
decorativo.
Os ministros da defesa e da educação
ao serviço do lóbi dos invertidos
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| O chefe
do Estado Maior do Exército, general Carlos Jerónimo, com o ministro da Defesa Nacional Azeredo Lopes |
Correio da Manhã, 7 de Abril de 2016
Chefe do Estado-Maior do
Exército demite-se
Demissão surge na sequência de
denúncias
de que o Colégio Militar não aceita alunos homossexuais.
de que o Colégio Militar não aceita alunos homossexuais.
O chefe do Estado-Maior
do Exército, o general Carlos Jerónimo, apresentou esta quinta-feira a demissão
ao Presidente da República.
O pedido de demissão surge na
sequência de denúncias de que o Colégio Militar não aceita alunos homossexuais.
A demissão foi apresentada ao final da tarde.
O Presidente da República aceitou o pedido de exoneração do chefe do Estado-Maior do Exército.
A demissão foi apresentada ao final da tarde.
O Presidente da República aceitou o pedido de exoneração do chefe do Estado-Maior do Exército.
Marcelo Rebelo de Sousa
agradeceu os serviços relevantes prestados à Nação por Carlos Jerónimo.
Colégio Militar exclui alunos
homossexuais
O subdirector do Colégio
Militar, tenente-coronel António Grilo, admitiu que a instituição contacta as
famílias dos alunos e aconselha-os a retirar os filhos da escola quando
descobrem que eles são homossexuais, para os proteger dos outros alunos.
«Falamos com o encarregado de
educação para que percebam que o filho acabou de perder espaço de convivência
interna e a partir daí vai ter grandes dificuldades de relacionamento com os
pares, porque é o que se verifica, são excluídos», afirmou ao jornal digital
«Observador». O ministro da Defesa Nacional, Azeredo Lopes, pediu explicações
ao Estado-Maior do Exército, que tutela a instituição de ensino.
O ministro da Defesa Nacional
iniciou processo de substituição do general CEME
O ministro da Defesa Nacional,
Azeredo Lopes, anunciou que já iniciou os procedimentos adequados visando a
substituição do general Carlos Jerónimo, que hoje pediu a exoneração do cargo
de chefe do Estado-Maior do Exército.
Em comunicado, o gabinete do
ministro Azeredo Lopes afirmou que na sequência do pedido de demissão, que foi
aceite pelo Presidente da República, «foram iniciados pelo Governo os
procedimentos adequados com vista à nomeação de um novo» CEME.
A Lei de Bases da Organização
das Forças Armadas prevê, no artigo 18.º, que os chefes de Estado-Maior
dos ramos são nomeados e exonerados pelo Presidente da República, sob proposta
do Governo, que deve ser precedida da audição, através do ministro da Defesa
Nacional e do chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas.
Na mesma nota, o ministro
da Defesa manifestou «o seu apreço e consideração pessoal e profissional» pelo
general Carlos Jerónimo, que estava no cargo há dois anos.
«O ministro da Defesa Nacional manifesta o seu apreço e consideração, pessoal e profissional, pelo senhor general Carlos António Corbal Hernandez Jerónimo pela valiosa colaboração com a tutela durante o exercício do seu mandato e pelos serviços que tem prestado, e certamente continuará a prestar, ao Exército, às Forças Armadas e a Portugal», refere o comunicado.
Questionado pela Lusa, o porta-voz do Exército disse que o general chefe do Estado Maior do Exército «solicitou a resignação do cargo por motivos pessoais».
«O ministro da Defesa Nacional manifesta o seu apreço e consideração, pessoal e profissional, pelo senhor general Carlos António Corbal Hernandez Jerónimo pela valiosa colaboração com a tutela durante o exercício do seu mandato e pelos serviços que tem prestado, e certamente continuará a prestar, ao Exército, às Forças Armadas e a Portugal», refere o comunicado.
Questionado pela Lusa, o porta-voz do Exército disse que o general chefe do Estado Maior do Exército «solicitou a resignação do cargo por motivos pessoais».
segunda-feira, 4 de abril de 2016
As auto-estradas do progresso do cavaquismo...
Heduíno Gomes
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| As auto-estradas do progresso do cavaquismo... |
Cavaco e a sua maravilhosa equipa, junto dos sectores camisolistas ou interessados, passam ainda por ter uma reputação de rigor.
Está à vista — mais uma vez.
A A14 foi adjudicada pelo governo de Cavaco (com o respectivo caderno de encargos e fiscalização) e o primeiro troço, contemplado com o que se vê, foi ainda inaugurado pelo seu governo. Era assim...
Vem também a propósito a história da inauguração de uma auto-estrada em vésperas de eleições (se não me falha a memória, foi num troço da A8. Isto sem garantia). A auto-estrada não estava acabada mas o ministro Amaral lá foi inaugurá-la com os postes de sinalização, que deveriam levar 4 parafusos nas sapatas, a levar apenas 2 porque não havia tempo para colocar os outros... E nas bermas, alcatrão colocado por cima de terra e a esfrangalhar-se... Azar, a televisão a mostrar toda essa vergonha...
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| O rigor da engenharia... |
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| Em nome, só em nome... |
sábado, 12 de março de 2016
As redes sociais e a cultura da imaturidade
Pedro Afonso, médico psiquiatra, Observador, 10 de Março de 2016
O Facebook funciona muitas vezes como um «buraco
negro» que suga as mentes de muitas pessoas, criando um estado regressivo
colectivo. O pensamento pára, a introspecção e a autocrítica deixam de existir.
As redes sociais vieram mudar significativamente as
nossas vidas. A emigração maciça da vida social real para o mundo virtual das
redes sociais da internet corresponde, num sentido lato, à maior emigração
humana da história.


Ninguém sabe exactamente quais são as consequências
que decorrem deste novo estilo de vida passado na internet, embora já haja
alguns estudos. Por exemplo, a utilização excessiva da internet e das redes
sociais está associada a depressão, a uma baixa auto-estima e a sentimentos de
isolamento. Além disso, a utilização regular das redes sociais, e mais
concretamente do Facebook, tem sido associada a um maior risco de divórcio e de
relacionamentos extraconjugais.
Um inquérito realizado junto da American Academy of
Matrimonial Lawyers (AAML) revelou que a utilização da rede social Facebook
estava envolvida, como factor principal, em um em cada cinco divórcios nos EUA.
O ecrã do nosso computador serve muitas vezes como uma espécie de janela para
as nossas fantasias, onde se busca aquilo que não encontramos na vida real. Se
um casamento está em crise, se alguém está infeliz numa relação, pode surgir a
tendência para essa pessoa procurar uma alternativa amorosa. Essa procura
faz-se cada vez mais nas redes sociais. Porém, essa busca pode revelar-se
enganadora, uma vez que é essencialmente reactiva e emocional. Muitas vezes não
se faz uma reflexão madura adequada sobre o que está mal na relação conjugal e
o que poderá ser alterado, o que já foi feito para melhorar e o que ainda é
possível fazer; há geralmente uma fuga para a frente.
Qualquer pessoa percebe que, com a rapidez com que
tudo se passa actualmente na era da internet, a ponderação e a reflexão foram
praticamente excluídas do nosso dia-a-dia. Muitas crises conjugais são
intensificadas por uma baixa tolerância à frustração, uma falta de perseverança
face à adversidade e por um certo egocentrismo. Com frequência, as
justificações das rupturas são importadas das revistas cor de rosa e assentam
nos clichês individualistas habituais: «não era feliz», «deixei de gostar»,
«tenho o direito de procurar a minha felicidade», «quero voltar a estar
apaixonado(a)».
O mundo mudou e muitas vezes já não são as
televisões, os jornais e as rádios que nos dão as notícias, mas são as redes
sociais que, perante determinados acontecimentos que aparentemente seriam
insignificantes, fazem a notícia. Todavia, em muitos casos a reacção é
emocional, pouco profunda e elaborada, tal como grande parte dos comentários
que lemos sobre as notícias dos jornais na internet. A agressividade
prepondera, assistem-se a linchamentos públicos, e todos têm opinião sobre
tudo.
Veja-se o caso recente do colunista Henrique
Raposo, mais concretamente o ódio irracional de que foi vítima nas redes
sociais, após a publicação do seu livro Alentejo Prometido. É certo que correu
riscos, por ter abordado temáticas nesta obra que não domina propriamente
(psiquiatria e sociologia), mas isso não invalida que emita opinião e pense
sobre o assunto, ainda que se possa discordar. Ora, é precisamente «o
pensamento» que está a desaparecer numa parte significativa da sociedade que
emigrou para as redes sociais e que por lá passa cada vez mais tempo. O
Facebook funciona muitas vezes como um enorme «buraco negro» que vai sugando as
mentes de muitas pessoas, criando um estado regressivo colectivo. O pensamento
pára, a introspecção e a autocrítica deixam de existir. Tudo é reactivo e
instintivo, o hedonismo prevalece e o seguidismo emocional cego surge de forma
recorrente e imprevisível. Numa palavra, as emoções dominam o ser humano e
surgem dissociadas do pensamento e da inteligência.
Em ambos os exemplos citados anteriormente, há um
elemento comum: estamos a assistir à promoção da cultura da imaturidade. Neste
contexto, as redes sociais são autênticos «esconderijos emocionais», pois não
estão a favorecer propriamente o conhecimento, a reflexão, a prudência e o
autocontrolo. Existe uma exaltação febril da impulsividade, da superficialidade,
da expressão de sentimentos e comportamentos mais primitivos, como a violência
e os julgamentos sumários das pessoas. Estas características são imaturas,
primárias e revelam uma reduzida inteligência emocional.
Cada vez mais pessoas passam demasiado tempo
imersas no mundo virtual das redes sociais da internet, agarradas
obsessivamente ao computador, procurando a sua auto-realização. Mas julgo que
este caminho é enganador e não ajuda ao crescimento individual, nem à aquisição
de uma verdadeira aprendizagem social. O mundo real é muito mais rico,
profundo, e valioso do que o mundo virtual. É motivo para dizer «viva cá fora,
não se refugie lá dentro».
quarta-feira, 9 de março de 2016
Do género da parvoíce
Inês Teotónio Pereira, Diário de Notícias, 5 de Março de 2016
A minha filha tem uma voz fininha que até podia achar esganiçada se não estivesse a falar da minha filha. Ela é muito delicada, amua e reclama que é muito sensível. Tem pânico de aranhas e quer ser educadora de infância. Adora vestir-se de princesa e fica horas na casa de banho a pentear-se. Ela e as amigas gostam de brincar aos cabeleireiros e sentam-se nos cantinhos a falar e a rir de tudo e por nada.
A minha filha cresceu com cinco irmãos a infernizar-lhe a vida e ela a vida deles. Ao princípio, quando era mais pequenina, queria ser maria-rapaz já que não podia ser rapaz – uma injustiça. Mas ela combatia a injustiça: batia nos rapazes, gritava mais do que eles e levava uma bola para a escola. E lá ia ela, com a voz esganiçada, medo de aranhas e bola debaixo do braço. Acabou por desistir da bola porque, dizia: tiravam-na dos pés só por ela ser rapariga.
Lá está. Quando a minha filha soube que o último irmão seria rapaz, chorou. Perguntámos pela razão do desgosto, já que ela seria sempre a única menina. Sem concorrência. Mas ela só chorava. Até que gritou: «Eu queria ter uma irmã para poder brincar com coisas de meninas.»
Ups... Mas o que é isto? Isto é sinal de que a minha filha padece de «atitude discriminatória que reforça os estereótipos de género», como diz a secretária de Estado da Igualdade – uma feroz opositora da «prática de dividir brinquedos por sexo». A minha filha discrimina, divide. Ela nunca gostou de carrinhos ou de futebol – coisas de rapazes, diz. E eles? Eles também. Eles, Deus lhes perdoe, não apreciam a Barbie e evitam pintar as unhas.
Só há uma solução para isto: acabar com os Happy Meals discriminatórios – óbvio, o fim da divisão das roupas, das palavras, mães e pais e tudo o que se divida na cabeça da secretária de Estado da Igualdade. Já agora, quando é que escolhem um homem para esta pasta?
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sexta-feira, 4 de março de 2016
O complexo social-industrial em acção
Carta revela drama de mais famílias
que perderam a guarda dos filhos na Noruega
Num abaixo-assinado, trinta e oito famílias denunciam sequestro sistemático de crianças pelo governo da Noruega: «Os nossos filhos estão sendo literalmente arrancados das nossas mãos.»
«O Barnevernet sequestra crianças!»: protesto de famílias da Lituânia, um dos países mais afectados pelas políticas autoritárias da Noruega.
Trinta e oito famílias escreveram um abaixo-assinado denunciando o sequestro sistemático de crianças feito nos últimos anos pelo governo da Noruega. Assinada no início deste mês por pais vindos das mais diversas partes do mundo, a carta é um protesto contra as decisões arbitrárias do Barnevernet – o departamento de «protecção à infância» do país –, que simplesmente afasta as crianças dos seus pais, sem motivo razoável, nem mandado judicial. O documento foi enviado às Nações Unidas, ao Papa Francisco, bem como à Comissão e ao Parlamento da União Europeia.
Embora a Noruega não pertença à União Europeia, as famílias reunidas na plataforma Stop Barnevernet pedem que a comunidade internacional intervenha de alguma forma para defender os seus filhos e outros tantos que estão retidos pelo governo norueguês. Os signatários da carta vêm de países como Eslovénia, Estados Unidos, Índia, Inglaterra, Iraque, Lituânia, Roménia, Rússia, Suécia, Turquia e até do Brasil. Alguns só podem ver os seus filhos «quatro horas por ano»; a outros é negado qualquer contacto com as crianças. Mesmo os lactentes são tirados às suas mães e uma família norueguesa está sendo perseguida pelo departamento há cinco gerações.
A brasileira residente no país Daiane Alves Lopes, uma das vítimas desta política arbitrária, revelou à TV Anhanguera, no ano passado, como perdeu a guarda de um dos seus dois filhos, Yorrani, que hoje vive num lar adoptivo. «Eles fizeram uma reunião e não falaram que iam pegar a criança. Depois me chamaram. Falaram que iam me ajudar. E quando eu cheguei lá não era isso. Tinha dois seguranças, fecharam a porta e pediram a criança. Arrancaram a criança de mim, do meu braço», refere ela.
Na carta endereçada às autoridades internacionais, os 38 pais condenam o que chamaram de um «inexplicável abuso de poder» por parte do governo de uma nação «supostamente avançada», como é a Noruega. «Famílias inocentes estão sendo destruídas por 'violar' um 'bem-estar infantil' de que ninguém sabe a definição», diz o abaixo-assinado. «Muitas famílias têm que viver uma vida no medo».
A íntegra do documento foi disponibilizada pelo site espanhol Religión en Libertad e contém detalhes assombrosos sobre o que está acontecendo no país:
«As crianças estão a ser literalmente arrancadas das mãos dos seus pais. Tanto o serviço social quanto a polícia são implacáveis. As crianças chorando e gritando, implorando por uma oportunidade de ficar com as suas famílias, não são absolutamente nenhum obstáculo para eles. (...) Geralmente, tudo começa com uma acusação infundada e, depois de um momento iniciar, as crianças são levadas dos seus pais em estado de choque. Os pais, então, colaboram com as autoridades e conformam-se, tudo na esperança de que os seus amados sejam devolvidos um dia. Instruídos pelo Barnevernet, permanecem em silêncio: não lutam contra o sistema, não vão à imprensa com as suas histórias e pacientemente aguardam pelo próximo encontro com os seus filhos, que é agendado para apenas um par de horas algumas vezes ao ano, geralmente sob a vigilância pesada da polícia e do Barnevernet.»
«Tratam-nos como assassinos, apesar do facto de não terem nenhuma evidência de maus tratos. Não têm nenhuma evidência de que algo ilegal tenha sido feito aos nossos filhos. O destino das nossas vidas é decidido pela chamada fylkesnemnda, uma comissão para assuntos de família que determina com que frequência poderemos ver os nossos filhos – se é que poderemos vê-los – e se os nossos filhos serão obrigatoriamente adoptados.»
Os signatários do documento ainda acusam as ditas comissões de se servirem de métodos fraudulentos para manter os filhos longe dos seus pais biológicos. «São capazes de falsificar documentos e pareceres de especialistas, e nós temos fortes evidências disso», refere o texto.
Alguns dos pais que assinaram a carta conseguiram novamente a guarda dos filhos, ainda que em «circunstâncias estranhas». «Não houve nenhuma intenção de indemnizar-nos pela dolorosa intervenção por que passámos», afirma o documento, «nem sequer uma espécie de desculpas ou explicação por tudo o que aconteceu.»
O abaixo-assinado também faz referência à base cristã em que nasceu a Noruega, hoje em livre decadência. «Ainda que a Noruega não seja um país predominantemente cristão, é um país baseado numa herança cristã», diz a carta. «Essa herança cristã está, agora, severamente ameaçada pelas tendências a ignorar o que a unidade familiar significa, seja para os indivíduos, seja para toda a sociedade.»
No caso dos Bodnariu, a família de ascendência romena que perdeu recentemente a guarda de cinco filhos, o motivo da intervenção parece ter sido eminentemente religioso. A directora da escola em que as meninas estudavam preocupava-se com o facto de Ruth e Marius serem «muito cristãos» e a avó acreditar que «Deus castiga o pecado». Na opinião dela, a ideia criaria «uma inabilidade nas crianças». Outras ocorrências, todavia, sugerem motivações de ordem étnica e económica para o sequestro das crianças.
Porta-vozes da campanha Stop Barnevernet responsáveis por entregar a carta às autoridades europeias. À esquerda, o eurodeputado Tomáš Zdechovský.
O eurodeputado polonês Tomáš Zdechovský, que também está à frente da campanha Stop Barnevernet – reunindo na Internet várias histórias similares ao caso Bodnariu –, explica que muitas das intervenções do governo norueguês afectam principalmente os filhos de imigrantes.
«As famílias são forçadas a enviar os seus filhos à pré-escola, a assistir a programas infantis da Noruega e a ter um número de amigos noruegueses», escreve o deputado. «Não é suficiente que vocês, como pais, planejem ensinar a língua norueguesa ao seu filho fora da escola, nem que estejam prontos para obter o que é necessário quando a escola começar. É o governo que decide o que é melhor para o seu filho. Os legisladores desenvolveram medidas incrivelmente severas para forçar as pessoas a fazer o que o governo acha que está certo.»
É sempre válido lembrar que, independentemente das leis que vigoram num país, o direito dos pais de educar os próprios filhos é um direito natural, reconhecido inclusive pelo art.º 26 da Declaração Universal dos Direitos Humanos: «Os pais têm prioridade de direito na escolha do género de instrução que será ministrada aos seus filhos».
Tomáš Zdechovský condena terminantemente o autoritarismo do Barnevernet e questiona o modo como as coisas estão a ser conduzidas na Noruega. «Sempre haverá problemas com a imigração», diz ele. «Mas simplesmente não podem ser resolvidos tirando as crianças sem uma boa razão. Como chamar a tal estado de ilegalidade senão de fascista ou comunista?»
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