quinta-feira, 7 de janeiro de 2016


«Pobres dos fiéis católicos

que frequentam as Santas Missas

em muitas das nossas igrejas…»


Bispo Dom Antonio Carlos Rossi Keller, de Frederico Westphalen

«Pobres dos fiéis católicos que frequentam as Santas Missas em muitas das nossas igrejas… Submetidos tantas vezes às arbitrariedades de uma pseudo liturgia pautada por distorções, abusos, ridículas inserções de palmas, agitação de folhetos, danças, símbolos e mais símbolos que não simbolizam nada. Quanto abuso! Quanta arbitrariedade! Quanta falta de respeito não só para com Aquele para quem deveria dirigir-se a celebração, mas também para com os pobres fiéis que são obrigados a engolir esdrúxulas situações falsamente chamadas de «inculturação liturgica», mas que na verdade revelam falta de fé ou a ignorância das mais elementares verdades da fé em relação à Eucaristia, à Presença Real e outras. Pobres fiéis guiados por alguns pastores que arrotam slogans fundados num palavreado eivado de conceitos atribuídos ao malfadado «espírito do Concílio» que na verdade, de conciliar nada tem… Tal espírito passa longe daquilo que a Igreja de Cristo é e pretendeu favorecer com a reforma litúrgica. Pobres fiéis, forçados a ter de engolir o que destrói a fé, o que na prática nega a centralidade do Mistério de Cristo, poluindo-o com a tentativa de desfocar este Mistério através da inserção de conceitos ideologizados sobre Deus, o homem, a criação e tantas outras realidades.

A «nobre simplicidade» apregoada pelo Concílio transformou-se em desculpa para um «pobretismo» litúrgico que se expressa em despojamento do elementar, em relaxo, sujeira, desleixo e outros defeitos. Dá-se à Liturgia, portanto a Deus, o que há de pior: no mínimo, o que é de gosto duvidoso. Chegamos ao tempo em que quem obedece às Normas Liturgicas é acusado de rubricista. Ai de quem ousar usar os paramentos prescritos pela legislação litúrgica vigente. No mínimo será caracterizado como «romano», o que na visão de muitos é considerado como uma ofensa. E quem celebrar usando com fidelidade os livros litúrgicos, «dizendo o que está em letras pretas e fazendo o que está em letras vermelhas» será execrado pelos apregoadores do «autêntico espírito do Concílio». Sinceramente, é preciso muita, mas muita fé mesmo para não deixar de acreditar que ‘as portas do inferno não prevalecerão’, como nos ensina Nosso Senhor.»





terça-feira, 5 de janeiro de 2016


Conferência


A Associação Cristóvão Colon apresenta a Conferência

«Colon, dito Colombo
– foi um Português que descobriu a América?»

Organizado pela Junta de Freguesia de Alvalade (Rua Conde de Arnoso, 5-B, Lisboa) no dia 11 de Janeiro às 10h30, e que terá lugar no respectivo auditório.






segunda-feira, 4 de janeiro de 2016


Natal bloqueado


António Justo

O Governo da Somália proibiu que se festeje o Natal. O ministro Sheikh Mohamed Kheyroow deu ordem às forças de segurança para impedirem festas de Natal em todo o país. O ministro anunciou o decreto no dia anterior ao Natal na rádio Mogadishu.

Enquanto a cristandade, na Europa, procura pôr em prática a solidariedade cristã com os muçulmanos abrindo-lhes as portas, os cristãos são descriminados e até perseguidos nos países de religião muçulmana maioritária; Também no BURNEI foi proibido festejar o Natal com o argumento de pôr em risco a «fé dos muçulmanos»!

Nos centros do poder não há coisa mais incómoda e atemorizadora, para os seus detentores, do que um bebé na gruta que inverte a perspectiva de consideração do poder.






Coisas que nunca mudam: as não notícias


Helena Matos, Observador 3 de Janeiro de 2016

As não notícias são tão importantes quanto as notícias. Às vezes ainda mais que as notícias. Porque as não notícias mostram como os jornalistas resistem a desfazer as suas ilusões.

As não notícias sobre a França. Em França, país bem perto de nós, foram incendiados na passagem de ano 804 veículos. Note-se que estes números estão a ser apresentados como positivos pelas autoridades francesas porque na passagem de 2014 para 2015 arderam mais 136 carros. Ou seja 940. Claro que nessa data a França não estava sob medidas de segurança tão severas quanto as actuais (os atentados ao Charlie Hebdo aconteceram dias depois, a 7 de Janeiro de 2015 e só em Novembro tiveram lugar os atentados de Paris) e de modo algum nas ruas daquele país estavam então destacados os mais de 100 mil agentes que integraram o dispositivo de segurança neste final de 2015. Como é possível que se pegue fogo a oito centenas de veículos com mais de 100 mil agentes policiais e militares nas ruas? É um mistério.


Mas convenhamos que é um mistério bem menor que o silêncio que impera nos jornais e televisões da restante Europa sobre o que acontece naquele país. Ou seja como é possível que não tenhamos informação sobre estes incidentes? Ou, para não sairmos ainda da temática dos carros incendiados, como não soubemos das 700 viaturas que arderam no 13 de Julho deste ano? Nem sequer o facto de no dia em que a França comemora a sua festa nacional ter havido também escolas incendiadas fez com que o destaque noticioso fosse maior.

Há momentos em que quero acreditar que tudo se explica pelo facto de hoje não se falar francês e por consequência a França só ser notícia quando sai nos jornais ingleses, de preferência no Guardian. Mas digamos que essa explicação se pode aplicar ao reino do Butão e respectivo lugar no índice de felicidade mas não à França onde a não notícia se tornou uma opção consciente: da França vieram primeiro revoluções e ilusões. Agora, para não comprometer a memória das primeiras e o poder das segundas, não se noticia.

Assim, ao mesmo tempo que assistimos à pilhagem de uma qualquer loja no mais recôndito canto do Ohio, nunca vemos as carcaças queimadas dos automóveis em França. Nem sequer casos como os recentemente ocorridos no final de Dezembro em Ajaccio, capital da Córsega, conseguiram romper este muro de silêncio. Digamos que em Ajaccio tudo começou como de costume: os bombeiros foram chamados ao que se designa como bairro sensível. No caso os Jardins do Imperador. Uma vez lá chegados os bombeiros foram emboscados e agredidos. Nos dias seguintes sucedem-se as manifestações de corsos indignados com o que acontecera nos Jardins do Imperador. Gritam que não querem acabar fechados em casa com medo como acontece nos banlieu do continente. Mas não só. Gritam também palavras de ordem contra os árabes e numa das manifestações rompem a barreira policial e saqueiam um local de culto muçulmano.

Qual foi o destaque noticioso destes gravíssimos incidentes? Digamos que ele passou quase tão discretamente quanto a indicação de que desde Fevereiro de 2015 já se registaram em França 200 incidentes contra militares, sendo que sete desses incidentes foram classificados como muito graves. Aliás, logo no início deste 2016, em Valence, registou-se um desses incidentes: um homem tentou atropelar quatro militares que faziam segurança junto a uma mesquita.

As autoridades, mimetizado a reacção que mantiveram até aos ataques de Novembro em Paris, logo declararam ser o homem em questão um lobo solitário para mais desequilibrado. Apesar de na sua casa ter sido encontrada propaganda jihadista, a pista terrorista não está ser seguida e admite-se que talvez exista «un lien entre son acte et une certaine religiosité»… que é como quem diz uma ligação entre o seu acto e uma certa religiosidade. Qual será a religiosidade em questão?… Como se vê, não é por falta de notícias que a França não está nas notícias. É sim porque se ficou sem narrativa. Quando o próximo sobressalto chegar, lá aparecem as carinhas a chorar mais o facebook às risquinhas e a Torre Eiffel muito fofinha. Sinais exteriores de quem não quis ver, nem ouvir nem saber.

As não notícias sobre a Grécia. Este Inverno deve estar a ser bem cálido em Atenas. Porque neste Inverno já ninguém tem frio na Grécia. Nem fome. Nem sonhos desfeitos. Nem medicamentos inacessíveis… A Grécia morreu para as notícias no dia em que os jornalistas ocidentais deixaram de ver em Tsipras o Che sem espingarda. Já não sabemos se Tsipras vai a Bruxelas, se leva gravata, se a mulher se zangou ou não com ele… Tsipras desapareceu noticiosamente falando em Julho deste ano. No momento em que deixou de ser o rosto da alternativa, do bater do pé, do virar da página da austeridade e de todas as outras categorias do pensamento mágico a que o socialismo se reduziu, Tsipras saiu dos ecrans. Por estes dias teve um regresso fugaz porque voltou a vestir a pele do Tsipras que ia mudar a Europa. Ou seja fez mais do mesmo: disse que não ia ceder aos credores. E como é disso que os jornalistas gostam lá lhe deram uns segundos da velha fama.

Curiosamente pasmamos com as fotografias em que Estaline mandava apagar os opositores mas este processo de apagamento dos heróis mediáticos que acontece em plena democracia não parece suscitar qualquer perturbação. E contudo ele é revelador do fogo fátuo que enche boa parte daquilo a que chamamos notícias, reportagens e investigações. Um desejo para 2016? Quero o Tsipras de volta. Quero saber o que faz, o que decide, o que legisla. E de caminho quero saber onde param os postais autografados por Tsipras, que se vendiam a três euros cada, com que umas almas militantes se propunham juntar dinheiro para libertar a Grécia dos credores. Como não podia deixar de ser a iniciativa foi noticiada com alarido aqui, mais aqui, e aqui, também aqui e aqui… (é melhor ficar por aqui porque com tanto aqui o texto está a ficar cacofónico) e agora nada de nada.

As não notícias sobre Guantanamo. Quantas notícias tivemos sobre Guantanamo desde que Barak Obama foi eleito? E desde que foi reeleito? Dado o silêncio que impera sobre o assunto quase se é levado a pensar que Guantanamo fechou. O quase embargo sobre o assunto é quebrado de vez em quando por uns anúncios de que o presidente dos EUA está a ultimar um plano para fechar Guantanamo. Depois temos as inevitáveis conclusões de que Obama gostaria de fechar Guantanamo mas não pode. Porquê? Não se diz. Mas note-se que as mesmas fontes asseguram e asseguraram que o anterior presidente podia fechar Guantanamo mas não queria.

As notícias sobre os EUA e seus presidentes tornaram-se na versão mediática dos gatinhos no facebook: milhões de likes para os democratas, partilhas virais e ódios profundos para os republicanos. Informação quase nenhuma.

Opções que com um presidente não democrata e sobretudo não tão querido dos estúdios de cinema e de televisão quanto o é Barack Obama teriam gerado enorme controvérsia – a aposta cada vez mais forte na exploração dos gás de rocha – têm passado quase inadvertidas apesar de ambientalmente terem muito para questionar. E como entender essa espécie de regressão nas questões raciais em que de repente os EUA parecem ter caído? Reduzidos como estamos às notícias do tipo «EUA: polícia mata condutor negro» – se o condutor fosse branco ou asiático escrever-se-ia «EUA: polícia mata condutor branco»? – deixámos de questionar os efeitos reais daquilo a que se chamam medidas de combate à discriminação racial.

Divididos entre uma élite da qual Obama e a sua mulher fazem parte e uma maioria presa nos meandros do coitadismo, os negros norte-americanos são cada vez mais objectos de uma simplificação para não dizem infantilização nas notícias.

Mas tal como acontece com Guantanamo que era para fechar e não fechou custa muito escrever sobre as bolinhas de sabão que fizeram capa e abriram noticiários e depois se viram desfazer.





sábado, 2 de janeiro de 2016


Sete erros fatais do relativismo moral


Roger Morris




A consciência-percepção de moralidade
leva a Deus
tanto quanto a consciência-percepção
de queda de maçãs
leva à gravidade. (Roger Morris)



Roger Morris, do site Faithinterface, baseado no livro Relativism – Feet Firmly Planted in Mid-Air, de Francis Beckwith e Gregory Koukl, elaborou a lista que segue, com sete erros fatais do relativismo moral.

Francis Beckwith é professor e filósofo, especialista em política, direito, religião e ética aplicada. Gregory Koukl é apologista cristão, fundador da Stand To Reason, organização dedicada à defesa da concepção cristã do mundo.


O relativismo moral é um tipo de subjectivismo que sustenta que as verdades morais são preferências muito parecidas com os nossos gostos em relação aos gelados, por exemplo. O relativismo moral ensina que quando se trata de moral, do que é eticamente certo ou errado, as pessoas poderiam e deveriam fazer o quer que sintam ser o certo para elas. Verdades éticas dependeriam de indivíduos, grupos e culturas que as sustentam. Porque acreditam que a verdade ética é subjectiva, as palavras como devem ou deveriam não fariam sentido porque a moral de todo mundo é igual; ninguém poderia ter a pretensão de uma moral objectiva pertinente para os outros. O relativismo não exige um determinado padrão de comportamento para todas as pessoas em situações morais semelhantes. Quando confrontadas com exactamente a mesma situação ética, uma pessoa poderia escolher uma resposta, enquanto outra pode escolher o oposto. Não haveria regras universais de conduta que se apliquem a todos.

O relativismo moral, num sentido prático, é completamente inviável. Que tipo de mundo seria o nosso se o relativismo fosse verdade? Seria um mundo em que nada estaria errado — nada seria considerado mau ou bom, nada digno de louvor ou de acusação. A justiça e a equidade seriam conceitos sem sentido, não haveria responsabilização, não haveria possibilidade de melhoria moral, nem discurso moral. Um mundo em que não haveria tolerância. Este é o tipo de mundo que o relativismo moral produz. Vejamos os sete erros fatais do relativismo.

1. Os relativistas morais não podem acusar de má conduta a outras pessoas.

O relativismo torna impossível criticar o comportamento dos outros, porque, em última análise,nega a existência de algo como «má conduta». Se alguém acredita que a moralidade é uma questão de definição pessoal, então abdica da possibilidade de fazer juízos morais  objectivos sobre as acções dos outros, não importa quão ofensivas elas sejam para o seu senso intuitivo de certo ou errado. Isto significa que um relativista não pode racionalmente opor-se ao assassinato, ao estupro, ao abuso infantil, ao racismo, ao sexismo ou à destruição ambiental, caso essas acções estiverem em conformidade com o entendimento pessoal sobre o que está certo e é bom por parte de quem as pratica . Se o certo e o errado fossem uma questão de escolha pessoal, nós abdicaríamos do privilégio de fazer julgamentos morais sobre as acções dos outros. Ora, estando nós seguros de que algumas coisas são erradas e de que alguns julgamentos sobre a conduta de outros são justificados, é porque o relativismo é falso.

2. Os relativistas não podem queixar-se do mal.

A realidade do mal no mundo é uma das primeiras objecções levantadas contra a existência de Deus. Toda esta objecção se fundamenta na observação de que existe mal verdadeiro. Mas o mal objectivo não pode existir se os valores morais são relativos ao observador. O relativismo é inconsistente com o conceito de que o mal moral verdadeiro existe, porque nega que qualquer coisa possa ser objectivamente errada. Se não existe um padrão moral, então não poderá haver desvio do padrão. Assim, os relativistas devem abandonar o conceito de verdadeiro mal e, ironicamente, também abandonar o problema do mal como um argumento contra a existência de Deus.

3. Os relativistas não podem condenar ou elogiar ninguém.

O relativismo torna os conceitos de louvor e condenação sem sentido, porque nenhum padrão externo de medição define o que deve ser aplaudido ou condenado. Sem absolutos, em última análise, nada é mau, deplorável, trágico ou digno de condenação. Nem, em última análise, qualquer coisa é boa, honrada, nobre ou digna de louvor. Os relativistas são quase sempre inconsistentes nesse ponto, porque eles procuram evitar a condenação, mas prontamente aceitam elogios. Se a moralidade é uma ficção, então os relativistas também devem remover as palavras aprovação condenação do seu vocabulário. Mas se as noções de elogio e crítica são válidas, então o relativismo é falso.


4. Os relativistas não podem fazer acusações de parcialidade ou injustiça.

De acordo com o relativismo, as noções de equidade e justiça não fariam sentido porque ambos os conceitos determinam que as pessoas devem receber igualdade de tratamento baseada em normas externas. O relativismo acaba com qualquer noção de normas vinculativas externas. Justiça implica punir aqueles que são culpados de um delito. Mas, sob o relativismo, a culpa e a condenação não existem — se nada afinal for imoral, não poderá haver acusação e, portanto, nenhuma culpa poderá ser objecto de punição. Se o relativismo fosse verdadeiro, não haveria justiça ou equidade, porque ambos os conceitos dependem de um padrão objectivo do que é certo ou errado. Se, ao contrário, as noções de justiça e equidade fazem sentido, então o relativismo está errado.

5. Os relativistas não podem melhorar a sua moralidade.

Os relativistas poderão mudar os seus conceitos pessoais de ética, mas nunca poderão tornar-se melhores pessoas. De acordo com o relativismo, a ética de uma pessoa nunca pode tornar-se mais «moral». Os conceitos éticos e morais dos relativistas podem mudar, mas nunca podem melhorar, dado que não existe um padrão objectivo pelo qual se possa medir esse melhoramento. Ora, dado que o melhoramento moral é um conceito que faz sentido, então o relativismo é falso.

6. Os relativistas não conseguem manter discussões morais significativas.

O que se poderá discutir? Se a moral é totalmente relativa e todas as opiniões são iguais, então não haverá uma maneira de pensar melhor do que outra. Não haverá uma posição moral  que possa ser considerada como adequada ou deficiente, razoável, aceitável, ou até mesmo bárbara. Dado que as discussões éticas só fizerem sentido quando a moral é objectiva, então o relativismo só poderá ser vivido com coerência se os seus defensores ficarem em silêncio. Por esta razão, é raro encontrar um relativista racional e consistente, já que a maioria deles são rápidos a impor as suas próprias regras morais, como, por exemplo, «é errado impor a sua própria moralidade aos outros». Isto coloca os relativistas numa posição insustentável: se falam sobre questões morais, estão a abandonar o seu relativismo; se não falam, deixam cair a sua humanidade. A noção de discurso moral faz intuitivamente sentido e por isso o relativismo moral é falso.

7. Os relativistas não podem promover a obrigação de tolerância.

A obrigação moral relativista de ser tolerante é auto-refutante. Ironicamente, o princípio da tolerância é considerado uma das virtudes principais do relativismo. A moral seria individual — assim dizem eles — e, portanto, deveríamos tolerar os pontos de vista dos outros e não julgar os seus comportamentos e atitudes. Ora, se não existem regras morais objectivas, não pode haver nenhuma regra que exija a tolerância como um princípio moral que se aplique igualmente a todos. De facto, se não há absolutos morais, afinal porque terá de se ser tolerante? Os relativistas violam o seu próprio princípio de tolerância quando não conseguem tolerar as opiniões daqueles que acreditam em padrões objectivos morais. Portanto, eles são tão intolerantes quanto frequentemente acusam de sê-lo os que defendem a moral objectiva. O princípio de tolerância é na realidade estranho ao relativismo. Por outro lado, se essa tolerância parece ser uma virtude, então o relativismo é falso.

O relativismo moral está falido. Não é um verdadeiro sistema moral. É auto-refutante. E hipócrita. É logicamente inconsistente e irracional. É seriamente abalado por simples exemplos práticos. Torna ininteligível a moralidade. Nem é mesmo tolerante! O princípio de tolerância só faz sentido num mundo no qual existem absolutos morais, e apenas se um desses padrões absolutos de conduta for «Todas as pessoas devem respeitar os direitos dos outros que diferem em conduta ou opinião». A ética da tolerância pode ser racional apenas se a verdade moral for objectiva e absoluta, não subjectiva e relativa. A tolerância é um princípio «interno» do absolutismo moral, e é irracional em qualquer perspectiva do relativismo ético.

Ele tinha a sua própria «verdade» e a sua própria «moral».
 Poderão os relativistas condená-lo?





Cenas de Natal


Inês Teotónio Pereira, ionline, 2 de Janeiro de 2016

Já não deve faltar muito até chegarmos todos à conclusão de que afinal quem nasceu no dia 25 de Dezembro foi o Pai Natal. O resto são lendas…

Fui com os meus filhos a uma das dezenas de aldeias de Natal que hoje em dia fazem concorrência às rotundas que as câmaras tanto gostam de inaugurar ou às feiras medievais importadas de Espanha que durante o Verão fazem de nós todos parvos.


As aldeias de Natal são o novo fenómeno municipal e como eu não perco fenómenos, peguei na criançada e fui ver. Eu e mais milhares de famílias. Foi giro: vimos duendes, renas, fadas, mais uns duendes e uma fadas, uns palhaços e umas casinhas com neve a fingir no telhado, mais uns duendes e umas fadas, também vimos umas árvores de Natal, bonecos de neve, presentes embrulhados e mais renas. A coisa correu bem: não houve birras nem lutas. No fim ainda consegui negociar com os meus filhos e eles condescenderem não irmos para a fila tirar uma fotografia com o Pai Natal em troca de um bolo que comprei para cada um. Tivemos ainda a sorte de comer o bolo ao lado do Pai Natal que fugiu do seu cadeirão  e das criancinha para ir beber uma imperial e fumar um merecido cigarro. Por sorte calhou irmos todos ao mesmo café e os meus filhos ficaram embasbacados ao verem a facilidade com que ele desprendeu a barba para beber a cerveja num só trago. São estas as memórias que ficam.

No caminho de volta, vimos as mesmas coisas mas só então reparei que até havia guloseimas a ornamentar os pitorescos canteiros do jardim. Até que eu, uma beata, fanática, conservadora ou mesmo neoliberal, resolvi perguntar a um dos organizadores: «Olhe, desculpe, o presépio está onde?». O rapaz olhou para mim como se eu lhe  tivesse perguntado quem ganhou as eleições e atrapalhado respondeu: «Não há... São só coisas de Natal». Os meus filhos, que já estão na idade de terem vergonha dos pais, coraram, o rapaz também e eu constatei que os portugueses são de costumes tão brandos mas tão brandos que se ficaram pela brandura da bonecada e deixaram o Natal para os fundamentalistas religiosos.

Como estava com os meus filhos tive de fazer o papel de mãe e não pude deixar de exclamar indignada: «Incrível: isto é o mesmo que fazer uma festa de anos e não convidar o aniversariante!». Eles ficaram a olhar para mim. Continuei a insultar tudo e todos até que um deles disse: «Mas mãe, isto hoje em dia é mesmo assim: um amigo meu nem sequer sabe o que se festeja na Páscoa». Chateou-me o «hoje em dia», onde se podia ler «estás out, cota». Mas calei-me: contra factos não há argumentos e tendo em conta que a autarquia organizadora da aldeia representa os munícipes e para os munícipes o Natal é bonecada, está tudo bem. Ali quem estava desajustada era eu, concluí.

A verdade é que o Natal está fora de moda. Já não é moda ir à missa do Galo ou falar do nascimento de Jesus.  Um presépio no meio dos duendes fica objectivamente mal. A árvore de Natal substituiu o presépio e o Pai Natal o Menino Jesus. Já é com alguma dificuldade que apanhamos filmes épicos na televisão tipo Quo Vadis ou as Sandálias do Pescador e estamos apenas presos ao significado natalício televisivo pelos fios frágeis da Música no Coração ou do Sozinho em Casa. Hoje em dia Natal é neve, gelo e duendes. Já nem sequer é azeite Galo: é sushi. Sushi em família, vá.

Há países onde é proibido festejar o Natal ou ir à missa e onde se é morto por se ser um cristão; há outros onde é proibido enfeitar montras, montar iluminações ou decorar as ruas com qualquer coisa alusiva ao Natal para não «ofender» outras religiões.

Desconfio que por cá não vai ser preciso proibir nada, nós damos conta do recado sozinhos. Já não deve faltar muito até chegarmos todos à conclusão que afinal quem nasceu no dia 25 de Dezembro foi o Pai Natal.  O resto são lendas.





quarta-feira, 30 de dezembro de 2015


O preço da tolerância: ISIS trouxe armas

de destruição em massa

para a Europa


Darren Boyle, MailOnline, 21 de Dezembro de 2015


O ISIS recrutou especialistas com formação em química, física e ciência da computação para travar uma guerra com armas de destruição em massa contra o Ocidente, afirmou um chocante relatório do Parlamento Europeu.

A organização terrorista, de acordo com o documento informativo, «pode estar a planear usar armas de destruição em massa proibidas internacionalmente em próximos ataques».

O documento, que foi elaborado na sequência dos ataques mortais em Paris, alegou que o ISIS já contrabandeou material de WMD (armas de destruição em massa) para a Europa.

Especialistas temem que o ISIS poderá explorar uma falha dos governos da UE ao compartilhar informações sobre possíveis terroristas.

Ultimamente, as forças policiais britânicas têm realizado exercícios sobre como lidar com vários tipos de ataque terrorista. Mas o relatório da UE afirma que o governo deveria «considerar abordar publicamente a possibilidade de um ataque terrorista usando armas químicas, biológicas, radiológicas ou até mesmo materiais nucleares.»

O relatório, «ISIL/Daesh e armas ‘não-convencionais’ do terror» adverte: «Neste momento, os cidadãos europeus não estão seriamente a ponderar a possibilidade de que grupos extremistas possam utilizar, materiais químicos, biológicos, radiológicos ou nucleares (CBRN), durante os ataques na Europa. Nestas circunstâncias, o impacto desse tipo de ataque, se ocorrer, seria ainda mais desestabilizador.»

Rob Wainwright, director da Europol disse após os atentados de Paris: «Estamos a lidar com um perigo muito sério, com uma organização terrorista internacional determinada e bem provida de recursos, que agora está activa nas ruas da Europa.»

«Isto representa a mais séria ameaça terrorista enfrentada na Europa por 10 anos.»

Sr. Wainwright advertiu que o ISIS tem um considerável potencial em termos de recursos materiais e humanos.

Nomi Bar-Yaacov, membro associado no Departamento de Segurança Internacional da Chatham House disse: «Há um risco muito real de o ISIS usar armas não-convencionais na Europa, e além dela.»

Wolfgang Rudischhauser, director do Centro de Não-Proliferação de Armas de Destruição em Massa da Otan disse: «O ISIS, na verdade, já adquiriu os conhecimentos e, em alguns casos, a experiência humana, que lhes permitiria usar materiais CBRN como armas do terror.»

O relatório afirma que o ISIL/Daesh recrutou e continua a recrutar centenas de combatentes estrangeiros, incluindo alguns com formação em física, química e ciência da computação, que os especialistas acreditam que são capacitados para fabricar armas letais a partir de matérias primas.

Os governos da UE foram advertidos para investigar outros indivíduos radicalizados que têm acesso ou trabalham em áreas sensíveis.

Os serviços de inteligência também foram advertidos para fazer uma triagem nos combatentes jihadistas para verificar se têm conhecimento especializado de CBRN.

O estudo afirma que 150 casos de tráfico nuclear ou radiológico são relatados anualmente.

Pior ainda: substâncias CBRN têm sido transportadas sem serem detectadas para a União Europeia.

Relatórios mensais de inteligência sobre CBRN da Interpol mostram numerosos exemplos de tentativas de aquisição, contrabando ou utilização de materiais CBRN («Chemical, Biological, Radiological and Nuclear Materials»: Materiais químicos, biológicos, radiológicos e nucleares).


Tradução: William Uchoa





terça-feira, 22 de dezembro de 2015


Eslovénia rejeita em referendo

casamento entre pessoas do mesmo sexo


Mais de 60% dos eslovenos rejeitaram hoje em referendo uma lei que autorizava o casamento entre pessoas do mesmo sexo, aprovada em Março no Parlamento, segundo os resultados quase definitivos divulgados pela comissão eleitoral.

O referendo foi realizado por iniciativa dos opositores do casamento homossexual, que obtiveram 63,12% quando estavam contados 96% dos votos, enquanto os apoiantes da lei ficaram com 36,88%, de acordo com os resultados.

A votação contou apenas com a participação de 35,65% dos eleitores, mas mesmo assim o referendo é válido, dado que só necessitava de uma participação de 20%.

No Parlamento, a lei alcançara uma larga maioria, com o apoio da esquerda e do partido centrista do primeiro-ministro, Miro Cerar, reconhecendo aos casais do mesmo sexo os mesmos direitos dos casais heterossexuais, incluindo o direito de adopção, o ponto mais contestado pelos opositores.

O Papa Francisco defendeu esta semana o «não», convidando os eslovenos a «apoiarem a família, estrutura de referência da vida em sociedade».

Os defensores do «não» eram apoiados pela oposição de direita e pela Igreja católica e lançaram este processo conseguindo reunir as 40 mil assinaturas necessárias para a realização de um referendo de iniciativa popular.

A organização do referendo suspendeu a aplicação da lei e não chegou a realizar-se qualquer casamento ao abrigo da mesma.

O Primeiro-Ministro e o Presidente da Eslovénia, Borut Pahor, apoiaram o «sim».






quinta-feira, 17 de dezembro de 2015


MENSAGEM DOS FUZILEIROS

NAVAIS AMERICANOS



Pode um bom muçulmano

ser um bom americano, canadiano ou inglês?


Teologicamente, não. Porque a sua fidelidade é para com Alá, o deus-lua da Arábia.

Religiosamentenão. Porque nenhuma outra religião é aceite pelo seu Alá, excepto o Islão. (Quran, 2:256) (Corão)

Em relação às Escriturasnão. Porque a sua fidelidade é com os cinco pilares do islão e com o Corão.

Geograficamentenão. Porque a sua fidelidade é com Meca, para a qual ele se vira cinco vezes por dia para orar.

Socialmentenão. Porque a sua fidelidade ao islão o proíbe de fazer amigos cristãos ou judeus.

Politicamentenão. Porque ele deve submeter-se aos mulás (líderes espirituais), que pregam a aniquilação de Israel e a destruição da América, o Grande Satã.

Domesticamentenão. Porque ele é instruído para casar com quatro mulheres e bater e açoitar a sua esposa quando ela lhe desobedece. (Corão 4:34)

Intelectualmentenão. Porque ele não pode aceitar a Declaração de Direitos Canadense, ou a Constituição americana, uma vez que ela é baseada em princípios da Bíblia e ele acredita que a Bíblia é corrupta.

Filosoficamentenão. Porque o islão e o corão não permitem a liberdade de religião e expressão. A democracia e o islão não podem coexistir. Todo o governo muçulmano é ou ditatorial ou autocrático.

Espiritualmentenão. Porque quando nós declaramos [ser] «Uma nação sob Deus», o Deus cristão é de amor e bondoso, enquanto Alá nunca é mencionado como Pai celeste, nem é chamado amor nos 99 excelentes nomes do Corão.






quarta-feira, 16 de dezembro de 2015


A profecia cumpriu-se








Dois mil e quinze, Dezembro



     Dois mil e quinze, Dezembro,
     à velocidade da luz
     ei-lo chegado até nós...
     Mais um Natal! Como lembro,
     o peso da minha cruz
     e o que cala a minha voz...

     De pouco serve falar,
     sendo cristão ou ateu,
     porque é pouco o que penamos,
     isto se se comparar
     com o que Jesus padeceu
     há já mais de dois mil anos...

     Mas teimamos nas comprinhas
     e em estragarmos com prendinhas
     os que afirmamos gostar...
     Cada ano digo o mesmo:
     parem de comprar a esmo,
     aprendam mas é a amar!

     A amar como Jesus amou,
     como se ouve na cantiga
     pelas igrejas tão cantada.
     Foi Ele quem ensinou
     que não pode haver fadiga
     para sempre carregada!

     Termino dizendo isto:
     tenham todos Fé em Cristo,
     sintam a alma aliviada!
     Vivam um Santo Natal
     igualzinho, tal e qual,
     ao da Família Sagrada!


Teresa Machado, Natal 2015





domingo, 13 de dezembro de 2015


Os lamentos de Nuno Crato

não chegam ao céu


Heduíno Gomes

Justino e Crato: evolução na continuidade.

Ainda o novo salvador da educação do governo de António Costa não tinha aquecido o lugar, já o ex-Ministro Nuno Crato filosofava no Público (12 de Dezembro de 2015) sobre o ensino, no bom estilo de Roberto Carneiro ou Velez Grilo. Coisa que não era o seu estilo e a que terá ganho o gosto na Avenida 5 de Outubro. Trata-se, apenas, de uma justificação para os resultados nulos da sua acção, tanto mais quanto as expectativas que tinha criado em algumas pessoas.

Crato deixou-nos no sistema de ensino a mesma dominante filosofia rousseauista, o mesmo pedagogismo paranóico, a mesma nomenclatura igualitarista e niveladora por baixo, os mesmos programas a condizer, os mesmos manuais escolares medíocres, a mesma indisciplina e permissividade nas escolas, a mesma fraude «generosa» na pseudo-avaliação, a mesma estupidez na colocação de professores, os mesmos dramas na vida dos professores, a mesma secundarização do ensino do Estado em termos de qualidade, o mesmo complexo pedagogico-industrial a mandar no ensino e a submeter o interesse nacional ao lucro e carreiras dos parasitas que o compõem — «especialistas» em «pedagogia», empresas editoras, sindicalistas do sector e outros de menor evidência.

Crato herdou um sistema de ensino medíocre e, volvidos 4 anos de maioria no parlamento, o sistema de ensino permaneceu igualmente medíocre. Outra coisa não seria de esperar dada a sua superficialidade na abordagem do problema. Não fez o que devia, ou porque é rolha, ou porque não sabia o quê e como.

Agora pode «filosofar» o que quiser. O que fica para a história é a sua nula acção. Foi mais um que por lá passou a encher o currículo.





sábado, 12 de dezembro de 2015


A unidade não pode estar acima da verdade


Dietrich von Hildebrand

«El gran peligro que amenaza hoy a los católicos y a una amplia parte de la jerarquía, es el deseo de conciliar cosas que son inconciliables (…)

Algunos, en efecto, no se dan cuenta de que declarando: «Debemos abandonar el ghetto católico y adoptar una actitud más positiva en relación al mundo», abren la puerta al diablo, que les conduce a no ver ya el contraste, irreconciliable y sin fin, entre el espíritu del Cristo y el espíritu del mundo. (…)

La unidad no está por encima de la verdad.

Una tendencia muy extendida es la que pone la comunidad por encima de la verdad; eso lleva a considerar la unidad más importante que la verdad y a temer más el cisma que la invasión del error y de la herejía en la Iglesia. Considerando esencial la paz de los creyentes, si verdaderos discípulos de Cristo alzan la voz, para defender el depósito de la fe católica contra las falacias de nuevas interpretaciones que despojan de su contenido sobrenatural el mensaje del Verbo encarnado, son considerados por muchos prelados como perturbadores incómodos.

Toda unidad entre creyentes, si se obtiene a expensas de la verdad, no es sólo una pseudo-unidad; en su esencia más profunda es una traición a Dios. Se coloca la fraternidad social, el vivir bien juntos y el no molestar a nadie por encima de la fidelidad a Dios. Esa es precisamente la actitud contraria a la de todos los grandes adversarios del arrianismo: de un San Atanasio, de un San Hilario de Poitiers.

Nadie, como Pascal, ha desenmascarado tan clara y profundamente el falso irenismo que pone la unidad por encima de la verdad. Escribe: «¿No se ve con claridad que, como es un crimen perturbar la paz cuando reina la verdad, también lo es permanecer en paz cuando se destruye la verdad? Hay, pues, un tiempo en el que la paz es justa y otro en el que es injusta. Está escrito que ‘Hay tiempo de paz y tiempo de guerra’: es el interés de la verdad el que los discierne. Pero no hay tiempo de verdad y tiempo de error; está escrito, al contrario, que ‘la verdad de Dios permanece eternamente’ Por eso Jesucristo, que dice que ha venido a traer la paz, dice también que ha venido a traer la guerra; pero no dice que ha venido a traer la verdad y la mentira. La verdad es, por tanto, la primera regla y el último fin de todas las cosas (Pensées, 949)».


Publicado en France Catholique, 21-4-1972 y en «Iglesia-Mundo» 8-12-1973.

Visto en Syllabus


http://www.adelantelafe.com/la-unidad-no-esta-por-encima-de-la-verdad/





quarta-feira, 9 de dezembro de 2015


Quem tem medo da austeridade?


Rogério Costa

Nas décadas de 80 e 90 do século passado, exerci cargos de CFO e CEO em duas empresas multinacionais, uma francesa e uma alemã, respectivamente, ambas líderes europeias, à data, nas suas áreas de actividade. Habituei-me então a horários de trabalho sem relógio, como então dizia, com uma média de mais de 10 horas por dia, consumindo 20 dias por mês nos reports de gestão habituais em unidades daquela dimensão. Qualquer semelhança entre alemães e franceses é pura coincidência. Contudo, em termos de gestão, são muito similares e coincidem em dois pontos basilares: a austeridade e o rigor necessários a qualquer organização. Em Portugal, em termos gerais e nessas matérias, continuamos a tentar sair do século XIX.

Vem isto a propósito do governo Passos Coelho de 2011-2015. Nunca tendo eu pertencido a qualquer governo, as exigências que a troika impôs e que esse governo herdou do anterior fez-me sempre recordar as minhas experiências profissionais de gestão e de execução operacionais naquelas duas multinacionais. A pressão a que o governo esteve submetido durante 3 dos 4 anos da legislatura, tinha uma base de report que se assemelhava muito à que é comum às empresas multinacionais. Ou seja, passei a encarar a realidade: Portugal foi nesse período uma filial operacional de uma Europa claramente liderada pela Alemanha a cujos ditames de gestão éramos claramente obrigados a obedecer. A culpa não era alemã. Pusemos-nos a jeito gastando sem poder até que os outros se fartaram de nos alimentar com mais dinheiro e exigiram condições para nos resgatar de uma bancarrota iminente.

Durante quatro anos assistimos a um ataque cerrado a todos aqueles que defendessem uma atitude positiva face à austeridade ou o rigor necessários aos organismos do Estado. Os próprios comentadores televisivos fugiram sempre de mencionar estas palavras malditas que encaixam mal na cultura política portuguesa e afastam os desejados votos nas urnas. O que leva à perpetuação do status quo de mendicidade em que vivemos. Trata-se, portanto, de uma questão de atitude. Que persiste quatro anos depois, como o Parlamento o demonstra.

O governo Passos Coelho enfrentou eleições em 2011, como se sabe, mas também em 2013, 2014 e 2015. Ou seja,as condições de governabilidade com tanta eleição tornam-se muito difíceis quando há que arrumar e limpar o lixo espalhado pela casa. Porém, é um facto que me pareceu por demais precipitada a elaboração do programa de austeridade a que Portugal foi obrigado. A urgência de financiamento a que a bancarrota obrigava então não facilitou a sua elaboração e facilitou as imposições dos credores. Normal. Mas a renegociação formal do programa de austeridade deveria ter sido levado a cabo de imediato, ainda em 2011, de forma discreta e convincente para os credores.

Economicamente, num país de economia aberta como o nosso, em que o consumo gera empregos nos países terceiros nossos fornecedores (veja-se o que aconteceu em 2015 com o aumento do consumo, elevando de imediato as importações) as políticas keynesianas não surtem o efeito que possuíam nos anos da primeira metade do século XX, quando existiam fronteiras, moedas próprias e políticas monetárias independentes dos «mercados» ainda incipientes e domésticos.

Travar o consumo era evidentemente um must, em 2011, mas onde o governo Passos Coelho não actuou suficientemente, foi no lançamento imediato, após a tomada de posse, na restruturação e reforma do Estado central e local. Sabe-se que tentou, mas o governo estava entregue ao aperto e ao timing do tecnocrata Vítor Gaspar. A necessidade de dinheiro conduziu a um aumento de impostos que atingiu o sector privado. Com menor liquidez, este teve que continuar a pagar o sector público defendido por velhos privilégios e pelo Tribunal Constitucional. Uma boa reforma do Estado, uma reforma inteligente e independente, uma planificação orçamental de base zero do Estado, reduziria natural e eficientemente o consumo, diminuindo a pressão fiscal. Tenho que levar em conta que os credores não estavam interessados em planos de longo ou mesmo médio prazos e tinham pressa em ver resultados que confirmassem as suas teorias. Por outro lado, nem o PS nem o TC estariam interessados na Reforma do Estado que urgia e continua a urgir. Tudo se conjugou, dentro e fora do país, para que a oportunidade de reformas fosse gorada e restasse apenas uma austeridade limitada aos interesses financeiros.

Embora rigor e austeridade andem de mãos dadas e sejam comummente definidos como conceitos similares, podemos distingui-los, definindo austeridade no campo das opções e o rigor no atendimento dessas opções e na respectiva prestação de contas.

O sector privado vive, por definição, em austeridade. Em contrapartida, o Estado deveria viver sempre em austeridade, como uma condição normal de gestão pública. O empresário responsável vive a cortar gorduras e a planear da forma mais rigorosa os seus investimentos e o respectivo pay back para criação de riqueza. Porém, o Estado não cria riqueza, consome-a. É básico que o Estado não possa consumir mais riqueza do que aquela que é produzida. A análise tem que ser geral e os dois sectores não podem viver de costas voltadas e vendas nos olhos. As práticas têm que ser coincidentes e encontrarem o seu break even point algures.

Transportar a austeridade a que o Estado deveria estar submetido para o sector privado foi um erro para toda a economia.  A atitude negativa que o TC assumiu, obrigando o Governo a colocar a ventoinha da austeridade sobre o sector privado, foi danosa para a economia com consequências para as receitas do Estado. A curva de Gauss explica que existe um limite para o lançamento de impostos. O TC demonstrou desconhecer isso ou ignorou-o deliberadamente. O que é grave.

Existe um princípio básico imperialmente ignorado: o dinheiro do Estado não lhe pertence, foi-lhe confiado pelos contribuintes para a melhor aplicação no interesse geral. E ninguém diz isto ao povo. Ou seja, cada centavo veio do bolso de um cidadão contribuinte e não pode ser malbaratado. O dinheiro dos contribuintes é, portanto, um empréstimo que os cidadãos fazem ao Estado, esperando receber em troca bens e serviços providenciados por esse mesmo Estado. Recebem? Não. Aliás, como fiel depositário do dinheiro dos contribuintes, o Estado deveria prestar periodicamente contas simples e transparentes da forma como gasta o dinheiro dos contribuintes, da mesma forma que exige cada vez mais dos contribuintes que lhe prestem contas dos seus negócios para efeito de colecta de impostos.