sábado, 28 de novembro de 2015
Então «o coordenador» Eanes
não conseguiu proteger?
Da memória
Michael Seufert, Diário Expresso, 26 de Novembro de 2015
25 de Novembro de 1975, Mário Soares não jantou em casa. Nem sequer em Lisboa. Temendo pela vida, cito o site do Partido Socialista, foi com colegas da Comissão Permanente do PS pedir protecção ao brigadeiro Pires Veloso. No Norte, longe das mãos de Otelo Saraiva de Carvalho e de Mário Tomé, respirava-se uma calma que só chegaria à Região Militar de Lisboa depois da dissolução do COPCON e da prisão destes e de outros revolucionários que teimavam em não aceitar o jogo democrático. O Verão Quente terminaria e podia, finalmente, cumprir-se o mais importante desígnio do 25 de Abril: Democracia.
Que 40 anos depois seja o Partido Socialista, que
indicaria o primeiro primeiro-ministro constitucional uns meses depois, a
impedir que o Parlamento português – que exerce o seu mandato graças aos
militares que impediram o golpe a 25 de Novembro de 1975 – assinale esse dia, é
particularmente sintomático dos dias que vivemos. O país está de pernas para o
ar e são o Partido Comunista e o Bloco a ditar o que o PS pode e o que o PS não
pode fazer. Parece que está de facto instituído que são os menos votados a
impor-se aos mais votados.
O que fica por saber é até onde aceitará o PS ir para não
incomodar os seus novos parceiros. Renegou hoje um momento fundador da
democracia e fundamental na história do PS (que dias depois, em 1975, deu uma
violentíssima conferência de imprensa atacando Cunhal e o seu partido). Que
renegará amanhã?
Mas será assim tão importante, tão fundamental, tão
decisivo assinalar o 25 de Novembro? Provavelmente não. Mas é simbólico e
talvez por ser pouco decisivo mostre ainda mais o labirinto em que Costa meteu
o PS. Se a 25 de Novembro de 2015 o PS dá cobertura a Otelo por causa do PC e
ao Major Tomé por causa do Bloco, o que fará nos próximos meses?
quinta-feira, 26 de novembro de 2015
Pornografia:
A nossa maior ameaça espiritual
Pe. John C. McCloskey
Os bispos dos Estados Unidos reuniram-se a semana passada em Baltimore, para a sua reunião anual. Um dos tópicos que decidiram abordar este ano tem a ver com aquela que é talvez a maior e mais constante ameaça à saúde espiritual e física dos católicos americanos. Destrói casamentos, mata o estado de graça e, em muitos casos, acaba com possíveis vocações ao sacerdócio e à vida religiosa. É uma praga e chama-se pornografia.
A pornografia gera lucros gigantes para quem a produz e distribui comercialmente. Muita desta pornografia tem origem em Los Angeles e, infelizmente, espalhou-se não só por toda a nação mas por todo o mundo, dando credibilidade àqueles que, como os extremistas islâmicos, denunciam a decadência do Ocidente. Embora a pornografia seja sobretudo comercializada e vista por homens, um número considerável de mulheres também a vê por curiosidade e geralmente ficam enojadas, embora um pequeno número caia na armadilha de a usar também.
Escrevo este artigo enquanto padre que ouve milhares de confissões todos os anos. Quando fui ordenado, a maior parte da pornografia consumida era entregue em casa das pessoas na forma de revistas. Hoje em dia, praticamente toda a pornografia está na Internet, facilmente disponível para quem a quiser usar. Os homens viciados, só neste país, são aos milhões. Vivem num mundo de fantasia que é degradante tanto para eles como para as suas mulheres e namoradas.
O Catecismo da Igreja Católica diz-nos que os cristãos devem estar de prevenção contra a pornografia. Não só devemos evitar procurá-la e usá-la como devemos rejeitar qualquer imagem ou pensamento que nos possa surgir acidentalmente – por exemplo, quando vamos inocentemente ver um filme e somos apanhados de surpresa por uma cena de sexo explícita.
O que é que se pode fazer? Talvez os bispos tenham algumas recomendações «micro» para os indivíduos e outras «macro» para a sociedade em geral. A pornografia, como é evidente, e tal como outros tipos de pecado, não é nada de novo e provavelmente existirá até ao fim dos tempos. Contudo, a dimensão do problema e a dificuldade em evitar a contaminação, bem como a ameaça que coloca à inocência das crianças, é um produto sem precedentes do progresso tecnológico e da regressão moral do nosso tempo. É um bom sinal que a Igreja nos Estados Unidos esteja a debater esta matéria mortífera, que mata almas aos milhões tanto cá como no estrangeiro.
Estou ansioso para ver a forma como os nossos bispos vão lidar com este assunto no futuro. Utilizar pornografia não só fere a alma mas transforma o utilizador num criminoso, que rouba algo que não lhe pertence. O consumo de pornografia leva muitas pessoas a ficarem viciadas e, tal como na maioria dos vícios, este geralmente leva o consumidor a ir aumentando as doses para alcançar os mesmos efeitos. Não admira, por isso, que o uso de pornografia possa, em alguns casos, levar a situações de violação e abuso de crianças.
Uma vez que o consumo da pornografia é frequentemente um vício e um pecado, o consumidor desta doença mortal para a alma deve não só confessar o seu pecado como ainda procurar auxílio profissional que possa ajudá-lo a libertar-se desta praga.
No que diz respeito aos métodos gerais, combatemos este tipo de pecado como combatemos outros. Começamos por confessar os nossos pecados e depois, em estado de graça, podemos receber a presença fortalecedora de Cristo na Eucaristia. A devoção à Santíssima Mãe é também uma grande ajuda no combate a todos os tipos de impureza. Devemos ainda ter o cuidado de evitar as ocasiões de pecado, instalando um filtro nos nossos computadores ou telefones para evitar aceder a pornografia. Outra dica útil é nunca usar um computador a não ser que esteja acompanhado por alguém na sala.
Estas são apenas algumas ideias que podem ser úteis para quem estiver apanhado por este tipo de comportamento pecaminoso. Acima de tudo, à medida que nos aproximamos do Jubileu da Misericórdia anunciado pelo Papa Francisco, que começa na festa da Imaculada Conceição, os utilizadores de pornografia penitentes, tal como qualquer outro, nunca devem desesperar da misericórdia e do perdão de Deus. Nunca devem perder a esperança na possibilidade de se conseguirem libertar desta escravatura, recorrendo à ajuda continuada da graça de Deus.
A Europa é estúpida
se não sabe que o Islão utiliza a sua tolerância
para islamizar»
P. Samir Khalil
El jesuita e islamólogo
Samir Khalil Samir pide al Islam autocrítica, renuncia a la violencia,
capacidad de integrarse... y al Estado que controle las mezquitas
Khalil ofrece el punto de vista de un árabe cristiano
sobre las relaciones entre cristianos y musulmanes en los países árabes y en
Europa. «Los musulmanes han de aceptar vivir aquí con las condiciones de la
cultura europea», afirma analizando la situación del viejo continente ante las
exigencias islámicas en la sociedad.
Egipcio, jesuita, profesor
de Historia de la cultura árabe y de islamología en Beirut y en Roma, el padre
Samir Khalil es hoy en día uno de los mayores especialistas en relaciones entre cristianismo e islam.
Propone soluciones para llegar el entendimiento entre musulmanes y europeos
pero considera que el islam busca el poder político.
— ¿Cree que los musulmanes pueden cambiar el modo que tienen de vivir su
religión musulmana?
– Sí, siempre y cuando
Europa se afiance en defender su identidad, la carta universal de los derechos
humanos. Esa carta es universal, no como la que hace unos años hicieron algunos
países musulmanes, una carta musulmana de los derechos humanos. Con esa identidad,
Europa puede tener apertura. Y los musulmanes han de aceptar vivir
en una Europa con las condiciones de Europa, no viniendo a
promover en Europa un proyecto musulmán utilizando el esquema tolerante
europeo, que está muy extendido entre los musulmanes. Europa es estúpida si no
ve eso, si no se da cuenta de que pueden usar la tolerancia para islamizar Europa.
— «El Islam nunca retrocede» – ¿Cómo se islamiza una sociedad no islámica?
—
Cuando van adquiriendo fuerza social, los musulmanes exigen que las leyes les
reconozcan como minoría distinta, y cuando de una minoría de un cinco o diez
por ciento llegan a tener ya la presencia de un treinta por ciento, como el
caso de Malasia o de Mindanao en Filipinas, exigen la islamización de la
sociedad. Y cuando el islam ha ido adquiriendo zonas de poder e influencia,
nunca retrocede. España ha sido el único caso en la Historia. La única
posibilidad que yo veo de modernizar el islam es que cuando las siguientes
generaciones de inmigrantes en Europa vean que pueden vivir su fe sin modificar
el marco social y político, acepten esa posibilidad.
— ¿Cómo vive la minoría
cristiana en un país musulmán?
—
La religión islámica está pensada magníficamente como
control social y político. La convivencia es siempre como minoría y con la
tendencia a desaparecer, aunque algunos líderes islamistas están dándose cuenta
de que es negativo para ellos. Los cristianos árabes somos plenamente árabes,
aunque no compartamos la fe musulmana. Somos más libres que los musulmanes,
puesto que podemos aportar una mirada crítica sobre la realidad. Actualmente
nos ven como posibles aliados o espías de Occidente, y nos dirigen las mismas
acusaciones que dirigen al imperialismo occidental. La línea del entendimiento
con ellos, que es la de Juan Pablo II, es la de la defensa de los derechos
humanos, de la justicia social. En materia social hay un profundo entendimiento
entre musulmanes y cristianos, porque hay un visión del hombre coincidente en
muchos elementos.
— «España es un símbolo» ¿Qué significa España para
un árabe cristiano?
—
Para nosotros, España es un símbolo. Europa y
Occidente no tienen ya la experiencia de vivir con un grupo dominante de
presión constante en nombre de la religión. Además, el islam, históricamente,
nunca ha retrocedido en aquellos lugares en los que se ha ido asentando, a
excepción de España. España es el único caso en el que un pueblo cristiano
recuperó lo que los musulmanes le habían arrebatado. Además, la Reconquista no
fue una cruzada, los árabes – también
los musulmanes – nunca hablamos de
«cruzada», hablamos y hablan de las guerras de los francos, de los amalfitanos
y de los venecianos luego. Se ve como la sucesión normal de los acontecimientos
y de las relaciones entre los pueblos en aquel momento histórico. Para mí,
España representa la reacción católica de un pueblo, consciente de su
identidad, que pone los medios aptos para recuperarla.
— Entonces, ¿qué piensa
de las revisiones históricas que rechazan ese hecho?
Me sorprende que los
occidentales y sobre todo los españoles nieguen eso. La Historia está hecha de
flujos y reflujos. Hoy Europa no hace autocrítica, que es buena, sino que hace
autodestrucción porque no quiere asumir su historia. Asumir la propia historia
es distinguir lo bueno de lo malo pero sentirse orgulloso de que sea esa su
propia historia, sin rechazarla.
Holanda: Não ao multiculturalismo
A Holanda, em que 6% da população é muçulmana rejeita agora o multiculturalismo. O Governo holandês está cansado de ser pisado pelos muçulmanos e abandona o seu modelo de longa data de multiculturalismo, que não fez senão incentivar os imigrantes muçulmanos a criarem uma sociedade paralela e nociva dentro do país.
Um novo projecto de lei apresentado ao Parlamento pelo ministro do Interior holandês, Piet Hein Donner, em 16 de Junho, diz o seguinte:
«O Governo partilha a insatisfação do povo holandês face ao modelo de uma sociedade multicultural na Holanda e manifesta a sua intenção de agora concentrar as suas prioridades nos valores fundamentais do povo holandês. Sob o novo sistema de integração, os valores holandeses terão um papel fulcral e, portanto, o Governo ‘não adere mais ao modelo de uma sociedade multicultural.’»
A proposta continua:
«Uma integração mais rigorosa é perfeitamente justificada porque isso é o que é exigido pelo Governo e todo o seu povo. Esta orientação é agora absolutamente necessária porque a sociedade holandesa está a desintegrar-se, em termos de identidade e já ninguém se sente em sua casa na Holanda.» A nova política de integração será muito mais exigente para com os imigrantes. Por exemplo, os imigrantes devem necessariamente aprender holandês e o Governo holandês vai tomar medidas coercivas em relação aos imigrantes que ignoram os valores do país e desobedecem às leis holandesas.
Assim, o Governo holandês vai deixar de dar subsídios especiais aos muçulmanos para os integrar (até porque, de qualquer forma, eles não o fazem) porque, segundo Donner, «não compete ao Governo e aos fundos públicos a integração dos imigrantes.»
O projecto prevê também a criação de legislação proibindo os casamentos forçados, bem como legislação impondo medidas severas para esses imigrantes muçulmanos que, por sua livre vontade, reduzem as suas hipóteses de emprego pela maneira como se vestem. Especificamente, o Governo vai proibir, a partir de Janeiro 2016, o uso de roupas que cubram o rosto, como o véu, burca, hijab, etc.
A Holanda deu-se conta, talvez tardiamente, que o seu liberalismo multicultural está em vias de fazer do país um território de tribos do deserto que está prestes a matar as origens do país e a sua própria identidade.
terça-feira, 24 de novembro de 2015
Em Inglaterra, já não há agências
de adopção católicas
Filipe d'Avillez, Renascença, 20 de Novembro de 2015
Desde a legalização da adopção por homossexuais, todas as agências de adopção católicas do Reino Unido fecharam, com a excepção de uma, na Escócia.
A legalização da adopção por parte de homossexuais pode ter implicações muito mais abrangentes do que parece à primeira vista, como as agências de adopção católicas do Reino Unido e nalguns estados americanos descobriram da pior maneira.
Em 2002, no ano em que foi legalizada a adopção por homossexuais, existiam no Reino Unido 12 agências de adopção católicas. Hoje, só existe uma – na Escócia.
O advogado Neil Addison, especialista em assuntos legais ligados à liberdade religiosa, explica que o encerramento não foi consequência directa dessa legalização, mas de uma legislação posterior, aprovada em 2007, que proíbe a discriminação com base na orientação sexual por parte de organizações que recebam dinheiro público.
Como consequência, a maior parte delas acabou por se desvincular oficialmente das respectivas dioceses, para assim poder trabalhar dentro da lei, mas, na prática, a Igreja foi totalmente afastada do sector.
A única excepção, em todo o Reino Unido, foi uma agência da Escócia que conseguiu, após vários recursos, ver garantido o seu direito de continuar a agir de acordo com os princípios católicos que a orientam. A decisão não se aplica, contudo, às organizações inglesas, uma vez que a legislação é diferente na Escócia e na Inglaterra.
Nos Estados Unidos, passa-se uma situação em tudo idêntica em vários estados e pontos do país. Em Boston (Massachusetts), no Illinois e em São Francisco (Califórnia), pelo menos, as agências católicas tiveram de fechar portas, uma vez que o governo estatal só lhes permitia continuar a trabalhar se aceitassem considerar homossexuais como famílias de adopção. A situação levou Thomas J. Paprocki, arcebispo de Illinois, a afirmar: «Em nome da tolerância, não estamos a ser tolerados».
Muito recentemente, na Austrália, o Estado de Victória concedeu às agências católicas um regime de excepção. A adopção por homossexuais passou a ser legal naquela região, mas as instituições que invoquem objecção de consciência poderão continuar a trabalhar livremente, respeitando os seus princípios orientadores.
Sem paralelo
Os casos do Reino Unido e dos Estados Unidos não são exactamente comparáveis ao caso português, uma vez que naqueles países são as próprias agências que dirigem os processos de adopção, enquanto em Portugal os Centros de Acolhimento Temporário e os Lares de Infância e Juventude apenas cuidam das crianças, não tendo qualquer palavra a dizer em relação ao processo de adopção, que está totalmente a cargo da Segurança Social.
Ainda assim, pelo menos uma instituição cristã contactada pela Renascença diz que se recusará a permitir que uma criança ao seu cuidado seja colocada ao cuidado de «dois pais» ou «duas mães», embora outra, não obstante a objecção de princípio, diz que cumprirá as leis aprovadas pelo Parlamento.
Contactado pela Renascença, a Conferência Episcopal Portuguesa, que poderá ter uma palavra definitiva a dizer, pelo menos para as instituições católicas, que são cerca de metade de todas as que trabalham neste sector, não fez comentários.
quinta-feira, 19 de novembro de 2015
Islamismo:
o aviso do general Antoine Roch Albaladéjo
(Légion étrangère)
Léo Kersauzie, em Immigration, Islam, Société,
Alguns elementos de reflexão sobre o conflito com os islamistas.
1.° Ouvrir les yeux et admettre une bonne fois pour toutes que les islamistes ont déclaré la guerre à l’occident, avec la France en première ligne. Se persuader que cette guerre ne se fera pas sans mort, sans prise d’otages, d’autres attentats, qu’elle se fera aussi chez nous et donc qu’il faudra nous montrer plus vigilant et moins vulnérable y compris émotionnellement. Savoir que notre ennemi trouvera parmi nous des sympathisants et des complices dans tous les milieux et en plus grand nombre que ce ne fut le cas pour le FLN.
2.° Cesser de reculer devant les exigences toujours plus grandes de ces extrémistes et de leurs complices, qui, en affaiblissant notre culture et en imposant la leur, cherchent surtout à tester et à saper notre esprit de résistance.
3.° Agir en portant le fer là où apparaît un furoncle:
– une immigration débridée qui rend insolubles les problèmes du logement, du chômage, de la dépense publique, ça se contrôle.
– des barbus, des imams ou des rappeurs qui appellent à la guerre sainte, à la haine et au crime, ça se sanctionne.
– des quartiers qui caillassent les représentants de l’État, qui rackettent les artisans, ça se neutralise.
– de discrètes écoles coraniques qui forment les djihadistes de demain, ça se ferme.
– des clandestins, ça s’expulse, surtout les délinquants.
– des subventions à toutes ces associations qui font leur beurre dans l’anti-France, ça se supprime, et …..on revoit nos programmes d’histoire, on jette la repentance aux orties, on laisse la transparence aux vitriers …..etc, etc.
Et ne me dites pas qu’il s’agit là de racisme, de fascisme ou d’extrême droite!
Il s’agit de légitime défense et de résistance dans le respect de la loi, ni plus, ni moins!
Vous pensez sans doute que ce n’est pas demain la veille?…
Je crois néanmoins que, sans un sursaut, le pays de la douceur de vivre, le plus beau pays du monde, risque fort de disparaître dans d’atroces soubresauts ou dans une coupable et morne résignation, pour être remplacé par une autre que certains, et pas des moindres, semblent appeler de leurs vœux, on se demande pourquoi, et qui commence à faire peur.
Mais je me trompe peut-être… J’aimerais tellement avoir tort… Enfin, réfléchissez, ne soyez ni sourds, ni aveugles, ni muets.
segunda-feira, 16 de novembro de 2015
O principado de Zouheir
Helena Matos, Observador, 15 de Novembro de 2015
Combater o terrorismo pressupõe o tempo longo dos pactos e a resiliência que nasce das convicções. Ora nós vivemos o esboroamento do centro e trocámos as convicções pelas indignações.
Não, não me apetece pela quinquagésima vez o «somos todos» qualquer coisa, mais o facebook às riscas e a Marianne a chorar. Já sabemos como vai ser não é? Lembram-se do Charlie Hebdo? Éramos todos tão livres, não éramos? Pois éramos. E claro que não se pode ter medo, que a França é a pátria da Liberdade, que mesmo ferida se vai levantar… Pois, mas em Julho deste ano, meio ano após os atentados, o editor do Charlie Hebdo anunciou que aquele jornal não voltaria a publicar desenhos satíricos de Maomé. Ficámos um bocadinho menos «charlies» não foi? E o bom Charlie vai fazendo as suas caricaturas com os bispos do costume e até entreviu no nosso governo de esquerda uma espécie de vitória sobre o nosso passado colonial, não foi? Pois é, com um bocadinho de esforço quase que se pode dizer que o Charlie continua na mesma. Afinal, cada um acredita não no que quer mas sobretudo no que precisa. Há quem goste de acreditar que continua novo apesar das rugas. Nós precisamos de acreditar que continuamos livres.
Portanto, agora que a onda está aí de novo, mais as flores, as velas e o Imagine, prefiro fazer de conta que não engulo em seco diante das imagens daquela gente outra vez pendurada numa janela para não morrer (lembram-se do 11 de Setembro?) e daquele rapaz arrastando um corpo pelo meio da rua (uma rua de Paris!), para me poupar à irritação daquele momento que não tarda em que cairemos no processo da voz passiva que nos leva do óbvio – terroristas matam – ao grotesco das pessoas que «acabaram por falecer» na sequência de actos alegadamente praticados por terroristas. Actos esses pressurosamente transformados em respostas às políticas do Ocidente. Do Ocidente que quer o petróleo. Do Ocidente que intervém. Do Ocidente que não intervém. Do Ocidente que desenhou as fronteiras. Do Ocidente que fez as cruzadas… enfim uma espiral retroactiva em que as culpas nunca se expiam antes se exponenciam. (No nosso portuguesíssimo caso junta-se a tudo isto, segundo Ana Gomes, a demora de Cavaco Silva em indigitar António Costa. Mas não creio que, para já, a comunidade internacional se sinta capacitada para ponderar essa tese).
Há algo de grotesco nesta forma de ver o mundo em que o outro – aquele que por uma qualquer razão nos odeia ou ataca – é sempre o elemento neutro. Ele por ele nada faz. Os seus actos são sempre o resultado de algo que nós, os nossos pais, os nossos avós e os nossos antepassados fizeram, pelo menos até àquele polémico momento em que o Neandertal se terá cruzado no planeta Terra com o Sapiens sapiens. Dir-se-á que isto é pateta. Pois é. Mas o problema das visões patetas é que o seu simplismo constitui-se como argumento eficaz na justificação do injustificável: com os terroristas reduzidos à condição de consequência dos nossos actos, a responsabilidade pelo terrorismo deixa de ser dos terroristas pois é transferida para aqueles que o sofrem.
Não é por acaso que após os atentados terroristas vivemos uma sensação de desconcerto, como se não fosse justo nem lógico fazerem-nos aquilo. Na verdade para nós não é. Mas só para nós. Do ponto de vista do terrorista não só tudo aquilo faz sentido como é lógico: são actos tácticos de uma estratégia com objectivos próprios.
O terrorista não é uma marionete puxada pelos fios dos actos presentes e passados dos outros. Muito menos é alguém que buscando os mesmos objectivos de justiça dos não terroristas apenas se enganou no caminho. O terrorista existe independentemente de nós.
Recordo como este exercício de ver o terrorista como um resultado e não como um sujeito dotado de vontade própria era particularmente penoso no caso dos atentados da ETA, em Espanha. Primeiro a ETA matava por causa de Franco. Depois veio a Transição a ETA passou a matar ainda mais (é exactamente durante a Transição que a ETA é mais mortífera: 84 mortos em 1979 e 93 em 1980) mas tal, dizia-se, explicava-se pelo combate à herança do franquismo presente no aparelho de Estado. A Espanha tornou-se democrática e a ETA continuava a matar militares, polícias, políticos e empresários mas isso devia-se à ligação dos militares ao passado, dos polícias à repressão, daqueles políticos à direita e dos empresários ao dinheiro. A ETA continuava a matar. Politicamente as balas entravam em nucas de direita e de esquerda. Mas havia sempre uma culpa da sociedade espanhola para explicar mais uma bomba e mais uma bala: eram os presos da ETA que não podiam estar todos juntos na mesma prisão; era o tribunal que os condenava; era o artigo no jornal que os tinha ofendido; o empresário que não pagava o imposto revolucionário… E quando não se percebia que ligação haveria entre a vítima e os seus verdugos aventava-se que a vítima podia ser um informador. Ou um narcotraficante, porque a ETA queria o País Basco livre de drogas.
A par dos atentados, a ETA desdobrava-se em várias organizações legalíssimas e activíssimas no combate à violência (das autoridades policiais, claro) e de promoção dos direitos humanos, (dos terroristas obviamente). Advogados, professores universitários e jornalistas desdobravam-se, em Espanha e fora dela, em concentrações e conferências de denúncia destes graves atentados à democracia. Ainda por aí andam folhetos em que ilustres participantes portugueses se propunham mediar entre a ETA e o intransigente Estado espanhol.
Até que a 10 de Julho de 1997 a ETA sequestrou Miguel Ángel Blanco, um vereador do PP em Ermua, e deu dois dias ao Governo, então presidido por Aznar, para reagrupar os presos da organização (independentista e não terrorista, segundo boa parte dos órgãos de comunicação). A 13 de Julho o cadáver de Miguel Ángel Blanco era descoberto e nasceu o chamado Espírito de Ermua em que para lá do PSOE e do PP terem estabelecido uma espécie de pacto de regime no combate ao terrorismo a sociedade espanhola deixou de procurar as culpas das vítimas em cada atentado.
Resultado: a ETA foi derrotada. Mas só a ETA, porque o discurso do terrorismo, enquanto resposta automática e não como estratégia de vontade própria, esse apenas mudou os protagonistas do seu enquadramento.
Agora que os mortos se contam na França de Hollande e não na América, para mais de Bush, resta-nos pelo menos a esperança de que esta diferença geo-política nos poupará ao destravamento delirante das teorias da conspiração mas não será suficiente para nos livrar do momento em que os atentados deixam de ser atentados para se tornarem mediaticamente falando na resposta os que fizemos, fazemos ou pensamos vir a fazer.
Quer isto dizer que não acredito nas promessas de união para combater o terrorismo, promessas reiteradas dramaticamente nestes dias? Na verdade não acredito que este seja o momento Ermua da Europa. E não acredito por duas razões. Em primeiro lugar porque combater o terrorismo islâmico implica não apenas, como no caso da ETA, cooperação internacional – alguém ainda se lembra dos «santuários» da ETA em França e de como eles acabaram? – mas coordenação internacional. Mais difícil ainda de conseguir, e aqui chego à segunda razão, ou melhor dizendo ao segundo conjunto de razões: combater o terrorismo islâmico pressupõe intervenções militares e policiais que só se fazem com o tempo longo dos pactos e a resiliência que nasce das convicções.
Politica e mediaticamente falando (o que é quase a
mesma coisa), a Europa e em parte os EUA alienaram o incómodo estatuto da
soberania pelo simpático (mas mortífero) conceito de principado. Ou seja, os
seus cidadãos sonham ser ricos, cultos e livres e acreditam e sobretudo querem
acreditar que podem manter a sua segurança e a sua dignidade através da
distribuição das suas sobras e estabelecendo alianças com outros para que estes
primeiro combatam por si e depois para que não a ataquem (qualquer comparação
com a Roma da decadência não é casual).
Por
isso, se me pedirem um símbolo destes dias eu não escolho a Torre Eiffel, nem
as flores, nem as velas mas sim um rosto que não vimos. O de Zouheir. Quem
é Zouheir? O segurança que impediu a entrada de um dos terroristas no estádio
onde decorria o França-Alemanha. Esperar-se-ia que o rosto deste homem que
evitou a catástrofe implícita ao rebentamento das bombas dentro do estádio
estivesse na capa dos jornais. Afinal foi um dos heróis dessa sexta-feira. Pois
foi e por isso tem medo. Medo que se vinguem nele ou na sua família por ter
feito o que devia fazer.
Zouheir somos todos nós.
sábado, 14 de novembro de 2015
Begonha: «especialista em terrorismo»?
Luís Lemos
O general Rodolfo Begonha, dito «especialista em terrorismo», foi um dos comentadores da SIC na noite dos ataques terroristas de Paris.
Na linha politicamente correcta, diz o «especialista em terrorismo» que não se trata do islão mas de um certo islão.
Este general, pelos vistos, além de ser «especialista em terrorismo», é especialista em islamismo.
É gente desta que ocupa lugares-chave na nossa segurança, fazendo coro com os políticos e jornalistas que têm conduzido o Ocidente à catástrofe.
terça-feira, 10 de novembro de 2015
Falar em Deus é pecado
João Adelino Faria, Dinheiro Vivo, 7 de Novembro de 2015
Quando nos mentem, já nem sequer nos importamos. Quando se desdizem passadas poucas horas, é irrelevante. Quando fazem da demagogia a sua palavra de honra, achamos que é normal. Agora quando um deles invoca Deus e revela ter fé, aí crucifica-se imediatamente.
Não há dúvida, vivemos numa era onde só o politicamente correcto é aceite. Clamamos por transparência, clareza e honestidade aos que têm responsabilidades públicas, mas perante um sinal de franqueza surgem logo verdadeiros pelotões de linchamento. Porque é que o ministro da Administração Interna não pode invocar Deus para consolar as vítimas das cheias no Algarve? É assim tão condenável ouvi-lo dizer à família do homem que morreu, arrastado pelo corrente, que ele se entregou a Deus e que Deus lhe reserva um lugar adequado?
O recém empossado ministro Calvão da Silva, (que não conheço, não sei se é competente e nem sequer o entrevistei) ainda mal tinha entrado no seu Ministério e já estava a resolver uma situação de catástrofe. Não teve tempo para ser aconselhado pelos assessores sobre o que pode e deve ou não dizer publicamente. E neste caso ainda bem, porque perante um batalhão de jornalistas não estudou a pose nem ensaiou os habituais discursos vazios. Sem qualquer treino, disse frente às câmaras de televisão o que lhe ia na alma. Como nasceu pobre, foi educado num mosteiro e, como homem de Deus que é, invocou aquilo em que acredita numa situação trágica. Foi esse o seu pecado: ser humano e católico. De imediato tornou-se motivo de chacota e ataques. Não pela inabilidade governativa, eventuais falhas no socorro ou pelas ordens que deu, mas por revelar que é um homem de fé.
Coincidência ou não, poucos dias depois um dos maiores comunicadores de Portugal seguiu-lhe o exemplo. Com uma habilidade única, o candidato Marcelo Rebelo de Sousa decidiu confessar numa capela os seus pecados em público. Numa óbvia conversa de campanha, o professor contou que faz em média três boas acções por cada dez pecados. Sem medo e numa espontaneidade calculada, (nada do que ele faz é por acaso) Marcelo revelou ainda que reza o terço todos os dias e nos lugares menos óbvios. Diz que é como respirar.
O professor aprendeu bem durante anos a lição, e sabe melhor do que ninguém qual o discurso mais eficaz para conquistar a maioria dos portugueses. Afinal, este é o país onde milhares rumam a Fátima e onde nenhum partido político se atreve a criticar a devoção dos peregrinos. Todos sabem que a religião de cada um é sagrada e deve por isso ser respeitada, mesmo que não seja a nossa. Chama-se tolerância.
Para alguns dos iluminados fazedores de opinião talvez seja pecado invocar Deus na política. Pelo contrário, para milhares de portugueses este tipo de revelações pode ser o único caminho para recuperarem a fé nos políticos.
VER MAIS EM: http://www.dinheirovivo.pt/opiniao/falar-em-deus-e-pecado/#sthash.dZpNJbqD.dpuf
sábado, 7 de novembro de 2015
segunda-feira, 2 de novembro de 2015
Pedidos de esclarecimento
aos gabinetes do PSD e CDS
na Câmara Municipal de Lisboa
HEDUÍNO DOS SANTOS GOMES
Membro n.º 7210 do PSD
Ao Gabinete do PSD na Câmara Municipal de Lisboa
Assunto: Pedido de esclarecimento sobre
votação na CML
Perante a notícia de aprovação da construção de
mais uma mesquita em Lisboa, decisão que terá sido tomada por unanimidade no
executivo da Câmara, solicito o esclarecimento sobre a presença ou ausência
nessa votação dos três eleitos pelo PSD, especificamente Fernando Seara, Teresa
Leal Coelho e António Prôa.
Mais, tendo cada um estado presente, solicito o
esclarecimento sobre se tal sentido de voto foi decisão sua ou se foi directiva
de órgão superior do PSD, especificamente da Comissão Política de Lisboa,
Distrital ou Secretário-Geral.
Este meu pedido de esclarecimento tem como
objectivo informar-me sobre a postura do PPD-PSD e seus representantes sobre a
defesa da identidade nacional, da Civilização europeia e da segurança dentro
das nossas fronteiras, da Europa e do Ocidente.
Atentamente,
Heduíno Gomes
—————————————————
HEDUÍNO DOS SANTOS GOMES
Membro n.º 7210 do PSD
Ao Gabinete do CDS-PP na Câmara Municipal de Lisboa
Assunto: Pedido de esclarecimento sobre
votação na CML
Perante a notícia de aprovação da construção de
mais uma mesquita em Lisboa, decisão que terá sido tomada por unanimidade no
executivo da Câmara, solicito o esclarecimento sobre a presença ou ausência
nessa votação do membro da coligação Sentir Lisboa João Gonçalves
Pereira.
Este meu pedido de esclarecimento tem como
objectivo informar-me sobre a natureza política dos partidos com os quais o
partido no qual estou filiado estabelece alianças, especialmente no que diz
respeito à defesa da identidade nacional, da Civilização europeia e da
segurança dentro das nossas fronteiras, da Europa e do Ocidente.
Atentamente,
Heduíno Gomessábado, 31 de outubro de 2015
O texto e o contexto
Robert Royal
O sínodo sobre a família de 2015 já acabou, depois de ter produzido vários pontos positivos, e não poucos negativos. O relatório final contém algumas reflexões espirituais fortes, inspiradas pelas Sagradas Escrituras e as tradições da Igreja. Trata também de forma realística muitas das situações políticas, sociais e culturais de famílias em todo o mundo – situações que variam muito: Desde a cultura hedonista e saturada de sexo do Ocidente às condições de guerra e perseguição do Médio Oriente e África. Alguns parágrafos eram escusados. Se o virmos apenas como uma visão geral da família, tem o seu valor. Mas o contexto em que o texto foi elaborado é outra coisa e será uma ferida aberta durante muitos anos.
Um tema repetido muitas vezes pelos padres sinodais durante as últimas três semanas é que uma Igreja preocupada com o futuro da família estaria a adoptar uma visão muito estreita se se limitasse a reflectir preocupações ocidentais sobre divorciados e homossexuais. Um dos sinais do quão longe o sínodo de 2015 já foi, apesar de ainda haver problemas, é que já não há nada daquela linguagem de «aceitar e valorizar… orientação sexual gay, sem pôr em causa a doutrina católica da família e do matrimónio», trata-se de um recuo grande em relação ao relatório intermédio de 2014. Durante o fim-de-semana, a BBC disse que o Papa Francisco tinha sido «derrotado» na questão dos homossexuais – o que não é particularmente correcto, tendo em conta que ele não defende o casamento gay. E ainda por cima, o instrumentum laboris, com o qual ele teve pouco que ver, não dizia grande coisa sobre homossexualidade. Mas a cadeia britânica não foi a única a inventar coisas de acordo com as suas próprias obsessões. Cuidado com estes relatos e com os media em geral.
Uma boa parte do relatório final é útil e reflecte uma Igreja global interessada em proclamar a Boa Nova e em corresponder às responsabilidades de todas as famílias do mundo. Quando for traduzido, valerá a pena passar algumas horas a estudar, por parte de todos os que se interessam pelos actuais problemas e pelo futuro das famílias.
Mas a questão do acesso à comunhão por parte de divorciados recasados continuou a absorver a maior parte das atenções no mundo desenvolvido – sobretudo nos media. Teria sido bom poder dizer que agora sabemos em que situação estamos. O Wall Street Journal não tem dúvidas: «Bispos entregam ao Papa uma derrota na aproximação aos católicos divorciados». (Que é como quem diz, como muitos repararam, que não existe uma referência clara ao acesso à Comunhão para estas pessoas no documento e, por isso, não existe apoio textual para uma das correntes que consta do processo sinodal desde que o cardeal Walter Kasper se dirigiu aos bispos, a convite do Papa, no dia 15 de Fevereiro de 2014). Mas o jornal romano Il Messagero leu a coisa de maneira diferente: «Sim, para os divorciados recasados». Outros, que queiram que essa seja a mensagem, também o afirmarão. Na verdade, o resultado foi, como tem sido frequente com este Papa, confuso.
Os bispos optaram por não votar sobre o documento como um todo, mas apenas nos parágrafos individuais, o que faz do texto, no fundo, uma série de reflexões apresentadas ao Papa para sua consideração e não uma afirmação global aprovada formalmente pelos padres sinodais. Teremos de esperar por Francisco para ele nos dizer o que considera que deve ser o próximo passo. Poderá ter tornado a sua vida mais complicada tanto pela forma como o sínodo foi gerido como (ver abaixo) pela forma zangada como reagiu às críticas e para com os mais conservadores.
Apesar do que se possa vir a dizer ao longo das próximas semanas, vale a pena repetir: O relatório final do sínodo não refere o acesso à comunhão para os divorciados recasados. Se é isso que o Papa quer, terá de ser ele a colocá-lo lá. Como temos dito desde o início, houve oposição clara a essa proposta em si. Por causa da controvérsia, a linguagem final sobre a relação entre a consciência e a lei moral é muito mais clara no texto final do que no instrumentum laboris. Mas alguns parágrafos do texto final – que obtiveram o maior número de votos negativos – exploram muito a ideia do «discernimento» das circunstâncias individuais e invocam o «foro interno», ou seja, a direcção privada por um padre ou bispo, chegando mesmo até à fronteira do acesso à Eucaristia, sem o pôr em palavras.
Alguns jornalistas dizem que isto se trata de uma forte defesa do ensinamento actual da Igreja, mas essa é uma caracterização demasiado optimista. Mas também não é um livre-trânsito para liberais. Houve esforços nas discussões do último dia para deixar claro que isto não era um convite para mudar a doutrina ou a disciplina. O padre Federico Lombardi sublinhou propositadamente a continuidade com os ensinamentos de São João Paulo II e Bento XVI . O cardeal de Viena, Christoph Schönborn, realçou, de forma menos convincente, que haveria critérios claros para guiar esse discernimento.
Os critérios existem, mas se são claros é outra questão. Quando se olha para o texto, o que vemos é isto (tradução da nossa autoria, uma vez que o texto em português ainda não foi publicado):
85. São João Paulo II ofereceu critérios compreensivos, que permanecem a base de avaliação para estas situações. «Saibam os pastores que, por amor à verdade, estão obrigados a discernir bem as situações. Há, na realidade, diferença entre aqueles que sinceramente se esforçaram por salvar o primeiro matrimónio e foram injustamente abandonados e aqueles que por sua grave culpa destruíram um matrimónio canonicamente válido. Há ainda aqueles que contraíram uma segunda união em vista da educação dos filhos, e, às vezes, estão subjectivamente certos em consciência de que o precedente matrimónio irreparavelmente destruído nunca tinha sido válido.»
Aqui vemos João Paulo II a ser usado para dar força à ideia de um discernimento mais vigoroso, o que em si pode ser esticar a corda, tendo em conta a forma como o discernimento é entendido hoje em dia. O que falta é o que João Paulo II diz passados dois parágrafos, no Familiaris Consortio: «A Igreja, contudo, reafirma a sua práxis, fundada na Sagrada Escritura, de não admitir à comunhão eucarística os divorciados que contraíram nova união. Não podem ser admitidos, do momento em que o seu estado e condições de vida contradizem objectivamente aquela união de amor entre Cristo e a Igreja, significada e actuada na Eucaristia. Há, além disso, um outro peculiar motivo pastoral: se se admitissem estas pessoas à Eucaristia, os fiéis seriam induzidos em erro e confusão acerca da doutrina da Igreja sobre a indissolubilidade do matrimónio».
A indissolubilidade é afirmada noutros pontos do relatório final e há passagens polvilhadas pelo texto que sugerem mais claramente aquilo que o Papa João Paulo II disse. Há também referências ao Catecismo da Igreja Católica sobre «inimputabilidade», quando as circunstâncias diminuem ou anulam mesmo a responsabilidade pessoal. Devidamente seguidas, todas estas citações poderiam significar que nada mudou na prática da Igreja. Mas oitenta padres sinodais votaram contra este parágrafo, o maior número de votos contra de qualquer parágrafo isolado porque, sem permitir explicitamente uma mudança na prática, ele tem o potencial de permitir muitas escapatórias.
A questão que está a gerar mais controvérsia é esta: O discernimento será devidamente conduzido na linha dos princípios morais firmes enunciados por João Paulo II? É aqui que alguns optam pela abordagem do Wall Street Journal e outros pela do Il Messagero. As palavras do texto são estas:
86: O percurso de acompanhamento e discernimento orienta estes fiéis em direcção a um exame de consciência sobre a sua situação diante de Deus. A discussão com o sacerdote, no foro interno, caminha juntamente com a formação de um juízo correcto sobre aquilo que bloqueia a possibilidade de uma melhor participação na vida da Igreja e sobre os passos requeridos para que ela cresça. Tendo em conta que na mesma lei não existe gradualidade (cf. Familiaris Consortio 34), este discernimento nunca pode prescindir das exigências evangélicas de verdade e caridade, como propostas pela Igreja. Para que isto possa acontecer, devem ser garantidas as condições necessárias de humildade, reserva, amor pela Igreja e pelos seus ensinamentos, na busca sincera pela vontade de Deus e no desejo de responder a ela de forma mais perfeita.
Para chegar a este texto foi preciso muito ajuste e os peritos em teologia irão sem dúvida analisá-lo cuidadosamente. Mas lendo-o como está, e retirado do contexto polémico, até se poderia dizer que tinha sido escrito por João Paulo II. A frase que eu destaquei em itálicos parece dar bastante força à necessidade de uma mudança de vida para remover obstáculos, mais do que outra coisa qualquer. E quando se diz que não existe gradualidade na lei, está-se a dizer que as pessoas se aproximam gradualmente daquilo que devem seguir, mas que a lei é constante e não pode ser abrogada simplesmente porque há pessoas que levam mais tempo a harmonizar-se com ela. Ainda assim, há uma razão pela qual 64 padres sinodais votaram contra este parágrafo, talvez não tanto pelo que diz, mas por aquilo a que poderá conduzir no actual clima que se vive na Igreja.
Mas também vale a pena notar os votos para o Conselho do Sínodo, o grupo que governa os próximos sínodos. Tal como disse na sexta-feira (apesar de os resultados oficiais ainda não serem públicos nessa altura), estes mostram basicamente que existe uma maioria de dois terços a favor do ensinamento católico tradicional. O jornalista Sandro Magister disse durante o fim-de-semana que o arcebispo Charles Chaput, de Filadélfia, foi quem recebeu o maior número de votos de todo o mundo, embora os cardeais George Pell e Robert Sarah também tenham tido números significativos. Isto são excelentes notícias. Das américas temos também o canadiano Cardeal Marc Ouellet (um tipo formidável), e o cardeal Oscar Maradiaga (muito próximo do Papa). Da Ásia os cardeais Pell, Oswald Gracias (Bombaím) e Luis Antonio Tagle (Manila). De África os cardeais Sarah, Wilfred Napier, e o bispo Mathieu Madega Lebouakehan, do Gabão.
Só na Europa é que as escolhas foram mais fraquinhas: Schönborn, o arcebispo inglês Vincent Nichols e o arcebispo Bruno Forte (cardeais italianos fortes como o Scola, o Caffara e o Bagnasco tiverem também muitos votos individuais, e se os italianos se tivessem unido atrás de um candidato, este teria arrasado). Em todo o caso, na medida em que o Conselho do Sínodo conduzirá os eventos futuros, há uma preponderância de figuras sérias e a sua selecção demonstra o sentir geral dos padres sinodais.
O próprio Papa não estava particularmente contente no final dos procedimentos, embora como é hábito em eventos do Vaticano a linha oficial tenha sido que tudo terminou numa grande demonstração de fraternidade e sinodalidade, incluindo uma ovação de pé no final do seu discurso. Entre muitas afirmações positivas, contudo, Francisco expressou irritação com partes da conversa. «Ao longo deste sínodo foram livremente expressas opiniões diferentes – por vezes, infelizmente, de forma pouco caridosa…»
E nas suas declarações sobre a razão de ser do sínodo, disse: «Tratou-se de abrir os corações fechados, que frequentemente se escondem mesmo atrás dos ensinamentos da Igreja ou das boas intenções, para se sentarem na cátedra de Moisés e julgar, por vezes com superioridade e superficialidade, os casos difíceis e as famílias feridas».
Este é um tema recorrente com ele. Ninguém negaria que existem pessoas autoritárias entre aqueles que enfatizam os ensinamentos tradicionais – tal como há pessoas autoritárias com opiniões teológicas contrárias. Mas estas são as franjas, os poucos. Muitos clérigos e leigos ficaram ofendidos – e enfurecidos – com esta afirmação. É justo sublinhar que pode bem ter estado a dizer que alguns tradicionalistas são duros de coração, mas não foi essa a leitura que a maioria das pessoas fez e é natural que isso venha a exacerbar as divisões que já existem.
Esta é a realidade com que teremos de lidar nos próximos tempos na Igreja. O Relatório Final é um texto tolerável, sobretudo tendo em conta que é produto de uma comissão de 270 pessoas. Se tivesse aparecido durante o pontificado de João Paulo II, teria causado pouco alarido. Mas num contexto de suspeição mútua e de revolta, o tolerável pode bem tornar-se intolerável.
Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C.
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