terça-feira, 13 de março de 2012

A lógica da decadência


D. Nuno Brás







Não gosto de ser «profeta da desgraça» mas, infelizmente, creio que nem é preciso ser profeta. Basta, simplesmente, darmo-nos conta da realidade. No mundo ocidental, vivemos numa clara «lógica da decadência». Em todos os âmbitos e de há vários anos a esta parte.

Na economia, a «ciência das ciências» sem a qual parece que ninguém pode sobreviver, o que importa são os números, as estatísticas, e particularmente o crescimento da riqueza. De tempos-a-tempos vem uma crise, uns quantos declaram falência, outros passam por momentos mais difíceis, mas como, depois, o mecanismo se reajusta por si mesmo, tudo parece acabar bem, como num qualquer romance cor-de-rosa. Só nos esquecemos dos dramas humanos que, entretanto, foram vividos, e daqueles outros criados pela nova situação.

Na vida social, impôs-se o «politicamente correcto» ditado pelos telejornais e respectivos comentadores. Basta que cada um viva de acordo com os padrões estéticos (muito mais importantes hoje que os valores éticos), tenha dinheiro suficiente, gaste bastante em roupa e produtos tecnológicos, e possa viver como egoisticamente lhe apetece. Deixámos de ser uma sociedade, para sermos um conjunto de indivíduos que vivem ao lado uns dos outros, na esperança que ninguém retire ao outro o sossego que lhe é devido. E o direito passou a tutelar esse modo de viver. A família deixou de ter qualquer valor. Tanto dá que possa ou não ser o berço da vida. A lei só tem que defender o egoísta e aquilo que lhe apetece no momento.

Aliás, há muito que a vida humana deixou, efectivamente, de contar. Somos capazes de defender com tenacidade a vida das baleias, dos golfinhos e das plantas raras ou em vias de extinção; mas só em Portugal o Estado patrocinou cerca de 80.000 abortos (80.000 portugueses que foram mortos com a cobertura da lei e das instituições, sem terem cometido qualquer crime), mesmo que, depois, se mostre preocupado com a crescente diminuição da população portuguesa. Não tardará a que surjam opiniões nacionais a defender, como aconteceu numa recente revista britânica, que é perfeitamente legítimo matar recém-nascidos que não se integrem nos padrões decididos pela sociedade.

A própria fé não raras vezes é olhada como sendo demasiado exigente. Por isso, cada um faz os «descontos» que lhe apraz – cada crente (infelizmente, mesmo alguns sacerdotes) acha que a deve viver de uma forma mais suave (leia-se: menos exigente), até para que não o chamem de «fundamentalista» (pecado mortal numa sociedade em decadência e onde tudo vale), e as suas incapacidades, pecados e falta de coragem se vejam pretensamente justificados aos olhos de Deus.

E poderíamos continuar… Mas recuso-me a ser profeta da desgraça. Até porque é neste mundo, que se encaminha a passos largos para a decadência, que Deus nos enviou a proclamar com ousadia a Boa Nova do Evangelho. E essa propõe a todos uma vida nova, «radicalmente nova» – ou seja, nova de raiz, não a partir do homem mas de Deus. Ou melhor, a partir de Jesus de Nazaré.

A desmistificação de uma contradição

Gonçalo Portocarrero de Almada











1. Todas as pessoas são livres de opinar sobre o que quiserem, mas só algumas têm a competência necessária para dirimirem, com autoridade, uma questão polémica. A Maçonaria talvez possa permitir que os seus súbditos sejam católicos, mas não que os cristãos sejam maçons, porque só a Igreja, pela voz autorizada do seu magistério e da sua hierarquia, é apta para decidir se um fiel pode, ou não, pertencer à Maçonaria.

2. Sobre esta matéria, a verdade é que a Igreja não tem sido omissa. Já em 1738, com a Constituição Apostólica In eminenti, de Clemente XII, a Maçonaria foi formal e expressamente proibida aos católicos, sob pena de excomunhão. Desde então, todos os papas confirmaram a radical e insolúvel incompatibilidade entre as duas instituições. Leão XIII, na Encíclica Humanum genus, de 1884, reafirmou a interdição dos fiéis aderirem à Maçonaria e, em mais 225 documentos, reiterou até à saciedade esta condenação. O diagnóstico foi sempre o mesmo: são duas visões insanavelmente divergentes no que respeita a Deus, ao homem, à verdade e à liberdade. Também os papas actuais, nomeadamente o beato João Paulo II e Bento XVI, mantiveram o mesmo veredicto que, portanto, se deve considerar doutrina definitiva e irreformável da Igreja. Pelo menos enquanto a Igreja e a Maçonaria forem o que são.

3. Também, do ponto de vista canónico, não há lugar para dúvidas. O anterior Código, de 1917, previa a pena máxima, ou seja, a excomunhão automática, para o católico que se inscrevesse numa qualquer loja maçónica. O Código actual, de 1983, embora não imponha de forma imediata essa sanção, que contudo também não exclui, esclarece que um cristão que pertença à Maçonaria fica, ipso facto, em situação de pecado grave ou mortal e, em consequência, privado da comunhão sacramental.

4. Como entender, então, que alguém se afirme publicamente como católico e maçon? A expressão, contraditória nos seus termos, só admite duas possíveis explicações.

A primeira hipótese é a de que o dito crente ignore, de boa-fé, a doutrina da Igreja sobre o particular, bem como a natureza intrinsecamente anticristã da Maçonaria.

Alguns cristãos - crianças, analfabetos, etc. - talvez desconheçam esta incompatibilidade, mas seria estranho que entre os maçons, uma elite supostamente tão ilustrada, se desse uma tal ignorância. É, no mínimo, curioso que, em pleno séc. XXI, haja ainda intelectuais, como os ditos pedreiros-livres, que desconheçam uma doutrina reafirmada repetidamente, há quase três séculos, pela Igreja, e atestada por nada menos do que 598 declarações unânimes do seu magistério!

Se a boa-fé for autêntica e tão crassa a ignorância, o crente maçon é inocente de uma tal incoerência. Mas deixará de o ser se, esclarecido sobre a impossibilidade de pertencer às duas entidades, não deixar a Maçonaria.

5. A outra hipótese é a de que o cristão, que publicamente se diz maçon, aja de má-fé. Com efeito, um fiel que, conhecendo minimamente a doutrina cristã, adere consciente e voluntariamente a uma ideologia que sabe ininterrupta e fundadamente proibida por todos os papas, de fiel só tem o nome. De facto, um soldado, que desobedece a quase seiscentas ordens dos seus legítimos superiores, não é apenas um refractário, mas um desertor, ou um traidor. Talvez fosse pensando nestes tais «cristãos» que Paulo VI afirmou que o fumo de Satanás se infiltrou na Igreja de Deus...

Quem, de forma tão acintosa, desrespeita um mandato formal da máxima autoridade religiosa e disso faz público alarde, ofende gravemente a Igreja, que devia amar e servir. Aliás, estes «cristãos», que são tão solícitos no apoio à «sua» Maçonaria, nunca vêm a público defender a Igreja, ou o seu magistério, que amiúde contradizem. Não em vão Cristo disse que é pelas obras que se conhecem os seus verdadeiros discípulos e, ainda, que ninguém pode servir a dois senhores.

6. Talvez seja esta a prova que faltava para poder concluir, na verdade da caridade, que a Maçonaria - não obstante a eventual boa-fé, por ignorância invencível, de alguns dos seus membros - continua fiel, apesar das suas campanhas de desinformação e de branqueamento do seu passado, ao seu ideário anticristão e anticlerical.

Afinal de contas, «católico maçon» não é apenas uma contradição, mas uma dupla mentira: nem católico... nem pedreiro!

Porque é que o bebé há-de viver?


Pedro Vaz Patto








Muita polémica e indignação gerou a publicação de um artigo numa revista de ética médica (Journal of medical ethics), da autoria de Alberto Giubilini e Francesa Minerva, com o título O aborto pós- natal; porque é que o bebé há-de viver?. Nele se defende a tese de que é lícito matar um bebé recém-nascido. Não se fala em infanticídio, mas em aborto pós- natal, porque o bebé recém-nascido, como o embrião e o feto, não tem o estatuto moral de pessoa. Não basta ser humano para ter direito a viver. Só tem o estatuto de pessoa e o direito a viver quem é capaz de atribuir valor à sua existência porque formula objetivos («aims») para o futuro dessa existência e tem, por isso, interesse em viver. Quem não tem essa capacidade (como sucede com o recém-nascido, mas já não com alguns animais não humanos), não sofre qualquer privação ou dano quando morre. Pode um recém-nascido sofrer um dano quando a morte lhe causa dor. E pode ele ter algum valor moral quando os pais querem que ele viva. Mas se isso não acontecer, nada obsta a que se mate um recém-nascido, não só quando ele padeça de alguma deficiência (o que já sucede na Holanda, onde é, nesse caso, lícita a chamada eutanásia pós-natal) e a vida possa ser, supostamente, para ele um fardo; mas também quando ele, por qualquer motivo, represente um fardo, psicológico e económico, para os pais e a sociedade. Os interesses destes (pessoas actuais) prevalecem sempre sobre os de quem ainda não é pessoa e só o será potencialmente. Nas primeiras semanas após o nascimento, a criança não tem capacidade de ter objectivos («aims») para a sua vida. E mesmo quando, pouco depois, começa a ter essa capacidade de forma incipiente, esta ainda deve ceder perante a capacidade que têm os adultos de formular planos desenvolvidos para as suas próprias vidas. A morte da criança poderá, para os seus pais, ser menos traumatizante do que a autorização de adopção, porque neste caso a aceitação da realidade da perda definitiva pode ser mais difícil, pois não há a certeza da irreversibilidade e permanece a esperança do retorno. Quando assim for, é preferível matar a criança.

A tese não é inteiramente inovadora (já havia sido defendida pelos influentes académicos Michael Tooley e Peter Singer), mas ainda não tinha sido exposta com tanta crueza, nem levada a consequências que muitos considerarão tão arrepiantes.

Deve reconhecer-se a coerência da tese: entre o embrião, o feto e o recém- nascido não há uma diferença de natureza, qualitativa ou substancial. A criança antes e depois do nascimento não é substancialmente diferente. Estamos apenas perante fases distintas de um processo de evolução contínuo. Mas isso deve servir para estender a ilegitimidade do infanticídio à ilegitimidade do aborto, não para estender a pretensa legitimidade do aborto à pretensa legitimidade de infanticídio. Até porque também não há saltos de qualidade no processo de evolução contínuo que vai do nascimento à idade adulta.

A repulsa que espontaneamente tem causado esta tese (que revela como, apesar de tudo, permanece viva uma sensibilidade marcada pela cultura judaico-cristã e valores humanistas) quase dispensaria a tentativa de a refutar no plano racional. Estamos perante uma tese que é, antes de mais, contra-intuitiva. Mas não deixa de ser útil proceder a tal refutação.

Em coerência, a tese levaria ao absurdo de considerar que a perda da vida (como de outros direitos) não representa um dano para quem não tem consciência do mesmo, por estar temporariamente inconsciente (a dormir, por exemplo). Os autores do estudo respondem à objecção dizendo que nestes casos não há uma verdadeira incapacidade, mas uma simples privação temporária. Só que não se compreende a relevância dessa diferença. Será diferente ter a possibilidade de readquirir a consciência umas horas depois (como sucede com quem está a dormir), ou de a vir a adquirir alguns meses depois (como sucede com um recém-nascido)?

Ao pôr termo à vida de um feto ou de um recém-nascido não se está a privar estes de um interesse explícito e actual em viver, mas está-se a impedir (o que não é menos grave) que eles venham a adquirir esse interesse no futuro, como viriam a adquirir se não fosse impedido o seu natural desenvolvimento (nenhum de nós estaria hoje vivo se tivesse sido impedido esse natural desenvolvimento, o que representaria um inegável dano). A esta objecção, respondem os autores do estudo com um raciocínio falacioso, que assenta numa petição de princípio: dizem que quem ainda não tem o estatuto de pessoa (o que está por demonstrar), quem ainda não existe (o que não é seguramente verdade), não pode sofrer qualquer dano, e, por isso, os interesses das pessoas actuais prevalecem sempre sobre os interesses das pessoas potenciais. Mas o embrião, o feto e o recém-nascido, não existem apenas em potência, são já actuais, embora não tenham ainda actualizadas todas as suas potencialidades (o que sempre se verifica com a pessoa até à idade adulta, e até ao fim da vida).

A vida é o maior dos bens humanos e o primeiro dos direitos humanos, o pressuposto de todos os outros bens e de todos os outros direitos. Este é um dado objectivo. É assim mesmo que o seu titular não tenha consciência disso e disso não se aperceba. Se isso sucede, tal verifica-se porque há alguma debilidade devida à idade (do embrião, do feto, do recém-nascido, da criança), à doença ou à deficiência em graus extremos. Não é por causa de uma qualquer incapacidade ou debilidade que a pessoa perde dignidade, valor moral ou direitos. Pelo contrário, é precisamente nos casos de maior debilidade ou incapacidade que mais se justifica eticamente o cuidado dos outros e a tutela da ordem jurídica. Quem mais precisa de ser defendido é quem não é capaz de se defender por si próprio. É nesses casos que vale especialmente a advertência evangélica sobre o amor ao «mais pequeno dos meus irmãos». E também a regra de ouro comum a todas as religiões e correntes éticas laicas: «não faças aos outros o que não gostarias que te fizessem a ti» (a ti, que já fostes um feto ou um recém-nascido e a quem ninguém impediu o natural desenvolvimento). Ou a advertência da nota, publicada a propósito deste estudo, do Centro de Bioética da Universidade Católica italiana del Sacro Cuore: «se não formos capazes de tutelar quem não é capaz de se auto-tutelar poremos fim à própria ideia de democracia tal como a reconstruímos depois das violências totalitárias».

Petição online


Acabei de ler e assinar esta petição online: 

«Em defesa do tratamento adequado de todos os doentes com Esclerose Múltipla em Portugal» 
Se também quiser subscrever:   

Agradeço a bondade de a divulgar

Obrigado.
Infovitae

segunda-feira, 12 de março de 2012

Qual é a presa favorita do diabo?


Entrevista em vídeo ao Pe. Amorth, exorcista

O Pe Gabriele Amorth, exorcista da diocese de Roma, luta todos os dias directamente com o diabo.

A sua experiência está contida no livro «O último exorcista» escrito juntamento com o jornalista de Foglio, Paolo Rodari.

Numa entrevista em vídeo concedida a tempi.it , o padre Amorth explica as razões do mal e como combatê-lo: «O diabo move-se na dissimulação, evita ser descoberto porque Jesus diz no Evangelho: "Quem não é comigo é contra mim ". Não há terceira via: quem não está com Cristo é contra Cristo ».

Qual é a presa favorita do diabo?

«O diabo tenta todos, sem excepção. Na verdade quem tem mais poder é uma presa tentadora para Satanás. Mesmo na hierarquia da Igreja ninguém está a salvo da tentação e não descarto que alguém tenha caído.»

Mas não me escandalizo, porque a Igreja avança pela força da presença de Cristo e sempre se fará sentir o odor de enxofre na casa do Senhor.

O diabo tenta as pessoas no topo, porque assim não pesca à linha, mas pesca com rede: líderes governamentais, responsáveis da economia, do desporto, do entretenimento e todos os sacerdotes; imagine-se como lhe há-de interessar também o Vaticano, cume do antisatanismo".

Um papel importante na luta contra Satanás assumiu o pontificado de Karol Wojtyla, «O diabo disse-me um dia que João Paulo II era péssimo, mas o Papa actual era pior. As palavras do diabo foram um elogio para Bento XVI. »

O exorcista da diocese de Roma, sobre um diálogo com o diabo, relata: «Se fôssemos visíveis aos olhos, escureceríamos o sol», disse Satanás, «mas - diz o padre Amorth - os anjos são muito mais, são milhões e vencem a presença satânica. Nesta luta, devemos fazer a nossa parte. Jesus claramente diz no Evangelho: precisamos de fé ».

O exorcista recomenda a aproximação ao sacramento da confissão: «Os pecados, depois da Reconciliação, são destruídos, deixam de existir. Acontece por vezes que o diabo, durante os exorcismos, diz a lista das faltas das pessoas presentes, mas não pode dizer os erros já confessados, porque deles já não há nenhum vestígio, Deus, na sua misericórdia, cancelou-os.»

Entrevista em:

«Gostam de ocupar o primeiro lugar
nos banquetes e os primeiros assentos
nas sinagogas.»



Mateus 23,1-12.

Naquele tempo, Jesus falou assim à multidão e aos seus discípulos:
«Os doutores da Lei e os fariseus instalaram-se na cátedra de Moisés.
Fazei, pois, e observai tudo o que eles disserem, mas não imiteis as suas obras, pois eles dizem e não fazem.
Atam fardos pesados e insuportáveis e colocam-nos aos ombros dos outros, mas eles não põem nem um dedo para os deslocar.
Tudo o que fazem é com o fim de se tornarem notados pelos homens. Por isso, alargam as filactérias e alongam as orlas dos seus mantos.
Gostam de ocupar o primeiro lugar nos banquetes e os primeiros assentos nas sinagogas.
Gostam das saudações nas praças públicas e de serem chamados 'mestres’ pelos homens.
Quanto a vós, não vos deixeis tratar por 'mestres’, pois um só é o vosso Mestre, e vós sois todos irmãos.
E, na terra, a ninguém chameis 'Pai’, porque um só é o vosso 'Pai’: aquele que está no Céu.
Nem permitais que vos tratem por 'doutores’, porque um só é o vosso 'Doutor’: Cristo.
O maior de entre vós será o vosso servo.
Quem se exaltar será humilhado e quem se humilhar será exaltado.

Papa lamenta «analfabetismo religioso»


Visita de Bento XVI à paróquia romana de São João Baptista de La Salle

Bento XVI afirmou hoje em Roma que os católicos devem empenhar-se para “superar o analfabetismo religioso” que classificou como um dos maiores problemas da sociedade actual.

O Papa falava na visita à paróquia de São João Baptista de La Salle, na região sul da capital italiana, o seu primeiro compromisso público após uma semana de retiro quaresmal, no Vaticano.

Manifestando «grande alegria» por ver tantas crianças nesta comunidade católica, o Papa recordou, na homilia da missa a que presidiu, a missão de cada família na educação para a fé.

O Papa centrou a sua reflexão nas leituras bíblicas proferidas na celebração, afirmando que Deus «não quer a morte, mas a vida» e que cada pessoa está «no coração» desse mesmo Deus, que ofereceu o seu filho Jesus à humanidade.

«Ninguém nos poderá separar do seu imenso amor», declarou.

Bento XVI falou ainda de uma «estrada de amor luminoso que vence as trevas», através do dom total de si mesmo.

«É o êxodo definitivo que nos abre a porta para a liberdade e a novidade da ressurreição, da salvação do mal; temos necessidade disso no nosso caminho quotidiano, muitas vezes marcado também pela escuridão do mal», disse ainda.

Já de regresso ao Vaticano, para a recitação da oração do Angelus, o Papa regressou a este tema, referindo que «Jesus é a noite que nunca se apaga, mesmo na noite mais escura».

«Caros irmãos e irmãs, todos nós temos necessidade de luz interior para superar as provas da vida», observou, perante milhares de peregrinos reunidos na Praça de São Pedro.

Em francês, Bento XVI desafiou os presentes a não terem «vergonha» de ser cristãos e a viver a Quaresma, tempo de preparação para a Páscoa que a Igreja Católica está a assinalar, em todos os seus «lugares de vida».

Antologia de textos
de Maria de Lourdes Pintasilgo


Heduíno Gomes



A esquerda que actua no seio da Igreja portuguesa procedeu à edição de uma antologia de textos de um dos seus mitos, Maria de Lourdes Pintasilgo (1930-2004), «um peixinho vermelho em água benta», como Salazar a qualificou.

Esta antologia tem prefácio de Marcelo Rebelo de Sousa e posfácio de Maria João Seixas, e é apresentada por Maria de Belém. O Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura e a agência Ecclesia participam na festa.

Registe-se.

Onde está a surpresa?


Nuno Serras Pereira










Pela forte bátega de mensagens-e, de gente estupefacta e «incrédula», que recebi a propósito da notícia «Matar um bebé é o mesmo que fazer um aborto», dizem estudiosos, dei como infrutífero o penosíssimo trabalho a favor do Evangelho da vida a que me tenho dedicado progressiva e arduamente desde há trinta e quatro anos. Não saberei dizer se vos parece pouco e uma sem-razão quer o empenho quer o queixume. Por isso acrescentarei que estar continuamente estudando, escrevendo, alertando, insistindo, rezando, pregando, explicando, teimando, descrevendo, coisas tão sórdidas como o aborto provocado, a matança de embriões humanos e eutanásia, contra quase todos, a condenação de muitos, a incompreensão geral e a marginalização sistemática, é uma agonia, uma exaustão que me deixa literalmente esbodegado. Não que me arrependa ou sequer o lamente, de modo nenhum, tanto mais que no meio de tanta cruz lá se encontra a ressurreição e o amparo fiel de uma porção significativa de amigos formidáveis.


Mas custa a crer que tantos não tenham entendido que a morte provocada de uma pessoa no estado embrionário, fetal, recém-nascida, criança, adolescente, adulta, anciã, saudável, enferma, deficiente ou moribunda constitui, objectivamente, um assassinato. E que a gravidade de tal acto se torna tanto maior quanto mais vulnerável é a pessoa eliminada. Por isso, como lembra o Beato João Paulo II, o Vaticano II designa como crimes abomináveis quer o infanticídio quer o aborto. Mas, para que entendamos bem não somente a semelhança entre um e outro, mas também a diferença no grau de gravidade logo afirma sem titubeações: «A gravidade moral do aborto provocado aparece em toda a sua verdade, quando se reconhece que se trata de um homicídio e, particularmente, quando se consideram as circunstâncias específicas que o qualificam. A pessoa eliminada é um ser humano que começa a desabrochar para a vida, isto é, o que de mais inocente, em absoluto, se possa imaginar: nunca poderia ser considerado um agressor, menos ainda um injusto agressor! É frágil, inerme (indefeso, desarmado), e numa medida tal que o deixa privado inclusive daquela forma mínima de defesa constituída pela força suplicante dos gemidos e do choro do recém-nascido. Está totalmente entregue à protecção e aos cuidados daquela que o traz no seio. E todavia, às vezes, é precisamente ela, a mãe, quem decide e pede a sua eliminação, ou até a provoca.» (João Paulo II, Evangelium vitae, 58). Daqui a conclusão: «De entre todos os crimes que o homem pode realizar contra a vida, o aborto provocado apresenta características que o tornam particularmente perverso e abominável.» (Idem). Torno a repetir, como já o fiz num texto anterior, que isto foi escrito por um Papa que antes de o ser passou pelos terrores e horrores quer do nazismo quer do comunismo.

Constitui para mim uma enorme perplexidade como, aqui em Portugal, se branqueia e se censura esta Encíclica que João Paulo II considerava central no seu Magistério: «Desejo, antes de tudo, agradecer … o facto de terem pensado e organizado esta Jornada comemorativa do quinto aniversário da publicação da Encíclica Evangelium vitae. … Documento, que considero central no conjunto do Magistério do meu Pontificado (sublinhado meu) e em ideal continuidade com a Encíclica Humanae vitae do Papa Paulo VI, de venerada memória.» (João Paulo II, Discurso no 5º aniversário da Evangelium Vitae).

Quantas conferências, entrevistas, palestras, reportagens, livros sobre este Papa e o seu Pontificado, realizadas pelas mais graúdas sumidades da Igreja em Portugal e nem uma palavra, uma referência, uma atenção a este ponto nuclear do seu Magistério. A Humanae vitae e a Evangelium vitae geram paralisia mental nesses Prelados e Fiéis Leigos subidamente qualificados.

Em verdade vos digo que a não haver intervenção Divina não tardará muito a termos professores na ucp (universidade católica portuguesa) e comentadores na rr (rádio renascença) que advogam o infanticídio, o eugenismo, a eutanásia, o suicídio assistido, como hoje lá temos os que propagandam o aborto, a selecção embrionária, a clonagem e outras atrocidades ignominiosas.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Deus maiúsculo ou jornalismo minúsculo?


P. Gonçalo Portocarrero de Almada










Num artigo publicado recentemente num jornal de referência, diz-se que Deus não merece maiúscula, porque mais não é do que um substantivo masculino. Salvo melhor opinião, Deus é, na realidade, um nome próprio, como Moisés, Jesus ou Maomé. O correspondente substantivo abstracto é «divindade» que, esse sim, se pode grafar com minúscula. Mas não Deus, que é alguém e não alguma coisa, uma entidade real subjectiva e não um objecto, nem muito menos uma mera ideia ou vaga suposição.

Não obstante a despromoção divina, admite-se nesse mesmo texto o uso da maiúscula quando o contexto o exija, ou seja, quando se citam crentes ou para eles se destina o texto, mas não quando quem escreve é assumidamente ateu ou escreve para não-crentes, em cujo caso deve prevalecer a minúscula. De adoptar este relativismo, a grafia deverá corresponder ao grau de adesão à realidade significada. Poder-se-ia assim enriquecer a sabedoria popular com mais um provérbio: diz-me que maiúsculas escreves e dir-te-ei quem és!

Se a descrença do jornalista justifica o uso da minúscula no santo nome de Deus, é óbvio que se o dito não acreditar no Butão, nem no Burkina Faso, países que suponho que nunca terá visto, como nunca viu Deus, também deverá escrever com minúsculas as iniciais desses países, não menos abstractos para o seu entendimento do que a sua muito abstracta noção de Deus.

Se pega a moda de uma escrita personalizada à medida dos caprichos do freguês, os monárquicos deverão escrever em minúsculas as iniciais dos nomes dos presidentes da República; os ateus deverão fazer o mesmo com os nomes dos santos; etc., o que permitirá a milagrosa multiplicação da nossa língua: português-republicano, português-monárquico, português-cristão, português-pagão, português-comunista, português-fascista, etc.

A favor desta esquizofrenia ortográfica, invoca-se muito despropositadamente um poeta. Esquece-se, contudo, que não colhe aplicar ao jornalismo as regras que são próprias da escrita literária pois, caso contrário, as crónicas dos jornais deveriam também rimar e cumprir os outros cânones da poética. O jornalista está para o facto relatado como o fotógrafo para a realidade retratada: comparar-se aquele com o literato é tão absurdo como permitir ao retratista as geniais divagações de um Picasso.

Como convém a um texto muito politicamente correcto, apela-se à laicidade para fundamentar um pretenso direito a não acreditar em Deus. É evidente que qualquer cidadão tem todo o direito de acreditar, ou não, em quem quiser, mas não de impor as suas crenças ou descrenças.

Ou seja, mesmo não concordando com quem subscreve tão peregrinas teses, não me é lícito desrespeitar o seu nome, nomeadamente grafando-o com minúsculas, porque uma tal atitude não releva uma legítima expressão de são pluralismo, mas um insulto à dignidade da pessoa referida. O mesmo se diga, por maioria de razão, do nome de Deus: o desrespeito ortográfico não é mais do que uma gratuita ofensa ao próprio e a quantos n’Ele crêem. Essa opção gráfica não se funda na laicidade, mas na intolerância de quem impõe aos outros as suas próprias opiniões ideológicas, porque é incapaz de aceitar e respeitar a diferença. O dogmatismo deste laicismo, que mais não é do que a expressão de uma ignorância – pois a descrença é um não-conhecimento – não é apenas uma ofensa a Deus e à religião, mas também à democracia e à liberdade.

Segundo o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, um jornalista é uma «pessoa que trabalha no domínio da informação […] e cuja actividade consiste em redigir artigos, fazer entrevistas, moderar debates, participar na elaboração dos jornais». Ao jornalista pede-se, portanto, que informe com verdade e objectividade sobre a realidade social, política, religiosa, etc., mas que não se disfarce de improvisado teólogo ou pseudo-filósofo de miudezas, sob pena de ofender o Deus maiúsculo e de se converter num jornalista minúsculo.

Mensagem do Senhor


Ismael Ferreira
O Senhor disse-me, a mim, seu servo, de meu nome Joaquim Ismael Vital Ferreira, o seguinte: vai e fala a esta casa rebelde:

Ai do coração arrogante e do olhar altivo.

Ai dos que decretam leis injustas e dos que escrevem hipocrisia para prejudicarem os pobres em tribunal e para arrebatarem o direito dos aflitos do povo.

O Senhor dos Exércitos arruinará os que são gordos e debaixo da vossa glória ateará um incêndio, um fogo que consumirá os espinheiros.

O Senhor desbastará os ramos com violência, e os de alta estatura serão cortados, e os altivos serão abatidos.

Mas o Senhor diz: não temas meu povo quando a vara os ferir porque dai a pouco se consumará a minha indignação e a minha ira, mas o Senhor será a fortaleza do pobre e a fortaleza do necessitado na sua angústia.

Os teus príncipes são rebeldes e companheiros de ladrões.

Que tendes vós que afligir meu povo, moer as faces do pobre e enganar os quietos?

Ai dos que armam laços ao que repreende à porta e os que põem de parte o justo sem motivo

Se consumirão os que zombam e todos os que se dão a fazer o mal.

Ai dos filhos rebeldes, que tomaram conselho, mas não de mim .

Ai do ganancioso, não mais se dirá que é generoso.

Ai do egoísta que procura destruir os mansos com palavras falsas.

O que fareis no dia da assolação que há-de vir? Onde conseguireis socorro, onde deixareis a vossa glória sem que cada um se abata entre os presos e caia entre os mortos?

Eis que o Nome do Senhor vem de longe ardendo na sua fúria; os seus lábios estão cheios de indignação, e a sua língua é como um fogo consumidor; e a sua respiração é como um rio transbordante que chega até ao pescoço, a fim de peneirar as nações com peneira de vaidade.

Deixem-se de empresas de imagem, deixem-se de dinheiros estranhos em fundações obscuras, deixem-se de apoios e subsídios a coisas inúteis, a marchas populares e não só, deixem-se de festas e preparem-se para guardar os recursos e apoiarem os aflitos e necessitados no tempo de miséria que aí vem. Deixem-se de avenças, ordenanças, homenagens e vaidades, deixem-se de maçonarias e ordens secretas pois plano é o caminho do justo. 

Ai dos que querem esconder o seu propósito do Senhor e fazem suas obras às escuras dizendo: ninguém nos conhece e quem nos vê?

Na cidade que pula de prazer o seu ruído cessará.

Sou o mensageiro do Senhor. Assim ele diz: agora me levantarei a mim mesmo, e os espinhos cortados arderão no fogo, os pecadores se assombrarão, o temor surpreenderá os hipócritas.

O que anda em justiça e fala com rectidão, que se afasta do ganho de opressões, que foge de todos os presentes, esse habitará nas alturas.

E não verá mais este povo de língua tão estranha que não se pode perceber.

A injustiça que reina em Portugal chegou ao Céu com estrondo e O Senhor ouviu o clamor do povo oprimido.

Mas venho dizer-vos: a indignação do Senhor está hoje sobre muitas nações, a sua espada se embriagará e os céus se enrolarão como se fossem um rolo.

O Senhor Deus quer que os governantes responsáveis sejam responsabilizados e devolvam o que furtaram nas costas do povo, sim, o Senhor está contabilizando prejuízos, senão morte e doença haverá sobre eles.

Assim diz o Senhor: Conheço as coisas que vos sobem ao espírito. Multiplicastes os vossos mortos nesta terra, destes ímpio conselho. A espada Eu trarei sobre vós, e vos entregarei na mão de estranhos, e exercerei os meus juízos entre vós e esta Terra não vos servirá de panela. E sabereis que eu sou o Senhor, porque nos meus estatutos não andastes.

Mas a um resto de vós darei um coração igual e um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra e vos darei um coração de carne, para que andem nos meus estatutos e guardem os meus juízos, e serão meu povo, e Eu serei o vosso maravilhoso sinal.

Uma voz de grande rumor virá da cidade, uma voz do templo, a voz do Senhor, que dá o pago aos seus inimigos.

Três abominações ofendem ao Senhor neste País além destas injustiças. O casamento homosexual. Pela porta de onde entrou deverá sair. As fundações intocadas que beneficiam os poderosos e os banqueiros que nada fazem para o desenvolvimento do País e apenas o roubam. Os preços dos combustíveis incomportáveis.

Três vezes ferirá o Senhor esta casa rebelde de governação. Três anos sem chuva sobre esta Terra. Doença e morte haverá nesta casa rebelde. E conflitos sociais haverá. Após os 3 anos saberão que o Senhor falou através de um mensageiro nesta Terra, com o braço estendido e a mão firme do Senhor.

Um alerta é dado. Haverá guerra. Não será longa, mas o suficiente para o preço dos combustíveis aumentar muito, e, se não forem contidos, a economia sucumbirá. Portugal deve ainda sair da Nato afim de que as suas acções em palco de guerra não sejam odiadas por Deus.

Ó Portugal, bendito és porque o Senhor enviou a ti, um mensageiro, e lhe diz: « diz a este povo que eu sou o Senhor e com ele sou, desbastarei os espinhos e darei frutos às suas árvores, derribarei o opressor, apascentarei os mansos e o liderarei à Terra Santa» onde diante do Senhor se dobrará todo o joelho.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Elba Ramalho: Testemunho a favor da Vida


    


Primeira República e Igreja Católica



O livro «Primeira República Portuguesa e Igreja Católica», de monsenhor João Gonçalves Gaspar, vai ser lançado a 8 de Março no salão nobre do Teatro Aveirense.

A investigação editada pela diocese de Aveiro, de que o autor é vigário geral, será apresentada às 18h30 pelo bispo do Porto, D. Manuel Clemente, que assina o prefácio.

Prefácio

Agradecemos a Monsenhor João Gonçalves Gaspar mais este trabalho histórico-religioso, de grande oportunidade e valia.

Mais este, porque vem de longe o seu interesse pela temática, bem evidenciado em vários e preenchidos escritos, com especial relevo para os três volumes que dedicou ao Bispo Lima Vidal. De grande oportunidade é o presente estudo, na esteira das comemorações do centenário da implantação da República, que deu azo a muitas publicações sobre o assunto.

Graças a estas publicações, temos hoje uma visão muito mais pormenorizada e circunstanciada do que sucedeu em Portugal nas primeiras décadas do século passado. Pormenorizada, porque se evidenciaram ou releram fontes fundamentais ou particulares que nem sempre apareciam, ou eram ignoradas do grande público; circunstanciada, porque essas mesmas leituras ou releituras, em geral serenas e equilibradas, souberam situar melhor os depoimentos e as intervenções dos protagonistas de então.

Também aqui este trabalho de Monsenhor Gaspar nos dá boas contribuições, com referências documentais que não conhecíamos ou precisavam de integração. E podemos dizer que o equilíbrio dos seus comentários coincide geralmente com o resultado geral das referidas publicações do centenário.

E é esta, muito especialmente, a sua valia. Não nos interessam ajustes de contas com o passado, mas ajustar o presente à sua memória mais correta. Memória que, mesmo sendo «colectiva», conjuga sempre realidades marcadamente pessoais. Quanto à liberdade e à responsabilidade, referem-se sempre a alguém, que pensou e agiu desta ou daquela maneira, por esta ou aquela razão e a partir desta ou daquela posição, motivada por estas ou aquelas influências.

Se isto é verdade em geral, muito mais o é no que à 1ª República concerne. Talvez nunca na história portuguesa se tenham entrechocado tantos, dentro de ideários mais próximos do que pareciam: – Quem não queria, por exemplo, «regenerar» Portugal, de 1820 a 1910 e ainda depois? - Não era isso mesmo que o hino adotado e ainda cantado pretendia, para «levantar hoje de novo o esplendor de Portugal»? Monárquicos ou republicanos, socialistas ou mesmo anarquistas, entre todos se aspirava a uma nova alvorada pátria. O problema estava em defini-la: - Voltando à monarquia tradicional, anterior a 1820-1834, ou aprofundando a constitucional, aliando melhor monarquia e democracia, como em Inglaterra e noutros reinos? - Com uma república municipalista e federal, como na Suíça, ou unitária e centralizada, para levar por diante as mudanças requeridas, vencendo resistências e oposições?

De tudo isto se falava e com tudo isto se esgrimia. Mais ainda quando a vontade de mudança ou alteração profunda das coisas consentia perspectivas demasiado distintas: - Importava retomar a «alma» portuguesa na sua conotação religiosa e católica, mesmo na aplicação social que o pontificado de Leão XIII (1878-1903) lhe dera, ou, muito pelo contrário, havia de se afastar de vez tal conotação, em obediência à marcha «positivista» da história, que reduzia cada vez mais a religião ao íntimo da consciência de cada um, sem qualquer transposição pública da crença?

E quanto ao Estado, na sua relação com a Igreja: - Devia continuar-se em regime público-eclesiástico, com a definição religiosa do país e a quase integração da vida eclesial na administração civil, ou, como o liberalismo católico pretendia desde os anos vinte em França e depois pela Europa e além dela, era necessário «libertar» a Igreja da tutela estatal, mesmo que tal levasse à «separação» das duas esferas?

Estas e outras polémicas eram muito transversais a todo o campo político, antes e depois de 1910. Havia no «movimento católico português», sobretudo depois de 1870, quem subscrevesse mais ou menos pontos do liberalismo católico; e houve no republicanismo triunfante quem defendesse a supervisão estatal da vida católica, como era o caso do próprio Afonso Costa e da «sua» Lei da Separação… Assim como houve no campo católico figuras importantes que, mesmo antes de 1910, insistiam na atenção às ciências e aos «progressos do século» (Sena Freitas, Gomes dos Santos e tantos mais).

Louvo e agradeço o trabalho de Monsenhor Gaspar, pelo manancial de factos e figuras que muito bem conjuga e pelo tom geral com que os aprecia e apresenta. É um bom contributo para nos revermos e perspectivarmos, em sociedade e Igreja.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

O Senhor disse a Moisés



«Fala a toda a comunidade dos filhos de Israel e diz-lhes: ‘Sede santos, porque Eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo.

Não furtareis, não mentireis, nem enganareis em detrimento de um compatriota.

Não jurareis falso, em meu nome; desse modo profanareis o nome do vosso Deus. Eu sou o Senhor.

Não roubarás nem furtarás nada ao teu próximo; o salário do jornaleiro não passará a noite em teu poder até à manhã seguinte.

Não insultarás um surdo, não colocarás tropeços diante de um cego. Teme o teu Deus. Eu sou o Senhor.

Não cometerás injustiças nos julgamentos. Não prejudicarás o pobre, nem serás complacente para com o poderoso. Julgarás o teu compatriota com imparcialidade.

Não semearás o mal no meio do teu povo. Não peças o sangue do teu próximo. Eu sou o Senhor.

Não odiarás o teu próximo no teu coração; mas repreende o teu compatriota para não caíres em pecado por causa dele.

Não te vingarás nem guardarás rancor aos filhos do teu povo, mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor.»

Levit. 19,1-2.11-18.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Conferência sobre o aborto

«Aborto, e Agora o que Fazer ?  Testemunhos e Caminhos»


Dia 1 de Março na Universidade Católica de Lisboa
Conferência organizada pelo Núcleo Universitário Católica Pró-Vida, com o apoio do Lobby Pela Vida.

Testemunhos de:
-- Dra. Maria Durão (do PAV -- Ponto de Apoio à Vida, que apoia a Vida incondicionalmente)
-- Dra. Leonor Ribeiro e Castro (da Missão Mãos Erguidas, que ajuda as mulheres na iminência de abortar a tomar consciência da verdade da Vida)
-- Dra. Maria José Vilaça (da Vinhas de Raquel, que ajuda as mulheres que já abortaram a superar a dor do arrependimento) .

Deus não é para o bico da ciência


Henrique Raposo

Antony Flew (1923-2010) não foi um ateu de garagem. Flew foi o Dawkins do século XX, o líder do ateísmo que se julgava legitimado pela ciência. É por isso que a sua conversão foi um acontecimento tão polémico. Deus existe é a explicação dessa polémica descoberta. O grande motor da mudança? A teoria do Big Bang. Steiner diz, algures em Gramáticas da Criação, que a teoria do Big Bang é a tradução científica do livro do Génesis. Flew navegou por águas similares. Para este filósofo britânico, a teoria do Big Bang fornece a prova científica para aquilo que São Tomás de Aquino considerava inacessível ao conceito de prova: o começo do universo. Enquanto pensou que o universo era apenas um espaço ilimitado mas atemporal (sem um começo), Flew encarou o dito universo como um conjunto de factos fechado e à mercê de uma ciência toda-poderosa. Mas tudo mudou com o Big Bang. Se o universo teve um começo, então, a pergunta é inevitável: o que produziu esse começo? Quem deu o primeiro pontapé na bola cósmica?

O que torna Flew num caso subversivo para o ateísmo hegemónico não é a mera conversão à ideia de Deus. A subversão está na forma, porque Flew chegou a Deus através da ciência, e não através da fé. Flew atingiu Deus através da física e da cosmologia. O ex-papa dos ateus pegou nos dados científicos, e Eureka: há um Deus subjacente à racionalidade da natureza e do universo. Tudo bem? Tudo mal. Deus não é um assunto científico. Deus não se prova ou desprova cientificamente. Deus é um salto de fé abraâmico, kierkegaardiano. Se Dawkins está errado, Flew também não está certo.

Sim, Dawkins tem direito ao seu ateísmo, mas já não tem direito a pensar que esse ateísmo tem certificado científico. A ciência não prova a não-existência de Deus. Deus é um assunto não-científico por excelência, porque Deus não está ao alcance do método científico. Mais: quando afirma que o seu ateísmo darwinista é a única resposta aceitável, Dawkins deixa de lado qualquer ceticismo em relação à sua própria teoria, acabando por esquecer que a ciência não anda à procura da verdade redentora. Todo o conhecimento científico assenta nesta arquitectura céptica: só podemos ter estabilidades teóricas, e nunca certezas teóricas; todas as teorias têm de ser falsificáveis, logo, todas as teorias são apenas possivelmente verdadeiras. Sem este mar de dúvidas, o espírito científico não sobrevive. Preso na fúria de negar Deus em nome da ciência, Dawkins acaba por desrespeitar a própria ciência.

Ora, se não prova a não-existência de Deus desejada por Dawkins, a ciência também não prova a existência de Deus. Flew diz que esta foi uma peregrinação da razão: «segui a razão até onde ela me levou. E ela levou-me a aceitar a existência de um Ser auto-existente, imutável, imaterial, omnipotente e omnisciente». Problema? Apesar das diferenças a jusante, Flew partilha com Dawkins um erro a montante: encara Deus como um desafio científico. Sucede que Deus e a fé não são assuntos empíricos, não são temas para o bico da ciência. Deus não se esconde na relação gravitacional entre planetas, mas na relação moral entre homens. Deus é um salto de fé ético, e não uma descoberta com tubos de ensaio. Flew percebeu que o ateísmo não era a resposta, mas teve medo de atravessar o deserto.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Olivença e a «Guerra das Laranjas»

José Ribeiro e Castro


A questão de Olivença é uma delicada pendência dormente nas relações luso-espanholas. É, não – era! Um alcaide «voluntarioso» do lado espanhol resolveu chutar o tema para as primeiras páginas dos jornais. E inevitavelmente para a primeira linha da política. Agora, procura dobrar a língua, mas o mal está feito e o seu gesto tem tudo menos de inocente.

Nos últimos anos, o ambiente melhorava: com apoio das autoridades regionais extremenhas, a autarquia de Olivença abrira-se à revelação das raízes portuguesas, recuperando e reafirmando traços identitários na toponímia histórica das ruas e em festivais anuais de matriz portuguesa. Simultaneamente, com algum pragmatismo, dos dois lados da fronteira, descobriam-se formas imaginosas de tornear dificuldades políticas, a fim de responder às necessidades das populações - por exemplo, no dossier de reabilitação de uma ponte de acesso à vila. Este desanuviamento revelava grande sentido prático e era um processo inteligente, que procurava andar para diante sem ferir o alto melindre político da questão. As autoridades locais e regionais espanholas pareciam interessadas em avivar a especial identidade de Olivença, até para a singularizar na região como pólo específico de procura turística, e circunscrevendo o processo a traços de identidade cultural, sem entrar obviamente pelo delicadíssimo - e potencialmente explosivo - plano político.

Estávamos nós postos neste sossego, quando o «enérgico» alcaide Bernardino Píriz aterra em Olivenza e resolve reabrir a Guerra de las Naranjas. Desde há semanas que éramos altertados para a provocação que congeminou. Até que o PS e autarcas locais do lado português - a meu ver, bem - resolveram agarrar no assunto. Além do disparate político monumental, a iniciativa do novo alcaide oliventino interrompe esforços positivos que os autarcas alentejanos vizinhos conhecem bem e estavam a acompanhar e apoiar.

«Festejar» a Guerra das Laranjas em Olivença é uma coisa de flagrante mau gosto. Seria um pouco como a Rainha Isabel II ir celebrar a Gibraltar o Jubileu de Diamante no próximo mês de Junho.