segunda-feira, 12 de março de 2012

«Gostam de ocupar o primeiro lugar
nos banquetes e os primeiros assentos
nas sinagogas.»



Mateus 23,1-12.

Naquele tempo, Jesus falou assim à multidão e aos seus discípulos:
«Os doutores da Lei e os fariseus instalaram-se na cátedra de Moisés.
Fazei, pois, e observai tudo o que eles disserem, mas não imiteis as suas obras, pois eles dizem e não fazem.
Atam fardos pesados e insuportáveis e colocam-nos aos ombros dos outros, mas eles não põem nem um dedo para os deslocar.
Tudo o que fazem é com o fim de se tornarem notados pelos homens. Por isso, alargam as filactérias e alongam as orlas dos seus mantos.
Gostam de ocupar o primeiro lugar nos banquetes e os primeiros assentos nas sinagogas.
Gostam das saudações nas praças públicas e de serem chamados 'mestres’ pelos homens.
Quanto a vós, não vos deixeis tratar por 'mestres’, pois um só é o vosso Mestre, e vós sois todos irmãos.
E, na terra, a ninguém chameis 'Pai’, porque um só é o vosso 'Pai’: aquele que está no Céu.
Nem permitais que vos tratem por 'doutores’, porque um só é o vosso 'Doutor’: Cristo.
O maior de entre vós será o vosso servo.
Quem se exaltar será humilhado e quem se humilhar será exaltado.

Papa lamenta «analfabetismo religioso»


Visita de Bento XVI à paróquia romana de São João Baptista de La Salle

Bento XVI afirmou hoje em Roma que os católicos devem empenhar-se para “superar o analfabetismo religioso” que classificou como um dos maiores problemas da sociedade actual.

O Papa falava na visita à paróquia de São João Baptista de La Salle, na região sul da capital italiana, o seu primeiro compromisso público após uma semana de retiro quaresmal, no Vaticano.

Manifestando «grande alegria» por ver tantas crianças nesta comunidade católica, o Papa recordou, na homilia da missa a que presidiu, a missão de cada família na educação para a fé.

O Papa centrou a sua reflexão nas leituras bíblicas proferidas na celebração, afirmando que Deus «não quer a morte, mas a vida» e que cada pessoa está «no coração» desse mesmo Deus, que ofereceu o seu filho Jesus à humanidade.

«Ninguém nos poderá separar do seu imenso amor», declarou.

Bento XVI falou ainda de uma «estrada de amor luminoso que vence as trevas», através do dom total de si mesmo.

«É o êxodo definitivo que nos abre a porta para a liberdade e a novidade da ressurreição, da salvação do mal; temos necessidade disso no nosso caminho quotidiano, muitas vezes marcado também pela escuridão do mal», disse ainda.

Já de regresso ao Vaticano, para a recitação da oração do Angelus, o Papa regressou a este tema, referindo que «Jesus é a noite que nunca se apaga, mesmo na noite mais escura».

«Caros irmãos e irmãs, todos nós temos necessidade de luz interior para superar as provas da vida», observou, perante milhares de peregrinos reunidos na Praça de São Pedro.

Em francês, Bento XVI desafiou os presentes a não terem «vergonha» de ser cristãos e a viver a Quaresma, tempo de preparação para a Páscoa que a Igreja Católica está a assinalar, em todos os seus «lugares de vida».

Antologia de textos
de Maria de Lourdes Pintasilgo


Heduíno Gomes



A esquerda que actua no seio da Igreja portuguesa procedeu à edição de uma antologia de textos de um dos seus mitos, Maria de Lourdes Pintasilgo (1930-2004), «um peixinho vermelho em água benta», como Salazar a qualificou.

Esta antologia tem prefácio de Marcelo Rebelo de Sousa e posfácio de Maria João Seixas, e é apresentada por Maria de Belém. O Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura e a agência Ecclesia participam na festa.

Registe-se.

Onde está a surpresa?


Nuno Serras Pereira










Pela forte bátega de mensagens-e, de gente estupefacta e «incrédula», que recebi a propósito da notícia «Matar um bebé é o mesmo que fazer um aborto», dizem estudiosos, dei como infrutífero o penosíssimo trabalho a favor do Evangelho da vida a que me tenho dedicado progressiva e arduamente desde há trinta e quatro anos. Não saberei dizer se vos parece pouco e uma sem-razão quer o empenho quer o queixume. Por isso acrescentarei que estar continuamente estudando, escrevendo, alertando, insistindo, rezando, pregando, explicando, teimando, descrevendo, coisas tão sórdidas como o aborto provocado, a matança de embriões humanos e eutanásia, contra quase todos, a condenação de muitos, a incompreensão geral e a marginalização sistemática, é uma agonia, uma exaustão que me deixa literalmente esbodegado. Não que me arrependa ou sequer o lamente, de modo nenhum, tanto mais que no meio de tanta cruz lá se encontra a ressurreição e o amparo fiel de uma porção significativa de amigos formidáveis.


Mas custa a crer que tantos não tenham entendido que a morte provocada de uma pessoa no estado embrionário, fetal, recém-nascida, criança, adolescente, adulta, anciã, saudável, enferma, deficiente ou moribunda constitui, objectivamente, um assassinato. E que a gravidade de tal acto se torna tanto maior quanto mais vulnerável é a pessoa eliminada. Por isso, como lembra o Beato João Paulo II, o Vaticano II designa como crimes abomináveis quer o infanticídio quer o aborto. Mas, para que entendamos bem não somente a semelhança entre um e outro, mas também a diferença no grau de gravidade logo afirma sem titubeações: «A gravidade moral do aborto provocado aparece em toda a sua verdade, quando se reconhece que se trata de um homicídio e, particularmente, quando se consideram as circunstâncias específicas que o qualificam. A pessoa eliminada é um ser humano que começa a desabrochar para a vida, isto é, o que de mais inocente, em absoluto, se possa imaginar: nunca poderia ser considerado um agressor, menos ainda um injusto agressor! É frágil, inerme (indefeso, desarmado), e numa medida tal que o deixa privado inclusive daquela forma mínima de defesa constituída pela força suplicante dos gemidos e do choro do recém-nascido. Está totalmente entregue à protecção e aos cuidados daquela que o traz no seio. E todavia, às vezes, é precisamente ela, a mãe, quem decide e pede a sua eliminação, ou até a provoca.» (João Paulo II, Evangelium vitae, 58). Daqui a conclusão: «De entre todos os crimes que o homem pode realizar contra a vida, o aborto provocado apresenta características que o tornam particularmente perverso e abominável.» (Idem). Torno a repetir, como já o fiz num texto anterior, que isto foi escrito por um Papa que antes de o ser passou pelos terrores e horrores quer do nazismo quer do comunismo.

Constitui para mim uma enorme perplexidade como, aqui em Portugal, se branqueia e se censura esta Encíclica que João Paulo II considerava central no seu Magistério: «Desejo, antes de tudo, agradecer … o facto de terem pensado e organizado esta Jornada comemorativa do quinto aniversário da publicação da Encíclica Evangelium vitae. … Documento, que considero central no conjunto do Magistério do meu Pontificado (sublinhado meu) e em ideal continuidade com a Encíclica Humanae vitae do Papa Paulo VI, de venerada memória.» (João Paulo II, Discurso no 5º aniversário da Evangelium Vitae).

Quantas conferências, entrevistas, palestras, reportagens, livros sobre este Papa e o seu Pontificado, realizadas pelas mais graúdas sumidades da Igreja em Portugal e nem uma palavra, uma referência, uma atenção a este ponto nuclear do seu Magistério. A Humanae vitae e a Evangelium vitae geram paralisia mental nesses Prelados e Fiéis Leigos subidamente qualificados.

Em verdade vos digo que a não haver intervenção Divina não tardará muito a termos professores na ucp (universidade católica portuguesa) e comentadores na rr (rádio renascença) que advogam o infanticídio, o eugenismo, a eutanásia, o suicídio assistido, como hoje lá temos os que propagandam o aborto, a selecção embrionária, a clonagem e outras atrocidades ignominiosas.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Deus maiúsculo ou jornalismo minúsculo?


P. Gonçalo Portocarrero de Almada










Num artigo publicado recentemente num jornal de referência, diz-se que Deus não merece maiúscula, porque mais não é do que um substantivo masculino. Salvo melhor opinião, Deus é, na realidade, um nome próprio, como Moisés, Jesus ou Maomé. O correspondente substantivo abstracto é «divindade» que, esse sim, se pode grafar com minúscula. Mas não Deus, que é alguém e não alguma coisa, uma entidade real subjectiva e não um objecto, nem muito menos uma mera ideia ou vaga suposição.

Não obstante a despromoção divina, admite-se nesse mesmo texto o uso da maiúscula quando o contexto o exija, ou seja, quando se citam crentes ou para eles se destina o texto, mas não quando quem escreve é assumidamente ateu ou escreve para não-crentes, em cujo caso deve prevalecer a minúscula. De adoptar este relativismo, a grafia deverá corresponder ao grau de adesão à realidade significada. Poder-se-ia assim enriquecer a sabedoria popular com mais um provérbio: diz-me que maiúsculas escreves e dir-te-ei quem és!

Se a descrença do jornalista justifica o uso da minúscula no santo nome de Deus, é óbvio que se o dito não acreditar no Butão, nem no Burkina Faso, países que suponho que nunca terá visto, como nunca viu Deus, também deverá escrever com minúsculas as iniciais desses países, não menos abstractos para o seu entendimento do que a sua muito abstracta noção de Deus.

Se pega a moda de uma escrita personalizada à medida dos caprichos do freguês, os monárquicos deverão escrever em minúsculas as iniciais dos nomes dos presidentes da República; os ateus deverão fazer o mesmo com os nomes dos santos; etc., o que permitirá a milagrosa multiplicação da nossa língua: português-republicano, português-monárquico, português-cristão, português-pagão, português-comunista, português-fascista, etc.

A favor desta esquizofrenia ortográfica, invoca-se muito despropositadamente um poeta. Esquece-se, contudo, que não colhe aplicar ao jornalismo as regras que são próprias da escrita literária pois, caso contrário, as crónicas dos jornais deveriam também rimar e cumprir os outros cânones da poética. O jornalista está para o facto relatado como o fotógrafo para a realidade retratada: comparar-se aquele com o literato é tão absurdo como permitir ao retratista as geniais divagações de um Picasso.

Como convém a um texto muito politicamente correcto, apela-se à laicidade para fundamentar um pretenso direito a não acreditar em Deus. É evidente que qualquer cidadão tem todo o direito de acreditar, ou não, em quem quiser, mas não de impor as suas crenças ou descrenças.

Ou seja, mesmo não concordando com quem subscreve tão peregrinas teses, não me é lícito desrespeitar o seu nome, nomeadamente grafando-o com minúsculas, porque uma tal atitude não releva uma legítima expressão de são pluralismo, mas um insulto à dignidade da pessoa referida. O mesmo se diga, por maioria de razão, do nome de Deus: o desrespeito ortográfico não é mais do que uma gratuita ofensa ao próprio e a quantos n’Ele crêem. Essa opção gráfica não se funda na laicidade, mas na intolerância de quem impõe aos outros as suas próprias opiniões ideológicas, porque é incapaz de aceitar e respeitar a diferença. O dogmatismo deste laicismo, que mais não é do que a expressão de uma ignorância – pois a descrença é um não-conhecimento – não é apenas uma ofensa a Deus e à religião, mas também à democracia e à liberdade.

Segundo o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, um jornalista é uma «pessoa que trabalha no domínio da informação […] e cuja actividade consiste em redigir artigos, fazer entrevistas, moderar debates, participar na elaboração dos jornais». Ao jornalista pede-se, portanto, que informe com verdade e objectividade sobre a realidade social, política, religiosa, etc., mas que não se disfarce de improvisado teólogo ou pseudo-filósofo de miudezas, sob pena de ofender o Deus maiúsculo e de se converter num jornalista minúsculo.

Mensagem do Senhor


Ismael Ferreira
O Senhor disse-me, a mim, seu servo, de meu nome Joaquim Ismael Vital Ferreira, o seguinte: vai e fala a esta casa rebelde:

Ai do coração arrogante e do olhar altivo.

Ai dos que decretam leis injustas e dos que escrevem hipocrisia para prejudicarem os pobres em tribunal e para arrebatarem o direito dos aflitos do povo.

O Senhor dos Exércitos arruinará os que são gordos e debaixo da vossa glória ateará um incêndio, um fogo que consumirá os espinheiros.

O Senhor desbastará os ramos com violência, e os de alta estatura serão cortados, e os altivos serão abatidos.

Mas o Senhor diz: não temas meu povo quando a vara os ferir porque dai a pouco se consumará a minha indignação e a minha ira, mas o Senhor será a fortaleza do pobre e a fortaleza do necessitado na sua angústia.

Os teus príncipes são rebeldes e companheiros de ladrões.

Que tendes vós que afligir meu povo, moer as faces do pobre e enganar os quietos?

Ai dos que armam laços ao que repreende à porta e os que põem de parte o justo sem motivo

Se consumirão os que zombam e todos os que se dão a fazer o mal.

Ai dos filhos rebeldes, que tomaram conselho, mas não de mim .

Ai do ganancioso, não mais se dirá que é generoso.

Ai do egoísta que procura destruir os mansos com palavras falsas.

O que fareis no dia da assolação que há-de vir? Onde conseguireis socorro, onde deixareis a vossa glória sem que cada um se abata entre os presos e caia entre os mortos?

Eis que o Nome do Senhor vem de longe ardendo na sua fúria; os seus lábios estão cheios de indignação, e a sua língua é como um fogo consumidor; e a sua respiração é como um rio transbordante que chega até ao pescoço, a fim de peneirar as nações com peneira de vaidade.

Deixem-se de empresas de imagem, deixem-se de dinheiros estranhos em fundações obscuras, deixem-se de apoios e subsídios a coisas inúteis, a marchas populares e não só, deixem-se de festas e preparem-se para guardar os recursos e apoiarem os aflitos e necessitados no tempo de miséria que aí vem. Deixem-se de avenças, ordenanças, homenagens e vaidades, deixem-se de maçonarias e ordens secretas pois plano é o caminho do justo. 

Ai dos que querem esconder o seu propósito do Senhor e fazem suas obras às escuras dizendo: ninguém nos conhece e quem nos vê?

Na cidade que pula de prazer o seu ruído cessará.

Sou o mensageiro do Senhor. Assim ele diz: agora me levantarei a mim mesmo, e os espinhos cortados arderão no fogo, os pecadores se assombrarão, o temor surpreenderá os hipócritas.

O que anda em justiça e fala com rectidão, que se afasta do ganho de opressões, que foge de todos os presentes, esse habitará nas alturas.

E não verá mais este povo de língua tão estranha que não se pode perceber.

A injustiça que reina em Portugal chegou ao Céu com estrondo e O Senhor ouviu o clamor do povo oprimido.

Mas venho dizer-vos: a indignação do Senhor está hoje sobre muitas nações, a sua espada se embriagará e os céus se enrolarão como se fossem um rolo.

O Senhor Deus quer que os governantes responsáveis sejam responsabilizados e devolvam o que furtaram nas costas do povo, sim, o Senhor está contabilizando prejuízos, senão morte e doença haverá sobre eles.

Assim diz o Senhor: Conheço as coisas que vos sobem ao espírito. Multiplicastes os vossos mortos nesta terra, destes ímpio conselho. A espada Eu trarei sobre vós, e vos entregarei na mão de estranhos, e exercerei os meus juízos entre vós e esta Terra não vos servirá de panela. E sabereis que eu sou o Senhor, porque nos meus estatutos não andastes.

Mas a um resto de vós darei um coração igual e um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra e vos darei um coração de carne, para que andem nos meus estatutos e guardem os meus juízos, e serão meu povo, e Eu serei o vosso maravilhoso sinal.

Uma voz de grande rumor virá da cidade, uma voz do templo, a voz do Senhor, que dá o pago aos seus inimigos.

Três abominações ofendem ao Senhor neste País além destas injustiças. O casamento homosexual. Pela porta de onde entrou deverá sair. As fundações intocadas que beneficiam os poderosos e os banqueiros que nada fazem para o desenvolvimento do País e apenas o roubam. Os preços dos combustíveis incomportáveis.

Três vezes ferirá o Senhor esta casa rebelde de governação. Três anos sem chuva sobre esta Terra. Doença e morte haverá nesta casa rebelde. E conflitos sociais haverá. Após os 3 anos saberão que o Senhor falou através de um mensageiro nesta Terra, com o braço estendido e a mão firme do Senhor.

Um alerta é dado. Haverá guerra. Não será longa, mas o suficiente para o preço dos combustíveis aumentar muito, e, se não forem contidos, a economia sucumbirá. Portugal deve ainda sair da Nato afim de que as suas acções em palco de guerra não sejam odiadas por Deus.

Ó Portugal, bendito és porque o Senhor enviou a ti, um mensageiro, e lhe diz: « diz a este povo que eu sou o Senhor e com ele sou, desbastarei os espinhos e darei frutos às suas árvores, derribarei o opressor, apascentarei os mansos e o liderarei à Terra Santa» onde diante do Senhor se dobrará todo o joelho.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Elba Ramalho: Testemunho a favor da Vida


    


Primeira República e Igreja Católica



O livro «Primeira República Portuguesa e Igreja Católica», de monsenhor João Gonçalves Gaspar, vai ser lançado a 8 de Março no salão nobre do Teatro Aveirense.

A investigação editada pela diocese de Aveiro, de que o autor é vigário geral, será apresentada às 18h30 pelo bispo do Porto, D. Manuel Clemente, que assina o prefácio.

Prefácio

Agradecemos a Monsenhor João Gonçalves Gaspar mais este trabalho histórico-religioso, de grande oportunidade e valia.

Mais este, porque vem de longe o seu interesse pela temática, bem evidenciado em vários e preenchidos escritos, com especial relevo para os três volumes que dedicou ao Bispo Lima Vidal. De grande oportunidade é o presente estudo, na esteira das comemorações do centenário da implantação da República, que deu azo a muitas publicações sobre o assunto.

Graças a estas publicações, temos hoje uma visão muito mais pormenorizada e circunstanciada do que sucedeu em Portugal nas primeiras décadas do século passado. Pormenorizada, porque se evidenciaram ou releram fontes fundamentais ou particulares que nem sempre apareciam, ou eram ignoradas do grande público; circunstanciada, porque essas mesmas leituras ou releituras, em geral serenas e equilibradas, souberam situar melhor os depoimentos e as intervenções dos protagonistas de então.

Também aqui este trabalho de Monsenhor Gaspar nos dá boas contribuições, com referências documentais que não conhecíamos ou precisavam de integração. E podemos dizer que o equilíbrio dos seus comentários coincide geralmente com o resultado geral das referidas publicações do centenário.

E é esta, muito especialmente, a sua valia. Não nos interessam ajustes de contas com o passado, mas ajustar o presente à sua memória mais correta. Memória que, mesmo sendo «colectiva», conjuga sempre realidades marcadamente pessoais. Quanto à liberdade e à responsabilidade, referem-se sempre a alguém, que pensou e agiu desta ou daquela maneira, por esta ou aquela razão e a partir desta ou daquela posição, motivada por estas ou aquelas influências.

Se isto é verdade em geral, muito mais o é no que à 1ª República concerne. Talvez nunca na história portuguesa se tenham entrechocado tantos, dentro de ideários mais próximos do que pareciam: – Quem não queria, por exemplo, «regenerar» Portugal, de 1820 a 1910 e ainda depois? - Não era isso mesmo que o hino adotado e ainda cantado pretendia, para «levantar hoje de novo o esplendor de Portugal»? Monárquicos ou republicanos, socialistas ou mesmo anarquistas, entre todos se aspirava a uma nova alvorada pátria. O problema estava em defini-la: - Voltando à monarquia tradicional, anterior a 1820-1834, ou aprofundando a constitucional, aliando melhor monarquia e democracia, como em Inglaterra e noutros reinos? - Com uma república municipalista e federal, como na Suíça, ou unitária e centralizada, para levar por diante as mudanças requeridas, vencendo resistências e oposições?

De tudo isto se falava e com tudo isto se esgrimia. Mais ainda quando a vontade de mudança ou alteração profunda das coisas consentia perspectivas demasiado distintas: - Importava retomar a «alma» portuguesa na sua conotação religiosa e católica, mesmo na aplicação social que o pontificado de Leão XIII (1878-1903) lhe dera, ou, muito pelo contrário, havia de se afastar de vez tal conotação, em obediência à marcha «positivista» da história, que reduzia cada vez mais a religião ao íntimo da consciência de cada um, sem qualquer transposição pública da crença?

E quanto ao Estado, na sua relação com a Igreja: - Devia continuar-se em regime público-eclesiástico, com a definição religiosa do país e a quase integração da vida eclesial na administração civil, ou, como o liberalismo católico pretendia desde os anos vinte em França e depois pela Europa e além dela, era necessário «libertar» a Igreja da tutela estatal, mesmo que tal levasse à «separação» das duas esferas?

Estas e outras polémicas eram muito transversais a todo o campo político, antes e depois de 1910. Havia no «movimento católico português», sobretudo depois de 1870, quem subscrevesse mais ou menos pontos do liberalismo católico; e houve no republicanismo triunfante quem defendesse a supervisão estatal da vida católica, como era o caso do próprio Afonso Costa e da «sua» Lei da Separação… Assim como houve no campo católico figuras importantes que, mesmo antes de 1910, insistiam na atenção às ciências e aos «progressos do século» (Sena Freitas, Gomes dos Santos e tantos mais).

Louvo e agradeço o trabalho de Monsenhor Gaspar, pelo manancial de factos e figuras que muito bem conjuga e pelo tom geral com que os aprecia e apresenta. É um bom contributo para nos revermos e perspectivarmos, em sociedade e Igreja.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

O Senhor disse a Moisés



«Fala a toda a comunidade dos filhos de Israel e diz-lhes: ‘Sede santos, porque Eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo.

Não furtareis, não mentireis, nem enganareis em detrimento de um compatriota.

Não jurareis falso, em meu nome; desse modo profanareis o nome do vosso Deus. Eu sou o Senhor.

Não roubarás nem furtarás nada ao teu próximo; o salário do jornaleiro não passará a noite em teu poder até à manhã seguinte.

Não insultarás um surdo, não colocarás tropeços diante de um cego. Teme o teu Deus. Eu sou o Senhor.

Não cometerás injustiças nos julgamentos. Não prejudicarás o pobre, nem serás complacente para com o poderoso. Julgarás o teu compatriota com imparcialidade.

Não semearás o mal no meio do teu povo. Não peças o sangue do teu próximo. Eu sou o Senhor.

Não odiarás o teu próximo no teu coração; mas repreende o teu compatriota para não caíres em pecado por causa dele.

Não te vingarás nem guardarás rancor aos filhos do teu povo, mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor.»

Levit. 19,1-2.11-18.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Conferência sobre o aborto

«Aborto, e Agora o que Fazer ?  Testemunhos e Caminhos»


Dia 1 de Março na Universidade Católica de Lisboa
Conferência organizada pelo Núcleo Universitário Católica Pró-Vida, com o apoio do Lobby Pela Vida.

Testemunhos de:
-- Dra. Maria Durão (do PAV -- Ponto de Apoio à Vida, que apoia a Vida incondicionalmente)
-- Dra. Leonor Ribeiro e Castro (da Missão Mãos Erguidas, que ajuda as mulheres na iminência de abortar a tomar consciência da verdade da Vida)
-- Dra. Maria José Vilaça (da Vinhas de Raquel, que ajuda as mulheres que já abortaram a superar a dor do arrependimento) .

Deus não é para o bico da ciência


Henrique Raposo

Antony Flew (1923-2010) não foi um ateu de garagem. Flew foi o Dawkins do século XX, o líder do ateísmo que se julgava legitimado pela ciência. É por isso que a sua conversão foi um acontecimento tão polémico. Deus existe é a explicação dessa polémica descoberta. O grande motor da mudança? A teoria do Big Bang. Steiner diz, algures em Gramáticas da Criação, que a teoria do Big Bang é a tradução científica do livro do Génesis. Flew navegou por águas similares. Para este filósofo britânico, a teoria do Big Bang fornece a prova científica para aquilo que São Tomás de Aquino considerava inacessível ao conceito de prova: o começo do universo. Enquanto pensou que o universo era apenas um espaço ilimitado mas atemporal (sem um começo), Flew encarou o dito universo como um conjunto de factos fechado e à mercê de uma ciência toda-poderosa. Mas tudo mudou com o Big Bang. Se o universo teve um começo, então, a pergunta é inevitável: o que produziu esse começo? Quem deu o primeiro pontapé na bola cósmica?

O que torna Flew num caso subversivo para o ateísmo hegemónico não é a mera conversão à ideia de Deus. A subversão está na forma, porque Flew chegou a Deus através da ciência, e não através da fé. Flew atingiu Deus através da física e da cosmologia. O ex-papa dos ateus pegou nos dados científicos, e Eureka: há um Deus subjacente à racionalidade da natureza e do universo. Tudo bem? Tudo mal. Deus não é um assunto científico. Deus não se prova ou desprova cientificamente. Deus é um salto de fé abraâmico, kierkegaardiano. Se Dawkins está errado, Flew também não está certo.

Sim, Dawkins tem direito ao seu ateísmo, mas já não tem direito a pensar que esse ateísmo tem certificado científico. A ciência não prova a não-existência de Deus. Deus é um assunto não-científico por excelência, porque Deus não está ao alcance do método científico. Mais: quando afirma que o seu ateísmo darwinista é a única resposta aceitável, Dawkins deixa de lado qualquer ceticismo em relação à sua própria teoria, acabando por esquecer que a ciência não anda à procura da verdade redentora. Todo o conhecimento científico assenta nesta arquitectura céptica: só podemos ter estabilidades teóricas, e nunca certezas teóricas; todas as teorias têm de ser falsificáveis, logo, todas as teorias são apenas possivelmente verdadeiras. Sem este mar de dúvidas, o espírito científico não sobrevive. Preso na fúria de negar Deus em nome da ciência, Dawkins acaba por desrespeitar a própria ciência.

Ora, se não prova a não-existência de Deus desejada por Dawkins, a ciência também não prova a existência de Deus. Flew diz que esta foi uma peregrinação da razão: «segui a razão até onde ela me levou. E ela levou-me a aceitar a existência de um Ser auto-existente, imutável, imaterial, omnipotente e omnisciente». Problema? Apesar das diferenças a jusante, Flew partilha com Dawkins um erro a montante: encara Deus como um desafio científico. Sucede que Deus e a fé não são assuntos empíricos, não são temas para o bico da ciência. Deus não se esconde na relação gravitacional entre planetas, mas na relação moral entre homens. Deus é um salto de fé ético, e não uma descoberta com tubos de ensaio. Flew percebeu que o ateísmo não era a resposta, mas teve medo de atravessar o deserto.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Olivença e a «Guerra das Laranjas»

José Ribeiro e Castro


A questão de Olivença é uma delicada pendência dormente nas relações luso-espanholas. É, não – era! Um alcaide «voluntarioso» do lado espanhol resolveu chutar o tema para as primeiras páginas dos jornais. E inevitavelmente para a primeira linha da política. Agora, procura dobrar a língua, mas o mal está feito e o seu gesto tem tudo menos de inocente.

Nos últimos anos, o ambiente melhorava: com apoio das autoridades regionais extremenhas, a autarquia de Olivença abrira-se à revelação das raízes portuguesas, recuperando e reafirmando traços identitários na toponímia histórica das ruas e em festivais anuais de matriz portuguesa. Simultaneamente, com algum pragmatismo, dos dois lados da fronteira, descobriam-se formas imaginosas de tornear dificuldades políticas, a fim de responder às necessidades das populações - por exemplo, no dossier de reabilitação de uma ponte de acesso à vila. Este desanuviamento revelava grande sentido prático e era um processo inteligente, que procurava andar para diante sem ferir o alto melindre político da questão. As autoridades locais e regionais espanholas pareciam interessadas em avivar a especial identidade de Olivença, até para a singularizar na região como pólo específico de procura turística, e circunscrevendo o processo a traços de identidade cultural, sem entrar obviamente pelo delicadíssimo - e potencialmente explosivo - plano político.

Estávamos nós postos neste sossego, quando o «enérgico» alcaide Bernardino Píriz aterra em Olivenza e resolve reabrir a Guerra de las Naranjas. Desde há semanas que éramos altertados para a provocação que congeminou. Até que o PS e autarcas locais do lado português - a meu ver, bem - resolveram agarrar no assunto. Além do disparate político monumental, a iniciativa do novo alcaide oliventino interrompe esforços positivos que os autarcas alentejanos vizinhos conhecem bem e estavam a acompanhar e apoiar.

«Festejar» a Guerra das Laranjas em Olivença é uma coisa de flagrante mau gosto. Seria um pouco como a Rainha Isabel II ir celebrar a Gibraltar o Jubileu de Diamante no próximo mês de Junho.

Sentido duma «Vida sem sentido»
Tudo funciona em termos de fim

António Justo









Nietzsche dizia «quem tem um porquê para viver, suporta quase cada como». O problema está para quem não tem porquê nem como. Sim, até porque a vida é mestra e a História obriga.

Na luta da vida, uns ganham, outros perdem e outros nascem perdidos. De premeio fica a perspectiva individual, numa atmosfera social mais ou menos intoxicada, diria eu.

Nos primórdios da humanidade, os nossos antepassados caçadores-colectores esfalfavam-se em manada atrás da caça e da fruta. Levavam uma vida nómada e na luta pela subsistência viam-se obrigados a viver na manada.

Na sequência dos hábitos ancestrais de caçadores-colectores, pratica-se também hoje a caça e a colecta nos centros comerciais («Shoppings»). Escarmentados das fadigas invernais sentimos cada vez mais o prazer no ter do que no ser. Surge o prestígio e este baseia-se já não na necessidade directa mas na ideia (necessidade construída). A satisfação e o prestígio de ter passam a impor-se ao do ser. A massa já não segue em direcção à caça, mas o sentido da ideia dela.

As pessoas perdem a individualidade pensando e vivendo cada vez mais em termos de manada. Do tédio da monotonia redil surge a necessidade de se diferenciar numa corrida ao prestígio baseado na ideia do sucesso económico. A animalidade individual, agora encarcerada numa cultura domesticadora procura os seus tubos de escape numa ideia de distinção e de liberdade apregoada pelo mercado. Os pobres de cima e os pobres de baixo, tudo em fuga, vivem da futilidade dum ter mais que o outro e duma distinção que se revela no poder de compra. Cada um quer levar o mundo às costas, querem tudo na sua mochila. Na luta contra o caos afirmam-se as forças da animalidade violenta de uns contra os outros. De momento, grande parte das elites financeiras manifesta-se como extremista e sem um conceito ordenado de sociedade. A brutalidade de oligarquias torna-se exemplar para as bases que a sustêm levando-as primeiramente à desorientação e depois à anarquia.

Uma sociedade que não canalize a brutalidade dos seus membros está irremediavelmente perdida. Para o poder necessitará de ideais e metas metafísicas. As estruturas precisarão de homens bons e a contrabalançar os seguidores da oportunidade. Doutro modo, sob o impulso de canalizar a animalidade, continuarão a esconder-se, por trás dos bastidores, os interesses individualistas, nacionalistas e ideológicos. Estes só querem indivíduos e não pessoas, querem apenas clientes e crentes. Neste sistema, quem não pertencente ao rebanho, não orienta a inteligência em benefício próprio. Uma sociedade sem consciência pessoal e comunitária transcendente e que engendra para cada qual um deus indiferente que tudo permite deixa a bestialidade humana governar.

A natureza, para não estagnar, não quer harmonia. Ela tem, além dum sentido imediato, um sentido telelógico, virado para uma meta, um objectivo sempre mais distante do que a mira da nossa caçadeira alcança. Quem não descobrir essa meta será condenado, como Sísifo a empurrar repetidamente uma pedra (a sua vida) até ao lugar mais alto da montanha para a ver rolar de novo para o fundo dela.

Depois de cada caçada, de cada compra, de cada vitória fica a depressão do desconsolo duma caçadeira descarregada, de vida vazia. Resta a sensação de um caçador cansado, a subir a encosta, à semelhança de Sísifo no mito.

Sísifo quer-nos alertar para uma vida digna de viver e para a necessidade de intervir no destino. Primeiro procura-se o que dá alegria: um trabalho, uma casa, uma criança; depois vem a insatisfação, da falta duma tarefa, da falta de realização.

No caso de desemprego inutilizam-se as próprias capacidades e conhecimentos. Pior ainda; a sociedade só exige e não louva, o que diminui a satisfação. O horizonte reduz-se, cada vez mais, ao panorama dos próprios problemas. Por fim o cenário pode reduzir-se a si mesmo. Sem a perspectiva do outro não haverá realização.

Uma existência sem metas é vida desperdiçada e perdida

Uma vida sem metas é como um carro com motor em ponto morto, só gasta e desgasta ou anda à roda como os carrinhos eléctricos das feiras.

Desde a natureza à lógica e ao sentimento, tudo funciona em termos de fim. O ciclo da trajectória duma semente não é terminar nela; contra isto fala a evolução e a ânsia de sentido no mais profundo de cada coração. O sentido encontra-se não só em nós, no todo mas também fora dele. Tudo se encontra a caminho, a natureza inteira, cada povo e cada pessoa. O seu ser não se reduz ao caminho como apregoam os barateiros do mercado.

Sentido é algo subjectivo mas um consolo apenas subjectivista (individualista) encerraria o ser num labirinto. O sentido experimenta-se na relação entre o eu e o nós, numa relação de diálogo binário e trinário dum receber e dar para mais criar. A natureza orienta-nos para o futuro, muito embora o futuro não seja o seu fim.

É verdade que o sol nasce todos os dias. Ele parece resumir o sentido que a semente sente numa continuidade repetitiva a caminho dum chamamento imanente e transcendente. Aquele chamamento vem dum fora dentro a que o próprio Sol obedece no reconhecimento dum sentido maior.

A vida individual, familiar, social e nacional ocidental encontra-se ameaçada pelo facto de não reconhecer algo que a transcenda, não conhecer uma meta mais abrangente que não seja o ciclo das estações do ano. Tudo circula então em torno do próprio umbigo como se cada um fosse o umbigo do mundo. Uma multidão sem necessidade de dar à luz. Um mundo assim concebido já não precisa de heróis nem de santos, acomoda-se ao destino duma rota de exploradores e explorados.

Prometeu, protótipo do homem grego, foi herói ao conseguir roubar o fogo dos deuses para o dar ao humano. Este, ao desistir do fogo dos deuses será reduzido à condição de prisioneiro e acorrentado à própria arrogância e entregue, pelos deuses, à voragem das águias que se alimentarão do seu fígado. Ao acomodar-se à fuga do medo não chega a experimentar a satisfação de que a rebeldia por fim lhe trará consolação.

Equivoca-se a política ao reduzir a vida pública a uma mera luta de interesses entre grupos. Erra a psicologia que se fixa no ego, encurtando o horizonte da pessoa a ela mesma e a vida a uma mera estratégia de sobrevivência individual, dando receitas que não passam de anestesiantes para um ego que sofre de miopia. Por isso, a sociedade, cada vez produz mais doentes e a frustração individual está cada vez mais patente.

Geralmente procura-se a solução para os problemas onde ela não pode estar. Coloca-se a bola da vida nas mãos dos donos de matraquilhos ignorando que eles, consciente ou inconsciente, pretendem levar a bola ao seu buraco. Uns e outros parecem adiar a vida em trips de egos. Por falta de panorama limitam-se a ajudar Sísifo a subir a montanha para de novo cair a seus pés. Uma solução que se contenta com a satisfação do eu, só em si, não satisfaz porque empobrece a pessoa, reduzindo-a à condição de Sísifo. A concentração no ego possibilita a masturbação mas não a criatividade, realiza-se à margem da evolução.

No mercado da praça pública encontramos muitos profetas do ego. Até parecem que têm a vida para dar ao oferecerem mais sexo, mais droga, mais liberdade, como se fossem os donos disto. Eles fixam o bem-estar a um hedonismo que reduz a felicidade ao acto de striptease, ao acto do momento, como se o dia não tivesse um nascer e um pôr-do-sol, como se o dia completo não contivesse também a noite. Para que a realidade da noite não seja consciencializada têm como solução a bebedeira. Muita da psicoterapia, dos curandeiros, dos espíritas e muito outra boa gente só ajudam as pessoas a adiar a vida, sempre à cata dum raio de sol fútil. O pior é que ainda pagam para isso!… Uma vida com sentido é entrega, é oferecer consciente que no dar se entra em comunicação com o outro e nele com o próprio profundo. Doutro modo, o sentido duma vida sem sentido será alimentar os parasitas da vida. Uns como outros correm o perigo de se encontram virados apenas para si reduzindo o seu sentido ao alimentar dos vermes do cemitério. Naturalmente que a paciência do verde da roseira se premeia nas rosas da roseira também na vida humana não haverá alegria sem sofrer.

A felicidade dá-se no nós, na relação; o eu encontra, ao mesmo tempo, o seu limite e a sua complementação no outro. A sociedade ocidental estressou a pessoa reduzindo-a a indivíduo à disposição do seu mercado: Reduz a praça social a grupos de vendedores concorrentes entre si sem um sentido individual nem colectivo. Para isso quer uma sociedade aberta sem biótopos, quer apenas indivíduos indefesos estando, por isso, interessada em destruir a pessoa (a pessoa, ao contrário do indivíduo, encontra-se embutida numa paisagem, numa região, num país, numa cultura, numa família; a ideologia, pelo contrário só conhece uma cor, as cores do arco-íris de que a pessoa seria portadora constituiria um impedimento a qualquer ideologia seja ela económica ou do pensamento). Por isso se vê cada vez mais a afirmação da ideologia do indivíduo contra a pessoa. O turbo-capitalismo, o socialismo materialista e os déspotas querem indivíduos despojados de ideias próprias, despojados de família e de nação.  Uma sociedade como a nossa, já a caminho do pôr-do-sol, infecta outras sociedades emergentes e ensombra a vida com valores já não de esperança mas de desilusão. Privilegia a força da entropia só tendo em conta o ego, sem a consciência de que este faz parte dum biótopo cultural empenhado na construção dum ecossistema espiritual universal.

O horizonte do nosso ego encontra-se numa relação complementar à intimidade do nós. Somos o cruzamento duma panorâmica com vários horizontes, todos eles enquadrados na nossa pessoa e a serem considerados no trilho da sociedade. Como o Sol tem uma missão em relação à Terra assim o humano tem uma missão de seguir e criar sentido. Quem cria e dá sentido sente sentido na vida, realizando-se e expandindo-se na alegria dos raios sociais que irradia. Então as sombras da vida já não adoentam, passam a ser canais por onde passa a luz, por onde passa a vida. Daí surge a satisfação de tornar a humanidade e o mundo num lugar digno, onde a vida é equacionada e mantida sob o ponto de vista da pessoa, do universo e do divino.

A futilidade dum viver numa democracia de cidadãos vencedores e perdedores, de realização individual, sem uma órbitra que transcenda o eu, só poderá conduzir à frustração do cidadão que constata nas órbitras das instituições do Estado e da humanidade a repetição da própria órbitra egocêntrica, apenas um pouco mais alargada.

Falta a consciência duma órbitra universal cujo trajecto se origina no nós e tende para o nós numa dinâmica complementar. Uma teoria e uma praxis na perspectiva do nós (comunidade e não mera sociedade) interromperia a continuidade histórica de exploração (a relação de caçador e presa) para, na História da humanidade, se introduzir a sustentabilidade do seu desenvolvimento. Isto para não reduzirmos o trajecto histórico a um movimento rotativo de explorados e exploradores.

Doutro modo a nossa vida dará sustentabilidade à reiteração da exploração e da lamentação, continuando a História ordenada em dois acampamentos: dum lado os mais solidários, do outro os mais egoístas, os privilegiados.

Marx pensava poder mudar a humanidade e a natureza humana, se se acabasse com a propriedade privada. O seu erro foi querer reduzir tudo ao ciclo da matéria e querer sacrificar as diferentes esperanças da humanidade à sua esperança, não contando que a realidade consta de erros complementares que possibilitam o alívio do mal. Há muitos caminhos na tentativa de superar o mal e de melhorar a sociedade. Será tarefa de todos fazer desembocar o seu caminho na comunidade e no respeito da diferença. Uma só solução é engano. Até hoje, as revoluções criam novas classes dominantes que se legitimam com novas ideias impostas ao povo e aos vencidos. A ilusão voa mas o sofrimento provocado pelo ser humano é continuado sob o sol de novas explicações e dominações.

A tarefa apontará no sentido de se agir a partir do ponto de vista do nós. Para isso ajuda um princípio duma ética universal digna: não faças ao outro o que não queres que te façam a ti. A ética superior das bem-aventuranças poderá ficar para uma segunda fase da evolução da humanidade. Por enquanto continuamos a ser crianças contentando-nos com o jogo das escondidas.

Cada sistema de valores corresponde a um ecossistema cultural aferido à geografia, às necessidades e desejos de cada biótopo. Destruí-los em nome doutras grandezas seria crime. Há que disponibilizar o sol para todos. A óptica divina apela à consciência duma perspectiva universal num mundo a ter de se recriar: um mundo de luz e de treva de todos para todos.

 

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

O Aborto é o cúmulo da violência doméstica


Fernando Castro, entrevistado no Diabo por João Filipe Pereira

«Barrigas de aluguer só interessam à esquerda caviar»

 Em Portugal há 5 mil famílias com três ou mais filhos registadas na Associação Portuguesa de Famílias Numerosas. Fernando Ribeiro e Castro é o seu presidente. Em entrevista a O DIABO, o homem que defende os interesses das famílias grandes é fulminante no ataque que faz à «Esquerda caviar», às políticas do Governo e aos «totós» do CDS, PSD e PS.

Ler mais em:
http://uniaodasfamiliasportuguesas.blogspot.com/2012/02/o-aborto-e-o-cumulo-da-violencia.html

Governo deve ouvir o Cardeal:
Mãe há só uma


Manuel Tavares, Director do JN









O novo cardeal português foi ao fundo da questão europeia: a relação da mãe com a família e o trabalho. Para alguns será muito fácil colocar as etiquetas de conservador ou mesmo de reaccionário a D. Manuel Monteiro de Castro por, na entrevista que concedeu ao JN, ter dito sem papas na língua o seguinte:

«O trabalho da mulher a tempo completo creio que não é útil ao País. Trabalhar em casa, sim, mas que tenham de trabalhar pela manhã até à noite creio que para um país é negativo. A melhor formadora é a mãe, e se a mãe não tem tempo para respirar, como vai ter tempo para formar?».

E, no entanto, vejamos...

Ainda não há no mundo sítio com melhores condições de vida que o nosso velho continente: o modelo social europeu permanece imbatível. Mas está claramente ameaçado. E se um optimista como eu pode sempre acreditar que haveremos de superar a ameaça resultante da crise financeira, outra tanta dose de fé não chegará para eliminar a ameaça demográfica.

Ou seja: mesmo que a Europa resolva os seus problemas de competição no quadro do comércio mundial e o faça salvaguardando os salários pela redistribuição da riqueza, vai ser preciso que, para além das religiões, das ideologias e das práticas sociais, o cidadão renuncie ao conforto da responsabilidade mínima. A sua própria por natureza e a da eventual alma gémea com quem decida partilhar a aventura da vida comunitária.

Com a taxa de natalidade em queda vertiginosa em Portugal e na Europa não podemos esperar que o nosso modelo social sobreviva. Perceber que esta é a questão essencial, muito mais importante que as circunstâncias da crise, é o passo indispensável para termos uma atitude diferente em relação ao núcleo da nossa organização social: a família.

Salvar este nosso modelo de vida, com todas as heterodoxias que ele permite, significará sempre revalorizar a natalidade. E a primeira consequência desta revalorização será a de dar condições para que os pais que assim o pretendam possam ter mais filhos.

Este ponto é tão mais sério e tão mais decisivo para as gerações que as sérias dívidas soberanas, e seria imperdoável que falhássemos. Porque só depende de nós e do que possamos pensar para além do puro prazer de ter um único filho. Ou nenhum.

Acontece que do plano da cidadania para o da prática social, por mais cardeais que nos alertem, terão de ser os políticos a garantir-nos a sobrevivência do nosso modelo social europeu.

No que me toca, atrevo-me a dar-lhes um conselho: antes de pensarem em novas leis laborais, perguntem às mães que não podem fugir a despejar os filhos de seis meses em infantários.