segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Portugal com Alzheimer

Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada, Público (14-01-2012)










Debate Os feriados nacionais

Muitos maridos sabem como é pesada a factura pelo esquecimento do aniversário da mulher. O cardeal Sean O'Malley, arcebispo de Boston, contava, a este propósito, que uma senhora, muito ofendida pelo facto de o cônjuge se ter esquecido do dia dos seus anos, exigiu, como reparação, uma prenda que a levasse dos zero aos cem em três segundos. Mas, em vez do esperado bólide, o desajeitado esposo ofereceu-lhe uma balança...


Talvez os homens subestimem os aniversários, mas as mulheres geralmente não pensam assim e num tal esquecimento lêem desconsideração pela aniversariante, ou pelo casamento. Ora casal que não festeja os anos e a data do casamento está, provavelmente, em crise.


As nações, como as pessoas, também nascem, crescem, definham e morrem. A memória dos povos é a sua história e, como não é possível recordar todas as datas memoráveis, comemoram-se ao menos algumas efemérides mais significativas. Os feriados nacionais não nasceram, portanto, para favorecerem o ócio, mas por imperativo da consciência colectiva, como uma necessidade de afirmação nacional. A preservação da língua, o respeito pelos símbolos nacionais e o culto dos heróis e dos santos não são questões decorativas, nem meros instrumentos de propaganda ideológica, mas meios indispensáveis para a coesão e sobrevivência da nação e para a preservação da sua memória colectiva.


Se em todos os momentos é oportuna a lembrança da história pátria, essa evocação é mais urgente numa crise. Portugal, para além da dificílima situação económico-financeira, também padece as investidas da globalização, que ameaça a nossa idiossincrasia, e sofre a pressão da vizinha Espanha, onde há quem gostasse de ver a nossa nação reduzida a mais uma região do seu problemático Estado plurinacional. Razões de sobra para que, sem hostilizar a Europa nem os outros povos ibéricos, se afirme, pela positiva, a independência e soberania nacional, nomeadamente festejando o seu dia, isto é, o 1.º de Dezembro.

A antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, quando se viu a braços com a ameaça germânica, apelou ao nacionalismo dos seus cidadãos, promovendo a figura de um seu herói nacional, por sinal um santo cristão. Data de então, com efeito, o magistral Aleksandr Nevski, de Serguei Eisenstein. A figura emblemática do patriótico guerreiro foi, no contexto da crise mundial, uma alavanca que motivou os cidadãos soviéticos para a defesa da independência. As autoridades políticas, não obstante o seu feroz anticlericalismo e o seu internacionalismo proletário, não tiveram pejo em recorrer a um bem-aventurado príncipe, herói da Rússia dos czares, para assim unirem a nação na luta pela sua ameaçada soberania.

Dói ver os feriados nacionais reduzidos a mero assunto económico. Tal como seria lamentável a família que, à conta da crise, desistisse de celebrar aniversários. A razão exige o contrário: precisamente por que há crise, mais necessário é unir a família nessas datas e que o país celebre, com moderação, as principais efemérides da sua história.

Talvez se pudessem vender, em hasta pública, o Mosteiro dos Jerónimos e a Torre dos Clérigos: não faltaria quem quisesse adquirir essas jóias nacionais, para embelezamento dos seus ranchos no Novo Mundo. É verdade que, como diz o provérbio, mais vale perder os anéis do que os dedos, mas estes anéis são os dedos da nossa história, são as mãos que a fizeram e a exaltaram em cantos heróicos.

Sem a sua alma - a nossa língua e a nossa história - Portugal fica reduzido ao défice, ao lixo das agências de rating, a apenas mais um povo ibérico, à cauda da Europa. Sem os seus feriados nacionais, civis e religiosos, o nosso país será como um velho desmemoriado que, por ter perdido a consciência, perdeu também a sua identidade.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Daniel Serrão











Por esta designação – mais adequada que a vulgar «barriga de aluguer» – entende-se a indução de gravidez numa mulher, pelo processo de transferência de um embrião constituído em laboratório, com o compromisso, contratualizado, de que a criança que venha a nascer será entregue a outrem.

Ler mais em: http://uniaodasfamiliasportuguesas.blogspot.com/2012/01/maternidade-para-substituicao.html

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Entrevista com o Prof. Gorjão Clara

«As crianças ... devem ser ensinadas a respeitar os idosos. A saber que foram os idosos quem lhes permitiu estarem ali, quem ajudou que os pais os criassem, são a referência da cultura da família. Não devem ser esquecidos, não devem ser humilhados, não devem ser maltratados, não devem ser objecto de violência. Talvez começar a ensinar de novo isto às nossas crianças seja o primeiro passo.»

Pode consultar a entrevista na globalidade aqui ou em alternativa descarregá-la aqui.
 

Quando a pessoa é degradada a objecto
de troca ou de aluguer

P. José Jacinto Ferreira de Farias






 




Vivemos tempos complexos e hoje especialmente marcados pela crise, que diz respeito directamente aos aspectos mais materiais da nossa vida pessoal e colectiva, as questões da economia, dos mercados, da especulação financeira. Ainda recentemente uma professora universitária brasileira que conheci num Congresso na Roménia em Outubro passado sobre o matrimónio nas grandes religiões monoteístas, e que estava de visita a Portugal, me dizia que os seus familiares que aqui residem vivem muito atribulados e sem esperança, por causa das grandes dificuldades que estão a passar; e muitos brasileiros estão a regressar ao Brasil, considerando que afinal a esperança que tinham depositado nas possibilidades que poderiam encontrar em Portugal foram goradas e por isso tiveram de regressar, agora que a economia brasileira se encontra em pleno florescimento.

Sentimos todos que a crise é global, e as agências de notação financeira como que se divertem neste jogo de altos e de baixos, de classificações, determinando o lugar que cada país está a ocupar, sendo que no nosso caso já estamos quase no lixo. No caso das agências de notação financeira foi-me dito que elas são financiadas pelos próprios países que analisam e classificam. Não percebo muito destas coisas, devo dizer. Mas se assim é e se declaram que Portugal está nesta condição de não poder honrar os seus compromissos, então o que devia fazer era mesmo deixar de lhes pagar.

Mas eu próprio penso que é muito mais grave a crise que estamos a viver; é uma crise de sentido, de valores, é uma crise de humanidade. Parece que se perdeu a noção da dignidade e que tudo se pode comprar ou vender, tudo, mesmo a pessoa, pode ser objecto de troca e de negócio. É o caso entre nós da questão em torno das barrigas de aluguer. Então a mulher já pode vender-se ou alugar-se, em parte ou no todo? Surpreendeu-me até certo ponto, quando soube o resultado do inquérito que foi feito – sabe-se já com que critérios de objectividade – sobre este tema a adolescentes e a estudantes universitárias, a preparar o ambiente para a proposta legislativa sobre este tema, que uma percentagem muito elevada das entrevistadas concordava com este aluguer de barrigas e que estaria mesmo disposta a entrar neste negócio. Além disso, fiquei verdadeiramente admirado com o silêncio (pelo menos não ouvi nada sobre este tema) de quem, em nome do seu patriótico catolicismo, deu a cara pela supressão dos feriados religiosos - uma causa de tal grandeza que justifica um lugar parlamentar!... -, e nada tenha feito ou declarado sobre este tema das barrigas de aluguer, um tema verdadeiramente merecedor, porque fracturante da dignidade da mulher, que é degradada a objecto de troca ou de aluguer, numa época de asfixia do espírito, na qual a crise financeira tudo justifica.

Como é urgente que se recorde o tema da tentação de Adão e de Eva que a Escritura narra, de quererem apoderar-se do fruto da árvore da vida e que por isso mesmo foram expulsos do paraíso, e as portas guardadas por querubins. Este relato bíblico tem uma potencialidade simbólica enorme para os nossos dias. E aquela outra palavra que o Senhor cita respondendo à tentação satânica: nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus. Ou a palavra de S. Paulo que exorta os cristãos a não profanarem o próprio corpo, porque é o templo do Espírito Santo.

Há limites que não podem ser ultrapassados. Estas medidas fracturantes, fracturam não a sociedade, mas os próprios que as propõem, defendem ou aprovam e sobretudo quem as pratica. É urgente que as nossas consciências meio adormecidas despertem para a nossa responsabilidade e para as contas que havemos de dar não só diante do tribunal da história, mas sobretudo diante do tribunal de Deus, sob cujo juízo nos encontramos.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Maternidade de substituição – um retrocesso social

Pedro Vaz Patto








A chamada «maternidade de substituição» (vulgarmente designada por «barriga de aluguer», em inglês por «surrogate mothers» e em francês por «mères porteuses»), isto é, a situação em que a mulher se dispõe a suportar uma gravidez por conta de outrem e a entregar a criança após o parto renunciando aos poderes e deveres próprios da maternidade, é vedada pela legislação portuguesa vigente, que declara nulos os contratos a ela relativos, gratuitos ou onerosos (artigo 8º da Lei nº 32/2006, de 26 de Julho), e que pune a conduta de quem concretizar algum desses contratos a título oneroso ou promover essa prática por qualquer meio, designadamente através de convite directo ou por interposta pessoa, ou de anúncio publicitário, também quando se trate de uma prática onerosa (artigo 39º da Mesma Lei). É natural, porém, que a questão da sua legalização venha a ser discutida no futuro. Trata-se de uma prática actualmente proibida em França, em Itália, na Alemanha, em Espanha, na Suíça e na Áustria, mas admitida no Reino Unido, na Bélgica, na Dinamarca, na Grécia, na Rússia, na Ucrânia, em vários Estados norte-americanos, no Canadá, em Israel, na Índia e noutros países. As facilidades de deslocação tornam cada vez mais próspero o chamado «turismo procriativo» com destino a estes países e em vista dessa prática. Recentemente, a minha atenção para com esta realidade foi despertada por uma notícia de eventual deslocação de casais portugueses à Índia com esse objectivo. À Índia, por ser aí que se praticam preços mais acessíveis, bem longe dos preços exorbitantes das luxuosas clínicas norte-americanas.

A questão é actualmente objecto de discussão em França. Também despertou a minha atenção para este tema a leitura de um documento. Mères Porteuses; Extension du Domaine de l´Aliénation (elaborado no âmbito de uma fundação, Terra Nova – La Fondation Progressiste), em que a análise dos desafios que coloca a legalização da maternidade de substituição no plano ético é feita de modo particularmente completo e bem fundamentado. E despertou a minha atenção, a ponto de reproduzir e divulgar nestas linhas as teses aí expostas, pelo seguinte.

Nas tão discutidas questões de bioética, é habitual apresentar como progressistas as perspectivas que mais acentuam o valor da liberdade. Romper uma barreira moral tradicional, um interdito, é visto como sinal de progresso social. Neste caso, em especial, invoca-se, para justificar a legalização desta prática, a liberdade de os casais estéreis e de os pares homossexuais poderem ter acesso à procriação, tal como o respeito pelas escolhas pessoais livres das «mães de substituição». Os maiores travões a este tipo de mentalidade libertária são habitualmente associados às posições do magistério da Igreja Católica, que acentua o valor da dignidade da pessoa humana como limite ao da autonomia individual.

Assim, e quanto a esta questão, é clara, e já conhecida, a oposição desse magistério à maternidade de substituição. Na instrução da Congregação para a Doutrina da Fé Domum Vitae, «sobre o respeito à vida humana nascente e a dignidade da procriação» de 1987, afirma-se (II, A, 3) que se trata de uma prática «contrária à unidade de matrimónio e à dignidade da pessoa humana». E também: «A maternidade substitutiva representa falta objectiva contra as obrigações do amor materno, da fidelidade conjugal e da maternidade responsável; ofende a dignidade e o direito do filho a ser concebido, levado no seio, posto ao mundo e educado pelos próprios pais; em detrimento da família, instaura divisão entre os elementos físicos, psíquicos e morais que a constituem». Mais genericamente, também aí se afirma (II, B, 8), a respeito do pretenso «direito ao filho» frequentemente invocado para justificar esta prática: «Um verdadeiro e próprio direito ao filho seria contrário e sua dignidade e à sua natureza. O filho não é algo devido e não pode ser considerado como objecto de propriedade; è um dom, «o maior» e o mais gratuito dom do matrimónio, e é testemunho vivo da doação recíproca dos seus pais.»

Em França, a legalização da maternidade de substituição tem sido defendida por personalidades de vários quadrantes, mas sobretudo por sectores ditos «progressistas» e «de esquerda». Consta dos documentos preparatórios do Partido Socialista relativos à revisão das leis de bioética. A Fundação Terra Nova propõe-se «refundar a «matriz ideológica» da esquerda progressista e promover os seus ideais» e um outro documento surgido no seu seio também tomou posição a favor da legalização da maternidade de substituição. Ora, o documento em causa (subscrito por trinta académicos, médicos e políticos, entre os quais os antigos primeiros-ministros socialistas Michel Rocard e Lionel Jospin) pretende reagir a estas posições e afirmar, de forma muito categórica, que, pelo contrário, essa causa não pode ser considerada «progressista» e «de esquerda» e representa um verdadeiro retrocesso social. E serve-se de uma argumentação que acaba por aproximar-se da do magistério da Igreja Católica em alguns aspectos importantes. É o que veremos de seguida, podendo daqui extrair-se a conclusão de que princípios frequentemente apresentados como reflexos de «conservadorismo» ou «progressismo» não o são verdadeiramente, que aquilo que se quer fazer passar por progresso social é, no fundo, um grave retrocesso, e que as questões da bioética e da justiça social não estão desligadas.

Em síntese, o documento sustenta que a maternidade de substituição representa «a mais recente e a mais chocante das extensões do domínio da alienação», ou seja, da «coisificação» e instrumentalização da pessoa, assim ferida na sua iminente dignidade.

Traduz-se na mercantilização do corpo feminino e na exploração de mulheres pobres (sistematicamente são pobres as mulheres candidatas a «mães de substituição»; não é por caso que o fenómeno se difunde na Índia), sujeitas a um controlo intrusivo do seu corpo e a uma relação contratual desigual e alienante com empresas e clientes abastados. É equiparada à escravatura e à prostituição (também esta apresentada como exploração alienante e contrária à dignidade da pessoa, cuja legalização representa um retrocesso social, contra o que possam afirmar sectores também tidos por «progressistas»).

À «mercantilização do sexo» é equiparada a «mercantilização do útero», domínio igualmente íntimo e estreitamente ligado à dignidade e afirmação pessoais. O corpo é igualmente instrumentalizado, neste caso de forma não temporária e com a particularidade de essa instrumentalização ser destinada à obtenção de um «produto»: o bebé.

Para além dos riscos e danos psicológicos que envolve – e que, como veremos, são denunciados com vigor – a maternidade de substituição é condenável, antes de mais, por isso mesmo: por representar uma «etapa suplementar» de alienação, de «coisificação» da pessoa e de uma sua capacidade intrínseca, neste caso a sua função procriativa.

Do mesmo modo que não foram, enquanto tal, os danos físicos, psicológicos ou económicos envolvidos, os seus efeitos patogénicos, a conduzir à abolição da escravatura, mas, antes de tudo, um postulado de respeito pela dignidade da pessoa, assim deve proceder-se quanto a esta prática. É, a este propósito, evocado o artigo XVIII da Declaração dos Direitos de Homem e do Cidadão de 24 de Junho de 1793: «nenhum homem pode vender-se ou ser vendido, a sua pessoa não é uma propriedade alienável». E é lançado o desafio da plena consagração do princípio da inalienabilidade da pessoa humana no século XXI.

A mercantilização do corpo é, desde há muito, vedada pela ordem jurídica. Nos termos do artigo 16º, nº 1, do Código Civil francês, «o corpo não pode ser objecto de direitos patrimoniais». E é também esse o princípio proclamado em 1991 pela Organização Mundial de Saúde. Há quem defenda que a proibição da maternidade de substituição deve restringir-se às situações de exploração económica e lucrativa, deixando de lado as da sua prática desinteressada e altruísta. Mas a investigação empírica vem demonstrando que estas situações são raríssimas. Compreende-se que o sejam e que só situações de grande carência económica levem mulheres a sujeitar-se a tão traumatizante experiência. Algumas legislações (como a britânica) proíbem os pagamentos, mas prevêem a «compensação de despesas» que acabam por ter efeito idêntico. E será sempre difícil o controlo judicial de compensações indirectas ou não monetárias (bens em espécie, férias, possibilidades de trabalho, etc.).

A exploração comercial desta prática vem assumindo facetas chocantes. Há empresas norte-americanas que, a troco de preços exorbitantes, garantem a supervisão rigorosa das condições de alimentação e saúde das gestantes e até, nalguns casos, o recurso ao aborto em caso de insatisfação com o «produto» (o preço total só é pago a final: »no product, no payment»). No outro extremo, na Índia, os preços são muitíssimo mais baratos e a oferta de «mães» também muito mais abundante. A estas são proporcionadas «férias pagas» com a exigência de total separação da família, com a garantia de rendimentos correspondentes a vários anos de trabalho e sem o estigma associado à prostituição, que seria uma alternativa para essas mulheres. O chamado dumping social (a concorrência na base de mais desvantajosas condições laborais) estende-se, assim, ao domínio tão precioso da vida e da maternidade. As empresas indianas publicitam o baixo custo dos seus serviços, o exotismo da viagem e a vantagem do «desapego emocional» em relação a uma mãe culturalmente estranha aos clientes. Contra a concorrência indiana, alegam as empresas ucranianas mais garantias de boas condições sanitárias. A lógica mercantil da concorrência afirma-se, pois, em toda a sua dimensão.

Mas mesmo que a exploração comercial esteja afastada (o que é difícil e raro, diga a lei o que disser), não estão afastados os danos psicológicos que esta prática necessariamente envolve e que a seguir se analisarão.

O valor da autonomia individual, dos clientes e das mulheres prestadoras do serviço é enfatizado pelos partidários da legalização da maternidade de substituição. Mas sobre essa direito prevalece – afirma o documento - «o direito à dignidade da pessoa humana, a obrigação da sociedade de proteger os direitos dos indivíduos, mesmo contra eles mesmos, sobretudos dos mais frágeis». Citando o Comité de Orientação da Agência de Biomedicina, também aí se salienta que «do princípio da dignidade humana deriva a ideia de que o Estado deve proteger os cidadãos contra eles mesmos quando exercem a sua autonomia em sentido contrário à sua dignidade, e isto apesar do seu consentimento. Neste caso, o consentimento é provavelmente distorcido, quer pelas características necessariamente imperfeitas da informação disponível quanto ao desenrolar imprevisível da gravidez, quer pela perspectiva atraente de uma indemnização financeira que, em muitos casos, altera a liberdade de escolha». Eu acrescentarei que, por idênticos motivos, pode considerar-se irrelevante o consentimento no caso da prostituição ou da venda de órgãos, tal como seria irrelevante uma escravidão consentida, mesmo que esta (como sucedeu em muitas épocas e pode suceder ainda hoje) pudesse assegurar a sobrevivência económica do escravo, de outro modo posta em causa. E também pode considerar-se irrelevante o consentimento no caso da eutanásia, também ele distorcido pela fragilidade própria da situação existencial que normalmente lhe subjaz.

Tal como na instrução Donum Vitae e no excerto acima transcrito, neste documento também se afirma que não há um «direito ao filho», mas antes os «direitos do filho». E estes são o de não ser objecto de qualquer convenção ou contrato, de não ser tratado como uma mercadoria e de conhecer as condições do seu nascimento. Cita-se a resposta da antropóloga Françoise Héritier à revista L´Express, de 25/2/2020, a propósito da maternidade de substituição: «Confunde-se muitas vezes o «direito ao filho» com o «direito do filho». Eu sei que a nossa sociedade não tolera a frustração, mas esse direito ao filho não existe, porque, neste caso, o filho não surge automaticamente». Negar o «direito ao filho» tem outras implicações –acrescento eu – em matéria de bioética e de regime da procriação medicamente assistida: pode levar à rejeição da procriação heteróloga, por exemplo.

Como também tem sido salientado pelo magistério da Igreja Católica, rejeita-se a ideia de que tudo o que é tecnicamente possível é lícito («tout ce qui se peut se doive»), de forma peremptória: «O combate humanista obriga a sair deste cientismo que, conjugado com a tentação de fazer do direito do indivíduo a obter o que quer o fim último de tudo, prognostica um futuro temível».

O documento debruça-se sobre os danos psicológicos que a maternidade de substituição pode acarretar para o filho, para a «mãe de substituição» e para os outros filhos desta, sublinhado, antes de mais, que se trata de matéria em que deve ser liminarmente rejeitada qualquer ideia de experimentação ou de assunção de riscos de ocorrência desses danos.
O filho não deixa de sentir o abandono da «mãe de substituição».

Cada vez se conhecem melhor os intercâmbios entre a mãe gestante e o feto e a importância desse intercâmbio para o salutar desenvolvimento físico, psicológico e afectivo deste. Esse intercâmbio chega a ter uma dimensão genética e ajuda a construir a própria identidade da criança. Esta não poderá experimentar a segurança de reconhecer, depois do nascimento, o odor, o calor, o tom de voz e os batimentos cardíacos da mãe em cujo corpo habitou durante vários meses. Por outro lado, quando vier a saber que foi objecto de um contrato, há-de sofrer com isso.

A «mãe de substituição» também sofre graves danos porque uma qualquer mulher não fica indiferente ao que lhe acontece quando está grávida. Este estado não é uma actividade, mas um acontecimento simultaneamente biológico e biográfico. Transforma a sua vida na sua integralidade: física, psicológica e moralmente. Não se trata de uma actividade que possa ser realizada num dia e interrompida no outro. A mulher não pode deixar de viver a gravidez como sua e de sofrer com o abandono do filho. É, por isso, compreensível que, mais tarde, queira ter o direito de visitar o seu filho (e o que lhe responder, então, quando a lei lhe nega esse direito?). O útero é inseparável do corpo e da pessoa, não é um alojamento temporário, ou um instrumento técnico.

Os outros filhos da mulher poderão sofrer danos psicológicos quando souberem que o corpo da mãe albergou um estranho à família e recear que também eles possam um dia ser abandonados e vendidos.

Dir-se-á que tudo isto já sucede quando uma criança é abandonada ou «dada» para adopção. Mas essa é uma situação que não pode ser evitada (se tal fosse possível, seria evitada). Aqui, estamos perante um abandono deliberadamente programado. Mais: é a própria lei que institucionaliza o abandono. É como se a lei vedasse a obrigação mais natural que existe: a de assumir a vida de que se é autor.

A maternidade de substituição tem dado origem a problemas de ordem jurídica de muito difícil solução. Poderão ser um interessante campo de estudo para estudantes de Direito, mas os dramas humanos que lhes estão associados não podem deixar de suscitar inquietação.

O documento em análise elenca os vários problemas possíveis, começando por salientar que a maior parte deles nem sequer se relaciona com questões de ordem monetária (de onde se conclui que não basta proibir a onerosidade dos contratos para afastar os problemas a que pode dar origem a maternidade de substituição). Mesmo quando a «substituição» se dá entre pessoas com relações familiares (o que por vezes sucede), ocorrem conflitos com graves repercussões nessas relações.

Um primeiro grupo de problemas surge quando a «mãe de substituição» muda de ideias e quer assumir a maternidade ou abortar. No caso In Re Baby M, de 1988, o Supremo Tribunal de Nova Jersey, salientando os inconvenientes da prática da maternidade de substituição na perspectiva do interesse do filho, deu razão à gestante que quis ficar com a criança, Mary Beth Withehead, a qual veio a tornar-se, depois, uma militante opositora dessa prática. No entanto, será difícil sustentar esta posição quando a lei não veda a possibilidade de os contratos em questão negarem à gestante este direito .

Ainda que a «mãe de substituição» não queira ficar com a guarda da criança, pode querer visitá-la ou obter informações sobre ela. Devem tais direitos ser-lhe negados?

Outro tipo de problemas surge quando são os clientes a mudar de opinião, designadamente porque a criança sofre de alguma doença ou não corresponde às suas expectativas, porque nascem gémeos ou porque o casal se separa entretanto.

Há conflitos relativos às imposições dos clientes a respeito da conduta da «mãe de substituição» durante a gravidez: regime alimentar, proibições de fumar ou de viajar.

E há, também, conflitos relativos às condições de pagamento. A ameaça de não entrega da criança é uma forma de pressão de que a gestante por vezes se serve para fazer valer os seus pretensos direitos de conteúdo patrimonial.

Ao tomar conhecimento destes problemas, a conclusão que retiro é a de que eles serão sempre prováveis, que nenhuma das soluções possíveis pode ser satisfatória e que o melhor será sempre evitar que eles surjam, cortando o «mal pela raiz», proibindo a maternidade de substituição.

Nesta, como noutras questões, há quem defenda que a legalização se impõe para enquadrar uma prática que necessariamente há-de ocorrer, no próprio país ou em países estrangeiros onde ela é legal, evitando-se, desse modo, a precariedade da situação jurídica das crianças que venham a nascer. A este tipo de argumentação responde o documento, salientando que os problemas assim suscitados podem ser resolvidos sem a legalização da maternidade de substituição e, sobretudo, afirmando categoricamente que a função do Direito não é a de ceder ao «facto consumado», responder a qualquer desejo ou acompanhar criticamente qualquer tipo de evolução social. O Direito tem uma missão pedagógica de tutela de valores. Não é a circunstância de determinadas práticas puderem ocorrer no estrangeiro (pornografia infantil, ou o tráfico de órgãos), ou até aí serem legais (a poligamia, por exemplo, que também pode suscitar problemas de precariedade da situação jurídica do cônjuge), que exime o sistema jurídico nacional de cumprir essa sua missão pedagógica.

Este é um princípio que me parece oportuno relembrar e que tem aplicação noutro tipo de situações como o aborto, a eutanásia ou outras práticas relativas à procriação medicamente assistida, questões que os vários Estados vão regulando de forma mais ou menos permissiva. As crescentes facilidades de deslocação internacional podem frustrar uma intenção restritiva do legislador nacional, mas este não tem que submeter-se ao «facto consumado» e à inevitabilidade de uma cada vez maior permissividade. Quanto mais não seja, porque se mantém sempre o seu papel pedagógico.

O documento em análise não ignora os dramas dos casais inférteis, que estão quase sempre na base da procura da maternidade de substituição . A resposta a esses dramas há-de passar pela facilitação do acesso e do processo de adopção. Uma resposta que – acrescento eu – deve estar presente sempre que se defendem restrições à legitimidade ética de práticas de procriação medicamente assistida propostas como resposta a esses dramas.

O documento conclui reforçando a ideia de que causa da legalização da maternidade de substituição não pode ser considerada uma causa «progressista» ou «de esquerda». Pelo contrário, representa uma regressão social, uma degradação das mulheres, de modo especial as mais pobres. Tem subjacente uma lógica ultra-liberal: basta o interesse recíproco numa transacção para a legitimar, sem que se reconheça uma comunidade de valores e normas; as leis do mercado estendem-se ao corpo humano, ignorando o papel protector e civilizador da Lei. É estranho que pessoas habitualmente tão críticas da extensão da lógica do mercado aos domínios da saúde e da cultura, aceitem tão facilmente essa extensão ao domínio da mercantilização do corpo. É sintoma de egoísmo social a indiferença perante a situação de mulheres pobres que, só por serem pobres, se sujeitam a algo a que ninguém gostaria de ver sujeitas a esposa ou a filha.

Alguns limites tenho que apontar, porém, a este documento.

Um deles é o de que parte do princípio de que o aborto é um direito da mulher e um sinal de progresso social. Esse direito seria posto em causa pela limitação que os contratos de maternidade de substituição colocam à livre gestão do corpo da mulher. Ora, se há exemplo flagrante de instrumentalização e «coisificação» de outrem, mais até do que a maternidade de substituição, esse é o do aborto, em que se suprime a vida de outrem, forma mais extrema de atentar contra os seus direitos e a sua dignidade de sujeito.

Por outro lado, o documento não toma posição quanto à adopção por uniões homossexuais, questão que divide os seus subscritores. Ora, também essa questão surge como reivindicação de um «direito ao filho», direito que não existe, como afirma o documento. É o direito do filho e o seu interesse que devem prevalecer sobre as pretensões dos candidatos à adopção e são esse direito e esse interesse que reclamam que àquele seja proporcionada a situação que mais se aproxima da filiação natural, a que mais se aproxima da situação da das outras crianças, a presença de um pai e de uma mãe. Se assim não for, se prevalecer o pretenso «direito ao filho» dos candidatos à adopção, também estaremos perante uma instrumentalização e «coisificação» da criança.

Com estes e outros limites, parece-me de realçar a postura deste documento, sobretudo porque, como disse acima, mostra como causas frequentemente apresentados como «progressistas» não o são verdadeiramente, que aquilo que se quer fazer passar por progresso social é, no fundo, um grave retrocesso, e que as questões da bioética e da justiça social não estão desligadas. E que princípio defendidos pelo magistério da Igreja Católica podem sê-lo com vigor idêntico (porque têm uma dimensão universal, e não estritamente confessional) por sectores à partida dela bem distintos.








Mães terão que ver os seus bebés antes
de fazer um aborto no Texas

Um Tribunal Federal de Apelação no Estado do Texas (Estados Unidos) sentenciou que as mães deverão ver os seus bebés numa ecografia se quiserem submeter-se a um aborto.

O Republicano, Governador do Texas e candidato à Presidência dos EUA, Rick Perry, assinalou que a sentença é «uma vitória para todos aqueles que defendem a vida».

«Cada vida que se perde num aborto é uma tragédia, e esta legislação sobre a ecografia assegura que toda a mulher no Texas que queira abortar conhecerá todos os factos sobre a vida que leva e poderá entender o devastador impacto de tal decisão», explicou.

Com esta lei, os médicos devem efectuar a ecografia numa mulher que quer abortar pelo menos 24 horas antes.

O médico deve dar à mulher a oportunidade de ver os resultados e escutar o batimento do coração dos seus filhos. Ele também deverá descrever o que a ecografia revela.

Se um médico violar esta norma, poderá ser multado com 10 mil dólares e perderá automaticamente sua licença. Entretanto as mulheres que demonstrem que foram vítimas de violação, incesto ou tenham um bebé com má formação congénita, estarão isentas da ecografia.
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Para os promotores do aborto como Nancy Northup, Presidente do Centro para os Direitos Reprodutivos (favorável ao aborto) com sede em Nova Iorque, a decisão da corte foi «extrema».

Na sua opinião, esta lei «insultante e intrusa tem como único propósito perseguir as mulheres e dissuadi-las de exercer seus direitos reprodutivos constitucionalmente protegidos».

Por sua parte, o Senador Dan Patrick, Republicano de Houston (Texas), elogiou a norma que também conta com o apoio do Governador Perry.

Patrick disse que esta legislação é «extremamente gratificante».

Em declarações ao Wall Street Journal, o Senador disse que esta lei protege o «direito a saber» da mulher, de modo que ela possa ter «toda a informação que merece antes de tomar a decisão de dar fim a uma vida».

O aborto provocado é a eliminação ou assassinato de um ser humano dentro do ventre da mãe.

A Doutrina Católica e a lei natural coincidem em que o aborto jamais é justificável pois ninguém tem direito a decidir sobre a vida de outra pessoa, menos ainda a dos mais fracos e inocentes; os não-nascidos.

Confessionários vazios, spas cheios

Pedro Afonso


Recentemente um sacerdote lamentava-se de passar horas a fio no confessionário sem que ninguém aparecesse. Ora, num país que se diz maioritariamente católico, este fenómeno merece reflexão, pois se os confessionários estão vazios os «spas» são cada vez mais procurados. Por conseguinte, talvez não seja por acaso que Portugal ocupe um indecoroso 32ºlugar no Índice de Percepção da Corrupção, relativo a 2011, divulgado pela Transparência Internacional, de um total de 183 países avaliados.

 Numa sociedade cada vez mais secularista, a noção entre o bem e o mal tem vindo a esbater-se. Se recusarmos assumir que o bem e o mal são realidades naturais, como é que faz sentido falar-se em justiça? Existem interesses políticos e económicos que visam extinguir da nossa sociedade uma certa consciência moral. É o principio de todas as tiranias: prometem de início o cumprimento de todos os desejos humanos, dando rédea solta a todos os instintos e apetites, mas rapidamente se apoderam da liberdade de um povo.

E foi o que aconteceu connosco. Portugal não perdeu apenas soberania com a dívida pública, antes disso, perdeu um depósito moral que urge repor. A televisão não ficou indiferente a este fenómeno, explicando-se deste modo o florescimento de programas televisivos moralmente degradantes, como «a casa dos segredos», nos quais,  em vez de se enaltecer as virtudes humanas, se idolatram os vícios privados e se promove a boçalidade. Escasseiam as pessoas que falam com a mínima convicção sobre o bem e o mal e quando alguém expressa este tipo de opinião ela é escarnecida, apontada como fundamentalista – como se fosse possível haver alguma tolerância perante  o lamaçal da degradação humana.

Temos assistido a um aumento da corrupção, criando-se a percepção perigosa  de que aqueles que ontem foram as vítimas, se tiverem oportunidade, convertem-se amanhã em carrascos. Impera o principio justificativo «todos fazem assim...». E quando alguém deixa de acreditar nos princípios é porque deixou de os ter. A corrupção não se combate apenas com leis gerais, numa planificação em grande escala. A corrupção só se combate eficazmente quando o indivíduo reconhece que o mal está dentro de si próprio. Mas como será possível alcançar este objectivo se apenas se promove o auto-endeusamento?

Esta crescente idolatria pelos centros de rejuvenescimento, relaxamento e anti-stresse é psiquicamente estéril. A fecundidade está no acto de nos questionarmos quanto ao que está certo e se, porventura, nos teremos equivocado; a fecundidade está na reflexão pessoal e no desejo de enriquecer as nossas qualidades humanas. Não é possível melhorarmos enquanto país se não melhorarmos enquanto pessoas. E este elemento de mudança não está ao alcance de nenhum governo.

Um país para ser verdadeiramente livre e próspero terá de fomentar a autocrítica e o pensamento, defender uma consciência moral, assumir que existe um bem-comum e que todos nós somos responsáveis pela sua conquista. Devido à constante correria é provável que hajam muitas pessoas que nem sequer tenham consciência disso. É preciso travar esta agitação febril para as soluções fáceis, penetrando na raiz do problema. Pior do que termos uma praga de «spas» é entronizarmos a decrepitude e entregarmo-nos submissos à época viciosa em que vivemos.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Cristão turco agredido por distribuir Bíblias

Turquia na Europa?...

Um jovem cristão turco foi agredido em Istambul enquanto distribuía alguns exemplares da Bíblia.

O episódio, último de uma série de manifestações de intolerância religiosa, verificou-se no bairro de Kadikoy.

Yasin Karasu, de 24 anos, vendedor ambulante de CD's, agrediu Ismal Aydin usando uma faca, colocada na garganta da vítima.

Segundo o jornal turco Haber Turk, Karasu gritava no momento da agressão, afirmando que na Turquia não é permitido.

Em Fevereiro de 2006, o missionário italiano, Pe. Andrea Santoro, foi assassinado na Igreja de Santa Maria, de Trabzon, enquanto celebrava a missa. Um anos depois, três pastores protestantes, um missionário alemão e dois turcos, foram assassinados em Malatya.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Família: Papa alerta para «eclipse de Deus»
e «degradação da ética sexual»

Bento XVI sublinha papel dos pais para a nova evangelização


Bento XVI alertou para o que apresentou como «eclipse de Deus, a difusão das ideologias contrárias à família e a degradação da ética sexual» nas sociedades contemporâneas, situações que considera «ligadas entre si´».

O Papa falava no Vaticano aos participantes da 20.ª Assembleia Plenária do Conselho Pontifício para a Família, por ocasião do 30.° aniversário desse organismo da Santa Sé.

Na sua intervenção, o Papa disse que «a nova evangelização depende, em grande parte, da Igreja doméstica», a «família cristã».
«A família é, de facto, o caminho da Igreja, porque é "espaço humano" do encontro com Cristo», precisou.
Segundo Bento XVI, os casais cristãos são chamados a evangelizar com o «testemunho de vida» e com a participação nas «actividades pastorais».
«A família é riqueza para o casal, bem insubstituível para os filhos, fundamento indispensável da sociedade, comunidade vital para o caminho da Igreja», declarou.
O Papa afirma que «a família fundamentada no Sacramento do Matrimónio é actuação particular da Igreja, comunidade salvífica e salvadora, evangelizada e evangelizadora».

«Como a Igreja, a família é chamada a acolher, irradiar e manifestar no mundo o amor e a presença de Cristo», acrescentou.

Bento XVI concluiu o seu discurso evocando o 7.° Encontro Mundial das Famílias que se realizará em Milão, Itália, de 30 de maio a 3 de Junho de 2012.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Universidades:
«Papa critica fuga de cérebros»

Bento XVI encontrou-se com estudantes de vários países, no Vaticano

Cidade do Vaticano, 02 dez 2011  – Bento XVI pediu hoje aos estudantes universitários que resistam à chamada «fuga de cérebros», procurando afirmar-se como uma categoria «social e culturalmente» relevantes nos seus países de origem.
 O Papa falava a um grupo de jovens de vários países, reunidos no III Congresso Mundial da Pastoral para Estudantes Estrangeiros, promovido no Vaticano pelo Conselho Pontifício para a Pastoral dos Migrantes e Itinerantes.
 Neste contexto, Bento XVI sublinhou que os universitários são um grupo “cada vez mais numeroso” dentro do fenómeno migratório, por força da falta de estruturas adequadas nos seus países, tensões sociais e políticas
«É importante, portanto, oferecer-lhes (estudantes) uma preparação intelectual, cultural e espiritual equilibrada e sã, para que não sejam presas da fuga de cérebros e contribuam a levantar pontes culturais, sociais e espirituais com as nações que um dia os acolheram», disse o Papa.
 Sobre o tema do congresso, dedicado este ano ao encontro de culturas, o Papa disse que o mesmo é «fundamental» para o futuro «da humanidade e da Igreja».
 «Hoje, mais do que nunca, a abertura recíproca entre culturas é um terreno privilegiado para o diálogo entre todas as pessoas comprometidas na busca de um autêntico humanismo», prosseguiu.
 Para Bento XVI, os estudantes internacionais têm «o potencial para se transformarem em artífices e protagonistas de um mundo com um rosto cada vez mais humano, graças à sua formação intelectual, cultural e espiritual».
 O discurso papal destacou o papel destinado a uma «nova geração capaz do diálogo e do discernimento, empenhada em difundir o respeito e a colaboração pela paz e o desenvolvimento».
«Os jovens cristãos, que procedem de culturas diversas, mas pertencem à única Igreja de Cristo, podem demonstrar que o Evangelho é palavra de Esperança e salvação para os seres humanos de todos os povos e culturas, de qualquer idade e época», concluiu.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Padre pára baptizado ao descobrir
que padrinho é invertido

O padre da paróquia de Nossa Senhora da Conceição, no sul de Espanha, travou a celebração de um baptizado quando descobriu que o padrinho era invertido e que estava «casado» pelo civil com outro homem, uma união que a lei espanhola permite. A família da menina de seis meses não se conforma e vai levar o caso para tribunal, como se este tivesse alguma autoridade sobre os critérios da Igreja.

O pretenso padrinho é um ex-catequista, trabalhador da Cáritas, membro de confrarias e garante ser «católico praticante» o que significa que gente desta se infiltra na Igreja e nos seus movimentos.

Os progenitores queixaram-se ao arcebispo da província de Jaén, por considerarem tratar-se de uma descriminação e denunciaram o caso publicamente. O arcebispado respondeu, através de comunicado, apoiando o pároco e explicando que um padrinho católico precisa ter uma vida «congruente».

A Associação Colega – Colectivo de Gays, Lésbicas e Transexuais apoia a família, considerando que a decisão da Igreja é «uma homofobia sacerdotal». O costume...

Apenas temos  de louvar a frontalidade do padre.



quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

UMA HISTÓRIA DE NATAL - Parte II


…E escondeu-se atrás de umas giestas
José Augusto Santos

Parte II

Não obstante, aproveitando o momento favorável, disse aos pais que este ano, para o Natal, preferia que lhe dessem em dinheiro o valor das prendas que pudessem vir a oferecer-lhe. Tivesse sido tal ideia apresentada noutras alturas e teria como resposta um rotundo não, dado saberem que o mais certo seria o estourá-lo pelos maus caminhos com os amigos. Mas agora estavam, por uma vez na vida, confiantes, predispondo-se a ajuda-lo a convencer os avós e os tios a fazerem o mesmo.

Apesar de para elas ser o seu menino, uma das tias e a avó muito resistiram em abdicarem da alegria que queriam ter ao verem o espanto dele quando lhe dissessem para ir com elas buscar a prenda onde a deixaram encomendada. Tratava-se de uma prenda que há muito lhe viam ser negada pelos pais, e que agora elas estavam dispostas a oferecer-lhe, por, apesar de tudo, terem notado nele a vontade de mudar, desde que fora com elas a Fátima num fim-de-semana de Setembro. É que a prenda era só uma moto-quatro… Porém, depois de ouvirem as últimas sobre ele, crendo que desta vez ele iria dar mais valor ao dinheiro e quereria agora começar a fazer o mealheiro que nunca teve, acabaram por concordar.

Aos pais caberia porem-lhe num envelope 425 euros, que era o valor da guitarra que já tinham visto numa loja de instrumentos musicais, com a qual o pretendiam surpreender, agora que viam nele o menino capaz de se integrar no Grupo de Jovens da paróquia, onde aprenderia a tocar, satisfazendo ao mesmo tempo aquela sua vontade há muito manifestada.

Uma vez obtida a concordância para que lhe dessem em dinheiro o valor das prendas, pediu para que lhe fosse dado com a maior antecedência possível. Crendo que seria para aproveitar alguma boa oportunidade à sua aplicação, todos acabaram por corresponder ao pedido.

Uma secreta alegria interior criou nele sinais que levaram os pais a aguçarem ainda mais a sua curiosidade. Tentaram por isso descortinar a eventual razão daquele seu estado, que agora se podia dizer de uma serena mas notória felicidade, mas em vão.

Dias depois, pondo os familiares tão curiosos quão baralhados por não conseguirem perceber de que forma ele poderia manter a surpresa para si mesmo se só iria abrir um dos envelopes no dia de Natal e ao mesmo tempo pedia para que lhos dessem antes, disse-lhes para colocarem o dinheiro respeitante a cada prenda em envelopes individuais e sem a indicação do valor contido, e num segundo envelope um cartão ou um bilhetinho a dizer qual seria a prenda que cada um pretendia oferecer-lhe. Ainda que nada ficassem a perceber daquilo que mais parecia um jogo de detectives, assim prometeram fazer.

Mas ainda havia mais… Ao pai pediu expressamente que fosse ele a oferecer-lhe outra prenda, uma caneta, que podia muito bem ser a esferográfica mais barata, desde que escrevesse bem, e que gostaria de a ter quanto antes, se possível no dia seguinte.

Todos estavam muito expectantes, dado que atrás de uma vinha sempre outra surpresa, chegando mesmo a perguntarem-se se aquela seria a última. Mas algo lhes dizia que não. Isto da caneta ainda os intrigava mais; devia ter outra história associada.

Recebida a caneta no dia seguinte, apresenta à mãe outro pedido: que reunisse a família num almoço no primeiro Domingo de Dezembro, dia em que muito agradecia que lhe dessem os tais envelopes.

Cada vez mais confusos, os pais começavam a sentir-se como personagens de um filme de Agatha Christie. «Mas como podia este “aprendiz de detective” criar um tal enredo, se aquela série não chegou a ser do tempo dele?», questionou sorridente o pai.

Chegara o dia de desvendar todas as surpresas. Ao receber a tia que participava com a avó na mesma prenda, lá teve que fazer um esforço para permitir que ela o cumulasse de miminhos, ele que não era nada de beijinhos…

Dado o «filme» criado, à maioria tanto lhes dava que o almoço fosse ricamente composto, com caviar e tudo, como se na mesa apenas houvesse pão com uma cebola salgada, tal era a expectativa.

Com os envelopes em sua posse, foi guardar na gaveta da secretária os que apenas continham o bilhetinho escrito. Os que continham o dinheiro, meteu-os no bolso interior do blusão, puxando o fecho para maior segurança.

Mal terminara o almoço, garantindo a todos que não demoraria a revelar tudo, pediu que aguardassem um pouco, porque tinha que ir rápido a casa de um colega devolver-lhe um livro e uns apontamentos de que estava a precisar. E para não demorar, porque naquela rua não havia estacionamento possível, pediu à prima que fosse com ele. Pegando na mochila, saíram sem demora.

Uns vinte minutos depois, regressa só a prima. Pasmados, ouviram-na dizer que o levara ao Parque das Nações, onde ele lhe disse que afinal ia demorar mais do que o previsto e que por isso ela deveria regressar, uma vez que não sabia que tempo poderia demorar.
Pelo semblante, a noite parece ter caído escura e abruptamente no interior da mãe, sabendo ela que um dos colegas da má vida morava no Parque das Nações. Um outro tipo de filme começava agora a desenrolar-se em seu pensamento. Nele via que todos acabaram sendo ludibriados. E logo nesta altura em que, depois de terem pago as propinas da faculdade, se excederam num esforço de generosidade para com ele no tocante à prenda, por terem acreditado que agora a merecia…

A pesada atmosfera adensou-se ainda mais quando a Catarina disse ao tio que fosse à gaveta da sua mesa-de-cabeceira, onde o filho lhe deixou uma carta, e a lesse diante de todos, conforme ele pedira.

Como que num grito sufocado, banhada em lágrimas e amparada pela cunhada que a tentava consolar, a pobre mãe não conteve o desabafo que parecia sair-lhe das entranhas:

– Este filho vai ser o meu fim…
O pai, não fosse a presença dos restantes familiares a quem o conteúdo da carta também se destinava, tê-la-ia rasgado sem mais, tão farto que estava de tantas promessas e tantas mentiras. O controlo que procurava manter, mais pelos presentes do que por ele mesmo, não era o suficiente para não denunciar o que no seu interior se passava, uma vez que era bem visível o tremor das mãos enquanto abria a carta.
Um silêncio que magoava apoderou-se de todos. Para melhor resistirem à última machadada que a mensagem lhes traria, sentaram-se, seguindo-se um respirar fundo da parte de alguns.
A carta era longa, de várias páginas. Começava por dizer que tinha sido escrita com a caneta que pedira ao pai como prenda, justificando a razão pela qual lhe fez a ele aquele pedido. A todos pedia desculpa pela sua ausência não anunciada, dizendo que assim procedeu para evitar a oposição que teria que enfrentar, por isso decidiu meter-se no expresso para ir ao encontro de uma pessoa que fugazmente conhecera no último dia de Outubro. E dado que às Segundas apenas tem uma aula de Engenharia Sísmica Geotécnica, só regressaria no dia seguinte à noite.
A partir daquele parágrafo, começou a descrever pormenorizadamente como tudo acontecera nesse último dia de Outubro: a caminhada com o primo pelos montes e a maldade que queria fazer àquele homem, bem como o impacto que nele teve a sua postura, o sentir-se imensamente grato por tão pouco…
À medida que iam tendo esse tão detalhado conhecimento dos acontecimentos, o estado de espírito dos ouvintes passou da noite escura para a manhã exuberante de primavera, em que o sol se apresenta pela manhã com suas potências de alegria, exultando com ele toda a natureza.
Como os lenços de papel já se tinham esgotado, até a toalha da mesa teve que servir à avó para ir limpando as lágrimas, que irromperam até no pouco emotivo tio do Fernando. E este, sequioso como os demais por ouvir o que era dito nas páginas que ainda faltavam, tirou das mãos do irmão as folhas, uma vez que a emoção o obrigava a algumas pausas, para passar ele a ler.
Aquela interrogação que os pais se chegaram a colocar sobre algum namorico, estava agora a ser respondida: o seu filho tinha-se enamorado por Deus. Isso ficou bem claro pela forma tão linda como ele descreveu tudo o que sentiu naquela Missa de Cristo Rei. O brilho nos olhos com que chegou a casa depois da primeira catequese, só agora estavam a compreende-lo, bem como o que dissera sobre uma grande ideia que trouxera dessa catequese.
Todo o jogo por ele criado estava de facto a ser desvendado como prometera, e por uma vez nesse jogo, todos acertaram no que diria a seguir sobre o destino a dar ao dinheiro, mesmo antes de o tio chegar a esse ponto da leitura.
Neste momento, o segundo leitor já se mostrava tão vencido pela emoção como o primeiro, e depois de ler a parte final, onde o sobrinho reconhecia todo o sofrimento que tinha acusado a todos, mas principalmente aos pais, rogando o seu perdão e pedindo ao mesmo tempo que continuassem a rezar por ele, como sempre fizeram, depois de uma pausa acompanhada de uma respiração profunda, pergunta ao irmão e à cunhada se ali também havia Missa aos Domingos à tarde… Ele que há 16 anos não põe os pés na igreja, desde a primeira comunhão da filha… Apesar de todos os presentes já terem cumprido esse piedoso dever de manhã, sem qualquer palavra, trocando apenas um olhar e um sorriso de cumplicidade, anuíram irem todos àquela Missa que seria para os pais do Fernando a Missa mais emotiva pela imensa gratidão que sentiam para com Nossa Senhora, a quem suplicaram durante anos e anos a conversão daquele filho…
Que grande Natal estavam já a viver! Que grande lição receberam por meio de quem não julgavam ser possível! Que efeitos viram no tio, que depois da Missa disse que no Domingo seguinte cá estariam de novo para falar com o padre no sentido de saber de alguma maior necessidade que lhe permitisse também a ele viver o verdadeiro Natal de Jesus.
Sua mãe, a avó do Fernando, estava a sentir-se como o ferro que sai da forja, que é malhado, submergido na água e volta novamente à forja, tal era a diferença e a intensidade de sentimentos a que foi sujeita. Depois da emocionante história do neto, estava a suceder-se o início da do filho… Pensando agora em todos os Natais passados, dava-se conta que, verdadeiramente, nunca o tinham vivido. Em seu lugar sempre colocaram o que fora criado pela sociedade, que nada tem a ver com o festejar o nascimento do Salvador.  
A Catarina, que já tinha comprado algumas prendas, mas para os meninos da Casa do Gaiato, voltando-se para a avó, diz-lhe, com os olhos a brilharem: − Vês, avó, como eu te dizia que não te ralasses tanto com o meu pai, porque, sendo bom, um dia haveria de mudar?
E parecendo falar mais para si própria do que para a avó, diz, sorridente e com um ar pensativo: − Agora tenho uma história real que me vai ajudar a falar aos meus meninos da catequese no Natal que Jesus quer que festejemos. E se o primo e os tios não se importarem, servir-me-ei de algumas partes da carta para «postar» no meu blogue, a ver se a mensagem do verdadeiro Natal chega a muita gente.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

UMA HISTÓRIA DE NATAL - Parte I


…E escondeu-se atrás de umas giestas
José Augusto Santos

Parte I


Nos Santos, uma vez que às Segundas-feiras apenas tem uma aula à tarde, o Fernando, ao saber que os primos e as tias também lá iam, convenceu os pais a permitirem a sua ida à terra.

Naquela Segunda-feira, que foi o último dia de Outubro, ao regressarem da feira, o Fernando sugeriu ao primo que fossem dar uma volta pelos montes, como ele muito gostava. Com um sorriso brincalhão, responde às advertências da tia: – Sim, tia, nós sabemos, os lobos podem-nos comer… –, e lá seguiram, acabando por irem até aos Picotos.

No regresso, da barragem tomaram o caminho dos Agros, e mais abaixo viram um homem a arranjar a terra a umas couves. O casaco, que tinha pendurado num carvalho junto ao caminho, deu logo ao Fernando a ideia para fazer uma maldade ao homem. Mesmo sabendo que o primo não era dessas coisas, que era certinho demais para o seu gosto e até se tornara beato ao ponto de ajudar à Missa, disse-lhe para pregarem uma partida ao velho, escondendo-lhe o casaco para verem a sua cara quando desse por falta dele.

O primo, conhecendo aquele pobre homem, a quem toda a má sorte parece ter batido à porta e por isso o ar de velho que aparentava, sabendo que a doença o impedira de garantir o sustento da família, propôs-lhe então uma outra brincadeira, dizendo-lhe: − Basta olhar para o senhor para ver que comparativamente a ele tu és rico, eu diria até que és muito rico. Se quiseres ver a sua cara de espanto, põe-lhe então nos bolsos o troco que recebeste dos nossos gelados, e escondemo-nos para ver a sua reacção.

Vendo que o homem estava a terminar o trabalho, assim fizeram, e esconderam-se atrás de umas giestas.

Quando ia a pegar no casaco, o pobre viu que as mangas tinham uma dobra na ponta, e achou estranho…

Ao desfazer uma das dobras para o vestir, vê, com grande surpresa três moedas de um euro cairem ao chão. Em seu ar de espanto, poderia ler-se a interrogação: como é isto possível? Olhando em redor, sem ver nem ouvir ninguém, a não ser uns passarinhos que cantavam um pouco mais desviado, guardou as três moedas, para ele, três preciosas moedas. Quando desfaz a dobra da outra manga, pareceu ter recebido um choque: nela estava uma nota de cinco euros.

Olhando de novo em toda a volta, acabou por concluir que por ali não havia vivalma. Esmagado pela emoção, cai de joelhos em terra, e de mãos postas e olhar voltado para o céu, diz em voz alta, enquanto as lágrimas pareciam sair-lhe de uma nascente:

− Ó meu Deus, ó meu Deus!... Vós ouvistes os meus lamentos, a minha tristeza por nem pão hoje ter para dar aos meus filhos e inspirastes uma boa alma a socorrer-me nesta aflição. Hoje já posso fazer uma canjinha à minha mulher… Fazei, Senhor, que eu seja merecedor das Vossas Graças! Obrigado, meu Deus, obrigado!

Os dois jovens pareciam nem respirar a presenciarem uma realidade que só lhes parecia possível nos filmes. Parecia que até o simples pestanejar lhes dificultaria a atenção com que estavam a receber aquela tão simples e ao mesmo tempo tão grande lição.

Depois daquele sentido agradecimento a Deus, o homem permaneceu por algum tempo naquela posição, em silêncio, de cabeça baixa, queixo encostado ao peito, enquanto as lágrimas lhe iam caindo de forma mais compassada. 

Aquele jovem que só queria pregar uma partida, esforçava-se agora por conter a emoção que pudesse denunciar a presença deles atrás das giestas. Sentindo-se completamente arrebatado pelo quadro desenrolado diante de si, parece ter sofrido um choque que fez romper a carapaça que apenas permitia ver nele um jovem sem sentimentos e que só se sentia bem a fazer algumas travessuras.

Regressado a Lisboa, os pais começaram a estranhar o seu comportamento, muito mais calmo, e a acompanhá-los à Missa ao Domingo…

Os dias foram passando e os pais do Fernando começaram a ficar algo apreensivos com o filho. Perguntavam-se a si mesmos se teria sofrido algum desgosto de amor, por algum namorico que eles mesmos nem conheciam, ao verem-no mais caseiro, sem sair com os amigos… Bem tentaram saber o que é que andava a passar-se com ele, mas o Fernando, sabendo que seria difícil os pais acreditarem na mudança que nele se estava a operar, desviava sempre a conversa.

No Domingo de Cristo Rei, lá estava ele na Missa a acompanhar os pais. As palavras que ouviu do padre, quando dizia que só se poderia celebrar verdadeiramente a festa de Cristo Rei do Universo quando Lhe abrissemos completamente as portas do nosso coração para que Ele aí reinasse em primeiro lugar, recebeu-as o Fernando como proferidas pelo próprio Jesus. E ao seu pensamento voltaram as imagens daquele episódio da aldeia, que tanto o marcaram.

Da homilia, as palavras pareciam-lhe luminosas e a luz que as acompanhava perpassava todo o seu ser, causando-lhe uma espécie de arrebatamento pelo Divino, algo difícil de descrever. Nunca ele tinha experimentado aquele género de sensações. Era uma coisa estranha, algo verdadeiramente novo. Maravilhado, perdera como que a noção do tempo, enquanto a Missa ia decorrendo.

A determinado momento, o diácono já preparava o altar. Em silêncio – como toda a assembleia –, saboreava agora aquela melodia que mais parecia estar a ser executada pelos anjos, tão belas, tão doces eram as vozes dos poucos jovens que compunham o coro, numa perfeita simbiose com o som majestoso do órgão. De olhos fechados, pensou que provavelmente estaria no céu, mas a fria razão disse-lhe que não, que estava apenas a Saborear o sagrado.

Aquela celebração, a mensagem que sentiu ser-lhe dirigida pelo novo Amigo – assim ele passou a sentir Jesus – gerou nele o desejo ardente de não mais faltar a uma Missa ao Domingo.

Consciente daquilo que com ele se estava a passar, olhando para o adolescente e jovem que fora até então, logo pensou no corte que tinha que fazer com os amigos que só pensavam em «curtir», amigos para quem um fim-de-semana sem bares e discotecas seria pior do que estar doente. Foi nesse momento que viu, com tristeza e muita vergonha, que também ele fazia parte desse estilo de vida… Mas como estava decidido a não perder aquela tão serena quão exultante alegria, centrou a sua atenção apenas no que tinha de positivo naquele momento.

Alegrou-se, por isso, ao pensar na feliz consequência que veio a ter aquela que seria uma brincadeira de mau gosto, quando propôs ao primo esconderem o casaco do pobre homem, havia três semanas atrás.

Na cabeça dele, se por um lado a calma passou a ter parte no domínio das suas atitudes, por outro havia como que um frenezim de pensamentos novos, de vontades, de ideias. A lúz que parece te-lo invadido na Missa do dia de Cristo Rei, trouxera-lhe também um sério desconforto, ao lhe permitir ver com clareza tudo o que em si tinha acumulado. E como o Mal não perde uma única oportunidade, aproveitou essa nova e clara visão que ele passou a ter de si mesmo para tentar garantir a continuidade do domínio sobre a sua alma, incutindo-lhe pensamentos negativos, através dos quais lhe eram insistentemente lembradas todas as suas grandes misérias, simples estratégia do Mal para o levar a não acreditar que poderia ser bom.

Percebia agora claramente que tinha contra si uma força que se opunha à vontade adquirida de se emendar definitivamente. Sentindo que precisava de algum tipo de apoio para lidar positivamente com estas novas realidades, ao ouvir falar na catequese de adultos na paróquia, dirigiu-se à igreja para saber se ainda poderia inscrever-se, vendo nisso a oportunidade de retomar o caminho deixado em criança, logo que fez a primeira comunhão.

Por coincidência, soube que um dos grupos ia ter catequese naquele mesmo dia, às 21h30, e que seria uma questão de lá voltar a essa hora e falar com o catequista. Regressou a casa com o pensamento num dado novo: o de que bastava estar mais atento aos sinais para ver que estava no bom caminho. E um desses sinais viu-o na forma como foi acolhido pela senhora que o atendeu, a Fernanda, com uma simpatia que não está acostumado a ver nas pessoas.

À noite, ao se apresentar na sala para falar com o catequista, foi de imediato integrado no grupo. A forma tão afectuosa como foi recebido, viu-a como sendo mais um sinal…

Se os pais já andavam tão positivamente surpreendidos pela sua grande mudança, mais surpreendidos ficaram ao ouvirem do filho o relato da sua entrada na catequese de adultos e do quanto lhe agradou o grupo e o próprio tema tratado. O que eles não souberam foi da ideia com que saiu dessa primeira catequese, nem do momento de sofrimento que ainda iriam viver por causa da forma como o filho faria as coisas.


Equipa mais católica do Brasil,
Vasco da Gama,
mantém capela no estádio

Sérgio Rangel 
Futebol e religião quase sempre caminharam juntos. No Vasco, isso é ainda mais certo. Fundado por portugueses, o clube carioca não esconde seu culto à fé católica. O Vasco é a único time grande brasileiro com uma capela dentro do estádio.

A capela Nossa Senhora das Vitórias fica atrás de uma das balizas já inviabilizou inúmeros projectos de ampliação do estádio de S. Januário.

A direcção não admite destruir o templo para fechar o anel da arquibancada. O clube não funciona nos feriados católicos. Há só três anos, a quipa  foi autorizada a treinar no estádio nessas datas. Até nas entrevistas, os jogadores são obrigados a falar diante da imagem de Nossa Senhora Aparecida.

«Essa fé é importante para o clube. Nos últimos dias, estamos a rezar ainda mais, para o Vasco conquistar o título (do Campeonato Brasileiro)», afirmou o frei Eneas Berilli, responsável pela capela em São Januário.

O local é uma das atrações do estádio antigo. Uma de suas atribuições é celebrar missas e baptizados. O presidente Roberto Dinamite casou.se lá.

O templo foi inaugurado em 1955. A sua construção contou com a ajuda de dez clubes portugueses, que mandaram caixas com terra de suas Sedes. Porto, Benfica e Sporting foram alguns deles.

No próximo ano, o Vasco vai começar a dar aulas de catequese aos atletas das categorias de base cruzmaltinas.

«Encaminhar os meninos na fé cristã é importante», afirmou o frei, que é adepto da equipa de São Januário.

O culto a Nossa Senhora das Vitórias começou em 1923. Durante a conquista do primeiro campeonato carioca, o então presidente Antônio Campos oferecia medalhas da santa aos jogadores da equipa antes dos jogos.

«A capela está também na história da selecão», disse o frei. «em 1958  os jogadores foram ao templo antes da viagem para a Suécia pedir proteção. Após a conquista, eles voltaram para agradecer.»

No elenco atual, os meias Felipe e Juninho Pernambucano são os jogadores mais ligados às tradições católicas. Eles chegam até a frequentar as reuniões na capela.

Entretanto, a maior parte dos jogadores é evangélica, mas não se opõe aos cultos católicos em São Januário.

Felipe é dúvida para o clássico com o Fluminense, amanhã, no Engenhão. Os cruzmaltinos precisam da vitória para permanecer na luta pelo título do Brasileiro. Também é importante rezar para o Corinthians tropeçar.

«O Vasco é um clube muito católico, mas não vejo problema nisso. Tudo ajuda», disse o técnico Cristóvão Borges, que sempre dá entrevistas coletivas de frente para a imagem de Nossa Senhora Aparecida.