quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Razões para não votar Cavaco Silva

Apenas a título de informação, reproduzimos aqui uma pequena discussão entre católicos em torno da candidatura de Cavaco Silva, publicada pelo blog Espectadores. Esta discussão revela a ilusão em torno de Cavaco Silva numa primeira fase, mas quando, no fim de contas, não haveria lugar a ilusões; o desencanto numa segunda fase, mas um desencanto apenas parcial; e a busca de uma política católica nesta conjuntura, mas sem a encontrar.

As conclusões da discussão não são claras, não apontam um caminho coerente e eficaz para uma política católica. Revelam que reina a falta de perspectivas, a falta de estratégia, contradições e ingenuidade política. Sabemos que, ao longo de décadas, os católicos não têm estado ausentes da cena política. Contudo, os resultados não são brilhantes. Pois se o próprio discutido Cavaco Silva é assíduo na missa... Que faltará então?

Deste ponto de vista, que, do aspecto prático, é o essencial, ficamos na mesma ao ler os textos. Mas a sua leitura tem o mérito de revelar quanto é preciso clarificar ideias políticas entre católicos e trabalhar para a sua unidade. Porque a Milícia de São Miguel se propõe precisamente contribuir para esse objectivo, julgamos útil a reflexão sobre estes textos tão representativos do meio. Por isso aqui os reproduzmos.




[ Blog Espectadores, Parte I ]

Considerações preliminares

• Eu votei Cavaco Silva nas últimas eleições presidenciais;

• Se Cavaco Silva tivesse tomado decisões diametralmente opostas às que de seguida irei criticar, eu voltaria a votar Cavaco Silva nas próximas eleições presidenciais;

• Todos os candidatos presidenciais são maus candidatos, e Cavaco Silva é, sem dúvida, o melhor dos maus;

• Não concordo com a estratégia do "voto útil": é por causa dessa estratégia miserável que o País tem alternado, nas últimas décadas, e com as consequências que se sabem, entre um "laranja" e um "rosa" que pouco diferem, num patético e incompetente "centrão" que se perpetua no poder, e que perpetua a nossa desgraça; o voto útil, nestas eleições presidenciais, e à falta de candidatos decentes, é o voto em branco (*): este é o único voto que passa a mensagem correcta, a de que precisamos de uma nova classe de dirigentes políticos, dotada de moral, de competência e de princípios;

• Não irei fazer a Cavaco Silva nenhuma das imbecis críticas que lhe têm feito, desonestamente, os seus opositores políticos; não lhe vejo nada que se possa apontar em matéria de investimentos pessoais na banca privada, nem em matéria de alegado anti-patriotismo (esta última uma crítica bizarra, visto que a crítica vem da esquerda, essa mesma esquerda que considera o patriotismo como um pecado grave).

Eixo central das críticas a Cavaco Silva

• Ter aprovado, com a sua assinatura, uma série de leis injustas, iníquas, imorais e, nalguns casos, mesmo criminosas;

• Apesar de o Presidente, frequentemente, ter feito acompanhar a sua aprovação dessas leis de um ou outro comentário reprobatório no qual se destacava do texto legislativo, esses seus gestos foram também altamente censuráveis: qual Pilatos, o Presidente promulgou uma série de leis com as quais discordava em questões de fundo, estruturantes: então, porque razão as assinou?

• Cavaco foi um presidente tíbio: em nome da "estabilidade governativa" ou das "boas relações institucionais" entre Presidência e Governo, ou ainda da "maturidade democrática", o Presidente não transformou os seus princípios, os seus pensamentos e palavras, em acções; as suas várias inacções são cúmplices, são colaboradoras, são co-autoras dos males que entretanto foram plasmados na Lei.

Erros estratégicos de Cavaco Silva

• Não foi boa a ideia de defraudar uma parte significativa do seu eleitorado, sobretudo aquela parte que comunga dos mesmos valores que ele, e que votou nele precisamente por essa razão;

• Não é sensato, agora, depois de ter traído essa parte significativa do seu eleitorado, confiar no "voto útil", tentando capitalizar sobre a inépcia dos seus adversários: há eleitores, e eu sou um deles, que mesmo sem alternativa credível a Cavaco Silva, não vão voltar a cometer o erro de votar em Cavaco: os eleitores não são todos trouxas.

(continua)

PS: Vários familiares e amigos já me têm dito: "Mas o Manuel Alegre é péssimo, e era uma desgraça se ele fosse eleito!". Certo. Manuel Alegre é um péssimo candidato. Mas as desgraças são relativas... Como veremos de seguida, quando percorrermos as desgraças legislativas que Cavaco Silva promulgou neste seu último mandato, é muito difícil, ou mesmo impossível, caso Manuel Alegre seja eleito, superar o rol de desgraças cometidas nos últimos anos. É triste dizer isto, sobretudo a quem, como eu, votou Cavaco nas últimas eleições, mas dado o que Cavaco fez, ou ajudou a fazer, é difícil, ou mesmo impossível, fazer pior do que ele. A razão é simples: as piores leis que se possam imaginar já foram todas aprovadas e promulgadas por Cavaco Silva: sobra pouco para estragar... Sim, falta promulgar ainda a monstruosidade da eutanásia: mas, quando confrontado com essa lei, Cavaco iria promulgá-la certamente: se promulgou o aborto, legitimando a destruição de seres humanos sem se consultar a vontade dos próprios, seria bizarro não promulgar a eutanásia.

PPS: Uma queda dramática no número de votos em Cavaco Silva, mesmo que não chegasse para impedir a sua reeleição, teria ainda um outro efeito útil e positivo: transmitir uma forte e inesquecível lição àquelas mentes iluminadas da nossa direita que julgam que é "chique", "moderno" e "urbano" ser-se de direita e anticristão.

(*) Tenho recebido vários e bons argumentos a favor, quer do voto nulo, quer da abstenção. Para o sentido do meu texto, é realmente secundário se a opção melhor será a de votar em branco, votar nulo, ou não votar de todo. O essencial do meu texto está em reiterar que é imoral (e até ilógico) que uma pessoa de princípios morais sólidos vote em Cavaco Silva.


6 comentários:


Alma peregrina disse...


Meu caro amigo:

Partilho completamente da sua intenção de voto. Completamente! Aliás, até já fiz um vídeo sobre o assunto:

http://www.youtube.com/watch?v=aZxSK0B9uXs
Apenas um reparo: em vez de voto branco, talvez seja aconselhável o voto nulo. Por 2 razões:

1) Voto branco traduz indiferença. Voto nulo traduz protesto.

2) A Constituição afirma que o voto branco não é contabilizado em eleições presidenciais, mas é omissa quanto ao voto nulo.

Posto isto, devo dizer que adorei o seu blog e estou agora a segui-lo.

Pax Christi

Nuno CB disse...

Em relação à contabilização do voto não sei bem a resposta. Se o que "Alma peregrina" afirmou é verdade, é lamentável não se saber se é ou não feita contabilização **válida** para o voto nulo.

Já me chegou também que, ao votar em branco, é possível que quem esteja nas mesas de voto coloque uma cruz num candidato. É provável isto acontecer?

Um último aspecto:

Em relação ao segundo post-scriptum, sempre me ensinaram que se escreve Ps: e Pps:, sendo que este é post-post-scriptum!

Abraço e obrigado!

Espectadores disse...

Caro Alma Peregrina

Muito obrigado pelo comentário e pela visita!

Vou pensar na sua sugestão de nulo em vez de branco.

Volte sempre!

abraço

Bernardo

Espectadores disse...

Caro Nuno

Quem vota em branco não tem, realmente, a certeza absoluta de que o seu voto vai permanecer em branco.

Ficamos nas mãos da honestidade das pessoas da nossa mesa de voto.

Quero acreditar nessa honestidade!

Já a questão da contabilização do voto tem que ser vista, pois talvez faça mais sentido votar nulo como protesto em vez de votar em branco.

Obrigado pela correcção em relação ao PPS!

É mesmo como diz!

Abraço

Xiquinho disse...

Olá Bernardo!

Infelizmente eu não voto, se votasse, estava capaz de dar o meu voto ao Cavaco: sei que não é boa peça, mas também não deve ser assim tão mau como o Bernardo o pinta, afinal não foi ele recentemente distinguido com uma medalhinha do Papa?

E não foi uma medalhinha qualquer (Pontifícia Ordem de São Gregório Magno), até lhe dá direito de andar a cavalo dentro da Basílica de São Pedro...

Grande abraço!

Espectadores disse...

Xiquinho,

Quem dedicar a sua vida a seguir os presentes diplomáticos que o Papa entrega em mão, ou manda entregar por um seu representante, verá o óbvio: que esses presentes são o que são: um acto diplomático.
Seria um pouco louco interpretar um presente diplomático papal como qualquer espécie de sanção moral completa, ou parcial, por parte do Papa ao Chefe de Estado que o recebe.
Não disse que Cavaco "não era boa peça". Evitei fazer juízos pessoais a Cavaco Silva. Os únicos que não posso evitar fazer são os juízos à sua actuação pessoal como político.

Não o acho desonesto.

Nem sequer questiono que ele tenha os valores que diz ter.

Questiono, e cheio de razões para tal, a sua actuação, pois essa actuação é uma traição chapada dos valores que ele diz defender.

Um abraço!


[ Blog Espectadores, Parte II ]

A Lei da Procriação Medicamente Assistida

(Lei n.º 32/2006, de 26 de Julho)


Aníbal Cavaco Silva principiou o seu mandato presidencial a 9 de Março de 2006.

Ao ritmo curioso de uma lei revoltantemente imoral por ano, Cavaco Silva promulgou em 2006 a Lei da Procriação Medicamente Assistida, em 2007 a Lei do Aborto, em 2008 a Lei do Divórcio, em 2009 a Lei da Educação Sexual. Em 2010, os Portugueses tiveram direito a dose dupla: a Lei do Casamento Homossexual, e já no final do ano, à laia de festejo de "réveillon", a Lei que regula o Apoio do Estado aos estabelecimentos do ensino particular e cooperativo.

Nesta Segunda Parte, iremos abordar a Lei da Procriação Medicamente Assistida. Esta lei criminosa permite a destruição de seres humanos, mais concretamente, de embriões humanos. No ponto 5.º do Artigo 25.º, que regula o destino dos embriões, diz-se: "5 — Aos embriões que não tiverem possibilidade de ser envolvidos num projecto parental aplica-se o disposto no artigo 9.º". Bom, somos levados a esse magnífico Artigo 9.º, que diz: "3 — O recurso a embriões para investigação científica só pode ser permitido desde que seja razoável esperar que daí possa resultar benefício para a humanidade (...)".

Trocado por miúdos, vale quase tudo no que diz respeito a querer ter filhos: inclusive destruir embriões humanos, caso estes não possam "ser envolvidos num projecto parental". O requinte poético da linguagem do Legislador cai trágico numa lei criminosa e iníqua. Embrião: se ninguém te quiser "envolver" num "projecto paternal", estás tramado. Mas fica descansado: podes ser usado para experiências científicas. Faz lembrar a mítica citação do filme dos Monty Python, The Meaning of Life, na qual um pai de muitos anuncia o seguinte aos seus filhos, que ele não pode sustentar: "I'm afraid I have no choice but to sell you all for scientific experiments." Ao embrião quase a ser desmontado para experiências, a esse ser humano de curta vida e nenhuma voz social, resta o consolo de vir a ser mais um tijolo no nobre edifício da Ciência. Uma ciência estilo Terceiro Reich, é certo, mas ciência todavia!

É o Progresso, pá!

Cavaco Silva assinou assim, com data oficial de 26 de Julho de 2006, a criminosa Lei da Procriação Medicamente Assistida que regula, entre outras coisas edificantes, a forma científica como podem ser "legalmente" destruídos os seres humanos que não se encontrem "envolvidos num projecto paternal". Só por esta razão, uma pessoa de bem não pode voltar a votar em Cavaco Silva. Mas, infelizmente, há mais razões...

(continua)

PS: Há sempre uns engraçadinhos preparados para dizer que um embrião não é um ser humano. Brincam com coisas sérias. Nunca explicam porque é que um aluno do 6º ano arrisca reprovar num teste de Ciências da Natureza (se é que algum aluno ainda reprova) se não souber que a vida humana principia com a fertilização do óvulo humano pelo espermatozóide humano, e ao mesmo tempo, sete vetustos senhores do nobre Tribunal Constitucional alinhavam milhares de linhas para defender a legitimidade do homicídio de seres humanos cujo único azar é a sua pouca idade. Sete em treze juízes (aplaudam-se e respeitem-se os distintos seis juízes que votaram vencidos) invocaram, para se poder matar estes seres humanos, algo belo e erudito como isto: «A reflexão sobre valores numa sociedade democrática, pluralista e de matriz liberal quanto aos direitos fundamentais tem sido objecto privilegiado do pensamento filosófico contemporâneo. Tal reflexão exprime-se na ideia de um “consenso de sobreposição” (overlapping consensus) desenvolvida por JOHN RAWLS, em Political Liberalism, 1993, p. 133 e ss.».

Zigoto humano, embrião humano, feto humano, porque razão dizem eles que te podem matar?

É por causa do Rawls, pá! Vai ler o Rawls, pá!

PPS: O raciocínio ético que leva qualquer cérebro operacional à conclusão de que são seres humanos válidos, quer um zigoto, quer um embrião, quer um feto da espécie Homo Sapiens, é um raciocínio simples e claro. Tão simples que uma criança lúcida (como elas costumam ser) é capaz de o fazer. Eis um dos muitos exemplos de argumento, escrito por mim há uns meses: O estatuto ético do zigoto humano. O raciocínio contrário nem merece ser chamado de raciocínio: a defesa do pretenso "direito" a matar seres humanos inocentes de tenra idade estrutura-se numa prevalência da vontade tirana sobre a razão e a verdade morais. Num utilitarismo unilateral (desprezando-se a negativa utilidade do aborto para o próprio do ser humano abortado), aborta-se porque sim. Porque dá jeito. E se for necessário, para afirmar esse pretenso direito, invocar as glórias da Ciência (como a Lei da Procriação Medicamente Assistida), os louros da Liberdade, ou pura e simplesmente a Mentira, então faça-se!


3 comentários

Xiquinho disse...

Estou confuso… então o Cavaco fez estas patifarias todas e de recompensa, presumo, ainda recebeu uma condecoração das mãos de Sua Santidade no ano passado, por, e passo a citar: reconhecimento a seus serviços à Igreja, feitos notáveis, apoio à Santa Sé e ao bom exemplo dado à sociedade!!!

Querem ver que o Vigário de Cristo se enganou na condecoração…

PS: E quem parece que se enganou, foi o Bernardo, ou então fugiu-lhe a boca, digo, a pena, para a verdade:

Esta lei criminosa permite a destruição de seres humanos, mais concretamente, de embriões humanos

Mais concretamente? Então afinal há uma diferença concreta entre embriões humanos e seres humanos? É bem capaz de haver, pois só assim faz sentido em falar de mais concretamente, ou menos concretamente, ou lo que seja. É que a lei até pode ser criminosa. Mas bastava dizer que permite a destruição de seres humanos ou que permite a destruição de embriões humanos. Mas mais concretamente, ficou demonstrado que afinal um ser humano e um embrião humano, não são exactamente a mesma coisa. Até mesmo para o Bernardo.

Outro abraço!

Espectadores disse...

Olá Xiquinho,
 
Já deixei um comentário no "post" Parte I relativo à condecoração papal...

Evidentemente, não faz sentido tomar uma oferta ou condecoração diplomática (e qualquer Papa faz centenas delas) como um qualquer tipo de sanção moral, parcial ou completa, ao receptor da oferta ou condecoração.

«Mais concretamente? Então afinal há uma diferença concreta entre embriões humanos e seres humanos?»

É simples, Xiquinho.

"Embriões humanos" é uma categoria interior da classe "seres humanos". Como "crianças" é uma categoria interior da classe "seres humanos". Como "idosos" é uma categoria interior da classe "seres humanos".

Comigo, a desconversa não funciona!

Poderia ter-me enganado, mas procuro pensar muito bem antes de escrever, para evitar argoladas.

A sua crítica não tem força.

A expressão "mais concretamente" é usada para fazer enfoque sobre uma categoria interior à categoria geral de "seres humanos".

A diferença entre ambas não é de essência (falamos sempre de seres humanos) mas sim de âmbito etário. Um zigoto está num âmbito etário diferente do de um embrião, diferente do de um feto, do de uma criança, do de um adolescente, do de um adulto.

Assim, a sua objecção não tem eficácia. A não ser que nos explicasse porque razão é que a idade é um critério essencial, no determinar do direito à vida.

Um abraço!

CSousa disse...

Mas que m*rd* de irraciocínio!















Eu sou um ser humano, mais concretamente um humano adulto.





Ah!... Xiça pá!... Afinal não sou um humano :(
 

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Onde estavas Tu, ó Deus?...

Assim que viu o cirurgião sair da sala de operações, ela precipitou-se sobre ele.

Perguntou:

-- Como é que está o meu filho? Ele vai ficar bom? Quando é que eu posso vê-lo?

O cirurgião respondeu:

-- Tenho pena. Fizémos tudo o possível mas o seu filho não resistiu.

Sally perguntou:

-- Porque razão é que as crianças pequenas tem câncro? Será que Deus não se preocupa? Onde estavas Tu, ó Deus, quando o meu filho necessitava?...

O cirurgião perguntou:

-- Quer ficar algum tempo com o seu filho? Uma das enfermeiras irá trazê-lo dentro de alguns minutos e depois será transportado para a Universidade.

Sally pediu à enfermeira para ficar com ela enquanto se despedia do seu filho. Passou os dedos pelo cabelo ruivo do seu filho.

-- Quer uma madeixa? -- Perguntou a enfermeira.
Sally abanou a cabeça afirmativamente.

A enfermeira cortou o cabelo e colocou-o num saco de plástico, entregando-o a Sally.

-- Foi ideia do próprio Jimmy doar o seu corpo à Universidade porque assim talvez pudesse ajudar outra pessoa -- disse Sally. No início eu disse que não, mas o Jimmy respondeu: -- Mãe, eu não vou necessitar do meu corpo depois de morrer. Talvez possa ajudar outro menino a ficar mais um dia com a sua mãe.

Ela continuou:

-- O meu Jimmy tinha um coração de ouro. Estava sempre a pensar nos outros. Sempre disposto a ajudar, se pudesse.

Depois de aí ter passado a maior parte dos últimos seis meses, Sally saiu do Hospital Children's Mercy pela última vez. Colocou o saco com as coisas do seu filho no banco do carro a seu lado. A viagem para casa foi muito difícil. Foi ainda mais difícil entrar na casa vazia.

Levou o saco com as coisas do Jimmy, incluindo o cabelo, para o quarto do filho. Começou a colocar os carros e as outras coisas no quarto, exatamente nos locais onde ele sempre os teve. Deitou-se na cama dele, agarrou a almofada e chorou até que adormeceu.

Era quase meia-noite quando acordou. Ao seu lado estava uma carta. A carta dizia:

-- Querida Mãe,
Sei que vais ter muitas saudades minhas; mas não penses que me vou esquecer de ti, ou que vou deixar de te amar só porque não estou perto para dizer «AMO-TE».
Eu vou sempre amar-te cada vez mais, Mãe, por cada dia que passe.
Um dia vamos de novo estar juntos. Mas até chegar esse dia, se quiseres adoptar um menino para não ficares tão sozinha, por mim está bem.
Ele pode ficar com o meu quarto e as minhas coisas para brincar. Mas se preferires uma menina, talvez não vá gostar das mesmas coisas que nós, rapazes.
Vais ter de comprar bonecas e outras coisas de que as meninas gostam, tu sabes.
Não fiques triste a pensar em mim. Este lugar é mesmo fantástico!


Os avós vieram receber-me assim que eu cheguei para me mostrarem tudo, mas vai demorar muito tempo para eu poder ver tudo.
Os Anjos são mesmo lindos! Adoro vê-los a voar!
E sabes uma coisa?...


O Jesus não se parece nada como se vê nas fotos, embora quando o vi o tenha reconhecido logo.
Ele levou-me a visitar Deus!
E sabes uma coisa?...
Sentei-me no colo d'Ele e falei com Ele, como se eu fosse uma pessoa importante. Foi quando lhe disse que queria escrever-te esta carta, para te dizer adeus e tudo mais.
Mas eu já sabia que não era permitido.
Mas sabes uma coisa Mãe?...
Deus entregou-me papel e a sua caneta pessoal para eu poder escrever-te esta carta.


Acho que Gabriel é o anjo que te vai entregar a carta.
Deus disse para eu responder a uma das perguntas que tu Lhe fizeste: onde estava Ele quando eu mais precisava?...
Deus disse que estava no mesmo sítio, tal e qual, quando o Filho 'Ele, Jesus, foi crucificado. Ele estava presente, tal e qual como está com todos os filhos dele.
Mãe, só tu é que consegues ver o que eu escrevi, mais ninguém.
As outras pessoas veem este papel em branco.
É mesmo maravilhoso não é!?...
Eu tenho de dar a caneta de volta a Deus para ele poder continuar a escrever no seu Livro da Vida.
Esta noite vou jantar na mesma mesa com Jesus.
Tenho a certeza de que a comida vai ser boa.
Estava quase a esquecer-me: já não tenho dores, o câncro já se foi embora.
Ainda bem, porque já não podia mais e Deus também não podia ver-me assim.
Foi quando ele enviou o Anjo da Misericórdia para me vir buscar.
O Anjo disse que eu era uma encomenda especial! O que dizes a isto?...
Assinado com Amor de Deus, Jesus e de Mim.

Traduzido de «This is beautiful! Try not to cry.»
(Isto é lindo! Tenta não chorar.)


Reencaminha este post para os teus amigos.


sábado, 1 de janeiro de 2011

Fátima:
Reitor do Santuário denuncia ataques à família

Padre Virgílio Antunes
aponta o dedo a lóbis
que promovem posições contrárias à Igreja

O Reitor do Santuário de Fátima, padre Virgílio Antunes, disse este Domingo que, na sociedade actual, as famílias são alvos de ataques e grandes campanhas.

Este responsável falou em «muitos Herodes que se levantam para matar a família de Nazaré».

O inimigo cresce dentro do coração do homem quando este cede ao desejo, a sentimentos transitórios, à paixão sem responsabilidade, ao amor a curto prazo, à imoralidade.

Aos milhares de fiéis que enchiam por completo a igreja da Santíssima Trindade, o reitor do Santuário denunciou os «lóbis que sob a capa da modernidade mais não são que ataques à família e à Igreja.

Aos católicos pediu que não tenham medo de lutar «mesmo que isso destoe nos ambientes em que vivemos e trabalhamos ou ainda que sintam dificuldades devem «mostrar a vossa consciência e a fé que professam».

«Senhor, nosso criador e nosso Pai! Vós, que sois mistério trinitário de amor e conheceis a necessidade de amor em nossas vidas, dignai-vos fazer crescer em nós as energias necessárias, para que as nossas famílias resplandeçam como santuários da vossa habitação na terra e por elas cresça também a vossa Igreja como sacramento de salvação para o mundo», rezaram os presentes durante a Eucaristia dominical na Solenidade da Sagrada Família.

 

Bento XVI homem do ano
em razão das suas homilias

Sandro Magister
As homilias de Bento XVI são o eixo do seu magistério ordinário. Elas contam a aventura de Deus na história do mundo. Elas levantam o véu sobre as «coisas do alto». Um guia de leitura da predicação litúrgica do actual Papa.

Anno liturgico 2010, edited by Sandro Magister,
Libri Scheiwiller, Milan, 2010, pp. 420, euro 18.00.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Hitler, a guerra e o Papa

Hitler, a Guerra e o Papa é o título do livro de Ronald J. Rychlak apresentado em Nova Iorque no dia 11 de Dezembro.

Advogado e formado em Economia, o autor apresenta documentos e depoimentos que prestam esclarecimentos sobre a acção do Papa Pio XII durante a II Guerra Mundial.

O volume foi oferecido a Bento XVI, no Vaticano, por Gary e Meredith Krupp, fundador da «Pave the Way Foundation» (PTWF).

Foi também apresentada outra obra histórica, dos jesuítas Robert J. Araujo e John Lucal: Diplomacia Pontifícia e Organizações Internacionais.

Esta apresentação foi organizada pela Missão de Observação Permanente da Santa Sé nas Nações Unidas.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Carta de Bento XVI aos seminaristas




Queridos Seminaristas,

Em Dezembro de 1944, quando fui chamado para o serviço militar, o comandante de companhia perguntou a cada um de nós a profissão que sonhava ter no futuro. Respondi que queria tornar-me sacerdote católico. O subtenente replicou: Nesse caso, convém-lhe procurar outra coisa qualquer; na nova Alemanha, já não há necessidade de padres. Eu sabia que esta «nova Alemanha» estava já no fim e que, depois das enormes devastações causadas por aquela loucura no país, mais do que nunca haveria necessidade de sacerdotes. Hoje, a situação é completamente diversa; porém de vários modos, mesmo em nossos dias, muitos pensam que o sacerdócio católico não seja uma «profissão» do futuro, antes pertenceria já ao passado. Contrariando tais objecções e opiniões, vós, queridos amigos, decidistes-vos a entrar no Seminário, encaminhando-vos assim para o ministério sacerdotal na Igreja Católica. E fizestes bem, porque os homens sempre terão necessidade de Deus – mesmo na época do predomínio da técnica no mundo e da globalização –, do Deus que Se mostrou a nós em Jesus Cristo e nos reúne na Igreja universal, para aprender, com Ele e por meio d’Ele, a verdadeira vida e manter presentes e tornar eficazes os critérios da verdadeira humanidade. Sempre que o homem deixa de ter a noção de Deus, a vida torna-se vazia; tudo é insuficiente. Depois o homem busca refúgio na alienação ou na violência, ameaça esta que recai cada vez mais sobre a própria juventude. Deus vive; criou cada um de nós e, por conseguinte, conhece a todos. É tão grande que tem tempo para as nossas coisas mais insignificantes: «Até os cabelos da vossa cabeça estão contados». Deus vive, e precisa de homens que vivam para Ele e O levem aos outros. Sim, tem sentido tornar-se sacerdote: o mundo tem necessidade de sacerdotes, de pastores hoje, amanhã e sempre enquanto existir.

O Seminário é uma comunidade que caminha para o serviço sacerdotal. Nestas palavras, disse já algo de muito importante: uma pessoa não se torna sacerdote, sozinha. É necessária a «comunidade dos discípulos», o conjunto daqueles que querem servir a Igreja de todos. Com esta carta, quero evidenciar – olhando retrospectivamente também para o meu tempo de Seminário – alguns elementos importantes para o vosso caminho a fazer nestes anos.



1. Quem quer tornar-se sacerdote, deve ser sobretudo um «homem de Deus», como o apresenta São Paulo (1 Tm 6, 11). Para nós, Deus não é uma hipótese remota, não é um desconhecido que se retirou depois do «big-bang». Deus mostrou-Se em Jesus Cristo. No rosto de Jesus Cristo, vemos o rosto de Deus. Nas suas palavras, ouvimos o próprio Deus a falar connosco. Por isso, o elemento mais importante no caminho para o sacerdócio e ao longo de toda a vida sacerdotal é a relação pessoal com Deus em Jesus Cristo. O sacerdote não é o administrador de uma associação qualquer, cujo número de membros se procura manter e aumentar. É o mensageiro de Deus no meio dos homens; quer conduzir a Deus, e assim fazer crescer também a verdadeira comunhão dos homens entre si. Por isso, queridos amigos, é muito importante aprenderdes a viver em permanente contacto com Deus. Quando o Senhor fala de «orar sempre», naturalmente não pede para estarmos continuamente a rezar por palavras, mas para conservarmos sempre o contacto interior com Deus. Exercitar-se neste contacto é o sentido da nossa oração. Por isso, é importante que o dia comece e acabe com a oração; que escutemos Deus na leitura da Sagrada Escritura; que Lhe digamos os nossos desejos e as nossas esperanças, as nossas alegrias e sofrimentos, os nossos erros e o nosso agradecimento por cada coisa bela e boa, e que deste modo sempre O tenhamos diante dos nossos olhos como ponto de referência da nossa vida. Assim tornamo-nos sensíveis aos nossos erros e aprendemos a trabalhar para nos melhorarmos; mas tornamo-nos sensíveis também a tudo o que de belo e bom recebemos habitualmente cada dia, e assim cresce a gratidão. E, com a gratidão, cresce a alegria pelo facto de que Deus está perto de nós e podemos servi-Lo.

2. Para nós, Deus não é só uma palavra. Nos sacramentos, dá-Se pessoalmente a nós, através de elementos corporais. O centro da nossa relação com Deus e da configuração da nossa vida é a Eucaristia; celebrá-la com íntima participação e assim encontrar Cristo em pessoa deve ser o centro de todas as nossas jornadas. Para além do mais, São Cipriano interpretou a súplica do Evangelho «o pão nosso de cada dia nos dai hoje», dizendo que o pão «nosso», que, como cristãos, podemos receber na Igreja, é precisamente Jesus eucarístico. Por conseguinte, na referida súplica do Pai Nosso, pedimos que Ele nos conceda cada dia este pão «nosso»; que o mesmo seja sempre o alimento da nossa vida, que Cristo ressuscitado, que Se nos dá na Eucaristia, plasme verdadeiramente toda a nossa vida com o esplendor do seu amor divino. Para uma recta celebração eucarística, é necessário aprendermos também a conhecer, compreender e amar a liturgia da Igreja na sua forma concreta. Na liturgia, rezamos com os fiéis de todos os séculos; passado, presente e futuro encontram-se num único grande coro de oração. A partir do meu próprio caminho, posso afirmar que é entusiasmante aprender a compreender pouco a pouco como tudo isto foi crescendo, quanta experiência de fé há na estrutura da liturgia da Missa, quantas gerações a formaram rezando.

3. Importante é também o sacramento da Penitência. Ensina a olhar-me do ponto de vista de Deus e obriga-me a ser honesto comigo mesmo; leva-me à humildade. Uma vez o Cura d’Ars disse: Pensais que não tem sentido obter a absolvição hoje, sabendo entretanto que amanhã fareis de novo os mesmos pecados. Mas – assim disse ele – o próprio Deus neste momento esquece os vossos pecados de amanhã, para vos dar a sua graça hoje. Embora tenhamos de lutar continuamente contra os mesmos erros, é importante opor-se ao embrutecimento da alma, à indiferença que se resigna com o facto de sermos feitos assim. Na grata certeza de que Deus me perdoa sempre de novo, é importante continuar a caminhar, sem cair em escrúpulos mas também sem cair na indiferença, que já não me faria lutar pela santidade e o aperfeiçoamento. E, deixando-me perdoar, aprendo também a perdoar aos outros; reconhecendo a minha miséria, também me torno mais tolerante e compreensivo com as fraquezas do próximo.

4. Mantende em vós também a sensibilidade pela piedade popular, que, apesar de diversa em todas as culturas, é sempre também muito semelhante, porque, no fim de contas, o coração do homem é o mesmo. É certo que a piedade popular tende para a irracionalidade e, às vezes, talvez mesmo para a exterioridade. No entanto, excluí-la, é completamente errado. Através dela, a fé entrou no coração dos homens, tornou-se parte dos seus sentimentos, dos seus costumes, do seu sentir e viver comum. Por isso a piedade popular é um grande património da Igreja. A fé fez-se carne e sangue. Seguramente a piedade popular deve ser sempre purificada, referida ao centro, mas merece a nossa estima; de modo plenamente real, ela faz de nós mesmos «Povo de Deus».

5. O tempo no Seminário é também e sobretudo tempo de estudo. A fé cristã possui uma dimensão racional e intelectual, que lhe é essencial. Sem tal dimensão, a fé deixaria de ser ela mesma. Paulo fala de uma «norma da doutrina», à qual fomos entregues no Baptismo (Rm 6, 17). Todos vós conheceis a frase de São Pedro, considerada pelos teólogos medievais como a justificação para uma teologia elaborada racional e cientificamente: «Sempre prontos a responder (…) a todo aquele que vos perguntar "a razão" (logos) da vossa esperança» (1 Ped 3, 15). Adquirir a capacidade para dar tais respostas é uma das principais funções dos anos de Seminário. Tudo o que vos peço insistentemente é isto: Estudai com empenho! Fazei render os anos do estudo! Não vos arrependereis. É certo que muitas vezes as matérias de estudo parecem muito distantes da prática da vida cristã e do serviço pastoral. Mas é completamente errado pôr-se imediatamente e sempre a pergunta pragmática: Poderá isto servir-me no futuro? Terá utilidade prática, pastoral? É que não se trata apenas de aprender as coisas evidentemente úteis, mas de conhecer e compreender a estrutura interna da fé na sua totalidade, de modo que a mesma se torne resposta às questões dos homens, os quais, do ponto de vista exterior, mudam de geração em geração e todavia, no fundo, permanecem os mesmos. Por isso, é importante ultrapassar as questões volúveis do momento para se compreender as questões verdadeiras e próprias e, deste modo, perceber também as respostas como verdadeiras respostas. É importante conhecer a fundo e integralmente a Sagrada Escritura, na sua unidade de Antigo e Novo Testamento: a formação dos textos, a sua peculiaridade literária, a gradual composição dos mesmos até se formar o cânon dos livros sagrados, a unidade dinâmica interior que não se nota à superfície, mas é a única que dá a todos e cada um dos textos o seu pleno significado. É importante conhecer os Padres e os grandes Concílios, onde a Igreja assimilou, reflectindo e acreditando, as afirmações essenciais da Escritura. E poderia continuar assim: aquilo que designamos por dogmática é a compreensão dos diversos conteúdos da fé na sua unidade, mais ainda, na sua derradeira simplicidade, pois cada um dos detalhes, no fim de contas, é apenas explanação da fé no único Deus, que Se manifestou e continua a manifestar-Se a nós. Que é importante conhecer as questões essenciais da teologia moral e da doutrina social católica, não será preciso que vo-lo diga expressamente. Quão importante seja hoje a teologia ecuménica, conhecer as várias comunidade cristãs, é evidente; e o mesmo se diga da necessidade duma orientação fundamental sobre as grandes religiões e, não menos importante, sobre a filosofia: a compreensão daquele indagar e questionar humano ao qual a fé quer dar resposta. Mas aprendei também a compreender e – ouso dizer – a amar o direito canónico na sua necessidade intrínseca e nas formas da sua aplicação prática: uma sociedade sem direito seria uma sociedade desprovida de direitos. O direito é condição do amor. Agora não quero continuar o elenco, mas dizer-vos apenas e uma vez mais: Amai o estudo da teologia e segui-o com diligente sensibilidade para ancorardes a teologia à comunidade viva da Igreja, a qual, com a sua autoridade, não é um pólo oposto à ciência teológica, mas o seu pressuposto. Sem a Igreja que crê, a teologia deixa de ser ela própria e torna-se um conjunto de disciplinas diversas sem unidade interior.

6. Os anos no Seminário devem ser também um tempo de maturação humana. Para o sacerdote, que terá de acompanhar os outros ao longo do caminho da vida e até às portas da morte, é importante que ele mesmo tenha posto em justo equilíbrio coração e intelecto, razão e sentimento, corpo e alma, e que seja humanamente «íntegro». Por isso, a tradição cristã sempre associou às «virtudes teologais» as «virtudes cardeais», derivadas da experiência humana e da filosofia, e também em geral a sã tradição ética da humanidade. Di-lo, de maneira muito clara, Paulo aos Filipenses: «Quanto ao resto, irmãos, tudo o que é verdadeiro, nobre e justo, tudo o que é puro, amável e de boa reputação, tudo o que é virtude e digno de louvor, isto deveis ter no pensamento» (4, 8). Faz parte deste contexto também a integração da sexualidade no conjunto da personalidade. A sexualidade é um dom do Criador, mas também uma função que tem a ver com o desenvolvimento do próprio ser humano. Quando não é integrada na pessoa, a sexualidade torna-se banal e ao mesmo tempo destrutiva. Vemos isto, hoje, em muitos exemplos da nossa sociedade. Recentemente, tivemos de constatar com grande mágoa que sacerdotes desfiguraram o seu ministério, abusando sexualmente de crianças e adolescentes. Em vez de levar as pessoas a uma humanidade madura e servir-lhes de exemplo, com os seus abusos provocaram devastações, pelas quais sentimos profunda pena e desgosto. Por causa de tudo isto, pode ter-se levantado em muitos, e talvez mesmo em vós próprios, esta questão: se é bom fazer-se sacerdote, se o caminho do celibato é sensato como vida humana. Mas o abuso, que há que reprovar profundamente, não pode desacreditar a missão sacerdotal, que permanece grande e pura. Graças a Deus, todos conhecemos sacerdotes convincentes, plasmados pela sua fé, que testemunham que, neste estado e precisamente na vida celibatária, é possível chegar a uma humanidade autêntica, pura e madura. Entretanto o sucedido deve tornar-nos mais vigilantes e solícitos, levando precisamente a interrogarmo-nos cuidadosamente a nós mesmos diante de Deus ao longo do caminho rumo ao sacerdócio, para compreender se este constitui a sua vontade para mim. É função dos padres confessores e dos vossos superiores acompanhar-vos e ajudar-vos neste percurso de discernimento. É um elemento essencial do vosso caminho praticar as virtudes humanas fundamentais, mantendo o olhar fixo em Deus que Se manifestou em Cristo, e deixar-se incessantemente purificar por Ele.

7. Hoje os princípios da vocação sacerdotal são mais variados e distintos do que nos anos passados. Muitas vezes a decisão para o sacerdócio desponta nas experiências de uma profissão secular já assumida. Frequentemente cresce nas comunidades, especialmente nos movimentos, que favorecem um encontro comunitário com Cristo e a sua Igreja, uma experiência espiritual e a alegria no serviço da fé. A decisão amadurece também em encontros muito pessoais com a grandeza e a miséria do ser humano. Deste modo os candidatos ao sacerdócio vivem muitas vezes em continentes espirituais completamente diversos; poderá ser difícil reconhecer os elementos comuns do futuro mandato e do seu itinerário espiritual. Por isso mesmo, o Seminário é importante como comunidade em caminho que está acima das várias formas de espiritualidade. Os movimentos são uma realidade magnífica; sabeis quanto os aprecio e amo como dom do Espírito Santo à Igreja. Mas devem ser avaliados segundo o modo como todos se abrem à realidade católica comum, à vida da única e comum Igreja de Cristo que permanece uma só em toda a sua variedade. O Seminário é o período em que aprendeis um com o outro e um do outro. Na convivência, por vezes talvez difícil, deveis aprender a generosidade e a tolerância não só suportando-vos mutuamente, mas também enriquecendo-vos um ao outro, de modo que cada um possa contribuir com os seus dotes peculiares para o conjunto, enquanto todos servem a mesma Igreja, o mesmo Senhor. Esta escola da tolerância, antes do aceitar-se e compreender-se na unidade do Corpo de Cristo, faz parte dos elementos importantes dos anos de Seminário.

Queridos seminaristas! Com estas linhas, quis mostrar-vos quanto penso em vós precisamente nestes tempos difíceis e quanto estou unido convosco na oração. Rezai também por mim, para que possa desempenhar bem o meu serviço, enquanto o Senhor quiser. Confio o vosso caminho de preparação para o sacerdócio à protecção materna de Maria Santíssima, cuja casa foi escola de bem e de graça. A todos vos abençoe Deus omnipotente Pai, Filho e Espírito Santo.

Vaticano, 18 de Outubro – Festa de São Lucas, Evangelista – do ano 2010.

Vosso no Senhor



quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Dia de Natal*

Diálogo entre o Pai Natal e o Menino Jesus

P. Gonçalo Portocarrero de Almada

Foi numa esquina qualquer que se encontraram o Pai Natal e o Menino Jesus. Enquanto aquele se preparava para trepar um prédio, com o seu saco às costas, este último, recém-nascido, descia à terra e oferecia-se inerme, num pobre estandarte, que cobria uma mísera janela.

– Quem és tu, Menino – disse o velho – e que fazes por aqui?! É a primeira vez que te vejo!

– Sou Jesus de Nazaré e ando há vinte séculos à procura de uma casa que me receba e, como há dois mil anos em Belém, não há quem me dê pousada.

– Pois não é de estranhar! Não vês que vens quase nu?! Porque não trazes roupas quentes, como as que eu tenho, para me proteger do frio do inverno?

– O calor com que me aqueço é o fogo do meu amor e o afecto dos que me amam.

– Eu trago muitos presentes, para os distribuir pelas casas das redondezas. E tu, que andas por aqui a fazer?

– Eu sou rico, mas fiz-me pobre, para os pobres enriquecer com a minha pobreza. Eu próprio sou o presente de quem me acolher. Não vim ensinar os homens a ter, mas a ser, porque quanto mais despojada é a vida humana, maior é aos olhos do Criador.

– E de onde vens e como vieste até aqui? Eu venho da Lapónia, lá para as bandas do pólo norte.

– Eu venho do céu, de onde é o meu Pai eterno, e vim ao mundo pelo sim de uma virgem, que me concebeu do Espírito Santo.

– Que coisa estranha! Nunca ouvi falar de ninguém que tenha nascido de uma virgem e assim tenha vindo ao mundo! E não tens nenhum animal que te transporte para tão longa viagem, como eu tenho estas renas?

– Um burrinho foi a minha companhia em Belém, e foi também o meu trono real, na entrada triunfal em Jerusalém.

– Um burro?! Não é grande coisa, para trono de um rei…

– O meu reino não é deste mundo e a sua entrada é tão estreita que os meus cortesãos, para lá entrarem, se têm que fazer pequeninos, porque destes é o meu reino.

– E que coisas ofereces? Que tesouros tens para dar? Que prometes?

– Trago a felicidade, mas escondida na cruz de cada dia; trago o céu, mas oculto no pó da terra; trago a alegria e a paz, mas no reverso das labutas do próprio dever; trago a eternidade, mas no tempo gasto ao serviço dos outros; trago o amor, mas como flor e fruto da entrega sacrificada.

– Pois eu trago as coisas que me pediram: jogos e brinquedos para os miúdos e, para os graúdos, saúde, prazer, riqueza e poder. Mas, por mais que lhes dê, nunca estão satisfeitos!

– A quem me dou, quer-me sempre mais na caridade que tem aos outros, porque é nos outros que eu quero que me amem a mim.

– Mais um enigma! De facto, somos muito diferentes, mas pelo menos numa coisa nos parecemos: ambos estamos sós, nesta noite de consoada!

– Eu nunca estou só, porque onde estou, está sempre o meu Pai e onde eu e o Pai estamos, está também o Amor que nós somos e estão aqueles que me amam.

– Bom, a conversa está demorada e ainda tenho muitas casas para assaltar, pela lareira, como manda a praxe.

– Eu estou à porta e bato e só entrarei na casa de quem liberrimamente me abrir a porta do seu coração e aí cearei e farei a minha morada.

– Pois sim, mas eu vou andando que já estou velho e cansado …

– Eu acabo de nascer e quem, mesmo sendo velho, renascer comigo, será como uma fonte de água viva a jorrar para a vida eterna.

O velho Pai Natal, resmungando, subiu ao telhado do luxuoso prédio, atirou-se pela chaminé abaixo e desapareceu.

Foi então que a janela onde estava o estandarte se abriu e uma pobre velhinha de rosto enrugado, como um antigo pergaminho, beijou o reverso da imagem do Deus Menino, que estremeceu de emoção. A seguir, encostou a vidraça, apagou a luz e, muito de mansinho, adormeceu. Depois, o Menino Jesus, sem a acordar, pegou nela ao colo e, fazendo do seu pendão um tapete mágico, levou-a consigo para o Céu.

* Os primeiros cristãos chamavam dies natalis, ou seja, natal, ao dia da sua morte, porque entendiam que esse era o dia do seu nascimento para a verdadeira vida.


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segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Bento XVI alenta nova geração de católicos
sem complexos de inferioridade na política


Em Outubro, na sua mensagem pela 46.° Semana Social dos católicos italianos, o Papa Bento XVI explicou que para trabalhar pelo bem comum de um país e de toda a grande família humana é necessário que "surja uma nova geração de católicos, pessoas interiormente renovadas que se esforcem na actividade política sem complexos de inferioridade".

Assim o indicou na carta enviada ao Presidente da Conferência Episcopal Italiana e Arcebispo de Génova, o Cardeal Angelo Bagnasco, por ocasião do mencionado evento em Reggio Calabria com o tema "Uma agenda de esperança para o futuro do país".

No texto, com data de 12 de Outubro, divulgada pelo L'Osservatore Romano, o Santo Padre assinala que diante da crise económica global que também afecta a Itália e que gera nos jovens sentimentos de desesperança "é necessário reconhecer e sustentar com força e com actos a insubstituível função social da família, coração da vida afectiva e relacional, o melhor lugar no qual se assegura a ajuda, a atenção, a solidariedade, a capacidade de transmissão do património de valores às novas gerações".

"Por isso é necessário que todos os sujeitos institucionais e sociais se esforcem em assegurar à família eficazes medidas de apoio, dotando-a de recursos adequados e permitindo uma justa conciliação com o tempo de trabalho", acrescentou.

Ao falar do desenvolvimento humano integral, tema de sua encíclica Caritas in Veritate, o Papa ressalta que "fazer frente aos problemas actuais, tutelando a vida humana desde a concepção até a morte natural, defendendo a dignidade da pessoa, protegendo o ambiente e promovendo a paz, não é uma tarefa fácil, mas tampouco impossível, se mantivermos firme a confiança na capacidade do homem, amplia-se o conceito de razão e seu uso e cada um assume suas próprias responsabilidades".

Mover-se no mundo nesta perspectiva de responsabilidade, continua o Santo Padre, "comporta a disponibilidade a sair do próprio interesse exclusivo, para perseguir juntos o bem do país e da inteira família humana. A Igreja, quando reclama o horizonte do bem comum – categoria que leva sua doutrina social – se refere ao 'bem de todos nós', que 'não se busca por si mesmo, mas para as pessoas que fazem parte da comunidade social e que só nela podem realmente e mais eficazmente conseguir seu bem'".

Por outras palavras, explica Bento XVI, "o bem comum é o que constrói e qualifica a cidade dos homens, o critério fundamental da vida social e política, o fim do actuar humano e do progresso e, 'exigência de justiça e caridade', promoção do respeito aos direitos dos indivíduos e povos, além de relações caracterizadas pela lógica do dom. Isso encontra nos valores do cristianismo o 'elemento não só útil, mas também indispensável para a construção de uma boa sociedade e de um verdadeiro desenvolvimento humano integral'".

Por esta razão, exortou o Papa, "renovo o chamado para que surja uma nova geração de católicos, pessoas interiormente renovadas que se esforcem na actividade política sem complexos de inferioridade. Tal presença, certamente não se improvisa, permanece como o objectivo para o qual deve tender um caminho de formação intelectual e moral que, partindo das grandes verdades em torno de Deus, ao homem e ao mundo, ofereça critérios de julgamento e princípios éticos para interpretar o bem de todos e de cada um".

Bento XVI assinala que esta tarefa, a educação para formar consciências cristãs amadurecidas e assumir a responsabilidade política com competência profissional e espírito de serviço constitui "uma alta vocação, à qual a Igreja convida a responder com humildade e determinação".